Desmond Doss: o homem que salvou 75 em Okinawa

Por Cenas de Combate

Em 29 de abril de 1945, durante uma das fases mais violentas da Batalha de Okinawa, o soldado de primeira classe Desmond T. Doss

Desmond Doss: o homem que salvou 75 em Okinawa

Em 29 de abril de 1945, durante uma das fases mais violentas da Batalha de Okinawa, o soldado de primeira classe Desmond T. Doss avançou com o 1º Batalhão até o topo de uma escarpa de cerca de 120 metros conhecida como Hacksaw Ridge.

O local, oficialmente associado à Escarpa de Maeda, tornou-se um dos pontos mais brutais da campanha no Pacífico. Tropas americanas enfrentavam artilharia, morteiros, metralhadoras e resistência japonesa em terreno elevado e fortificado.

Mas Doss não era um combatente comum. Adventista do Sétimo Dia e objetor de consciência, ele se recusava a carregar armas ou matar soldados inimigos. Mesmo assim, entrou em combate como socorrista militar.

Desmond Doss foi para uma das zonas de combate mais letais da Segunda Guerra Mundial completamente desarmado — e saiu dela como um dos maiores heróis de Okinawa.

O inferno em Hacksaw Ridge

Quando os americanos chegaram ao topo da escarpa, foram atingidos por fogo pesado. A artilharia japonesa, morteiros e metralhadoras varreram as posições recém-conquistadas.

Cerca de 75 homens se tornaram baixas, e as tropas restantes foram obrigadas a recuar. Naquele momento, Doss tomou uma decisão que marcaria sua vida para sempre: ele ficou para trás.

Sem fuzil, sem cobertura adequada e sob fogo inimigo, ele começou a resgatar os feridos um por um. Levava cada homem até a borda da escarpa e os baixava com um sistema improvisado de cordas, usando um nó duplo para sustentar a maca.

“Só mais um”

Enquanto o fogo continuava, Doss repetia sua missão. Ele buscava um ferido, arrastava-o até a borda, baixava o homem para mãos amigas e voltava para procurar outro.

A ação atravessou horas de tensão extrema. Ao fim, estima-se que ele tenha salvado 75 soldados em Hacksaw Ridge, mesmo sem disparar um único tiro.

A história ficou marcada pela ideia de que Doss, exausto, pedia forças para salvar “só mais um”. Essa frase se tornou símbolo de sua fé, resistência e compromisso com os feridos.

Resgates sob fogo direto

Nos dias seguintes, Doss continuou arriscando a própria vida. Em 2 de maio, avançou cerca de 180 metros à frente das linhas americanas para resgatar um homem ferido sob fogo de rifle e morteiro.

Dois dias depois, quatro soldados foram atingidos durante o ataque a uma caverna fortemente defendida. Doss avançou sob granadas até ficar a poucos metros das posições japonesas, tratou os feridos no local e fez quatro viagens para evacuá-los.

Em 5 de maio, voltou a se expor ao fogo de artilharia e armas leves para socorrer um oficial de artilharia ferido. Aplicou curativos, levou o homem para cobertura e administrou plasma.

Ferido, ainda pensou em outro soldado

Em 21 de maio, durante um ataque noturno perto de Shuri, Doss permaneceu em área exposta para ajudar feridos até ser gravemente atingido nas pernas por uma granada.

Mesmo ferido, ele não chamou outro socorrista para se arriscar em seu lugar. Cuidou dos próprios ferimentos e esperou horas até que padioleiros conseguissem chegar.

Durante a evacuação, o grupo foi surpreendido por um ataque de tanques. Doss viu outro soldado em estado mais grave e ordenou que os padioleiros atendessem primeiro aquele homem.

Enquanto esperava, foi atingido por um disparo de sniper que destruiu seu braço esquerdo. Sem outra opção, amarrou a coronha de um rifle ao braço como tala e rastejou cerca de 300 metros até o posto de socorro.

Medalha de Honra e vida após a guerra

Desmond Doss sobreviveu à guerra. Mais tarde, 17 fragmentos de estilhaços foram removidos de seu corpo. Ainda em 1945, recebeu a Medalha de Honra das mãos do presidente Harry S. Truman.

Ele foi dispensado honrosamente do Exército em 1946, mas suas batalhas não terminaram. Doss passou anos em hospitais de veteranos tratando ferimentos de combate e uma grave tuberculose, que lhe custou um pulmão e cinco costelas.

Anos depois, um excesso de antibióticos o deixou completamente surdo. Em 1988, recuperou parte da audição graças a um implante coclear.

O soldado que venceu sem matar

Desmond Doss viveu seus últimos anos entre Geórgia e Alabama, até sua morte em 2006. Sua história permanece como uma das mais extraordinárias da Segunda Guerra Mundial.

Ele entrou em combate sem arma, recusou-se a matar e, mesmo assim, salvou dezenas de homens em uma das batalhas mais violentas do Pacífico.

Em Hacksaw Ridge, Desmond Doss provou que coragem não é apenas avançar armado contra o inimigo. Às vezes, coragem é correr para salvar vidas quando todos os outros precisam recuar.

Fonte: Medal of Honor Citation, U.S. Army, National Museum of the United States Army e registros históricos sobre a Batalha de Okinawa.

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