A Rússia alertou missões diplomáticas estrangeiras em Kiev para que retirem seus funcionários da capital ucraniana caso Moscou decida lançar ataques de retaliação. O aviso foi feito em meio ao temor de que a Ucrânia tente interromper as celebrações do Dia da Vitória, marcadas para 9 de maio, na Praça Vermelha.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores da Rússia, uma resposta militar contra Kiev seria “inevitável” caso haja ataques ucranianos ligados às comemorações. Moscou não detalhou publicamente a natureza exata das ameaças identificadas, mas relacionou o alerta à segurança do desfile militar e dos eventos oficiais em memória da vitória soviética sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial.
“Garantam a evacuação oportuna da cidade de Kiev do pessoal das representações diplomáticas e de outras organizações.”
Moscou teme ataques durante o 9 de maio
O Dia da Vitória é uma das datas mais importantes do calendário político e militar russo. A celebração marca a derrota da Alemanha nazista em 1945 e costuma ser usada pelo Kremlin como demonstração de poder, memória histórica e unidade nacional.

Neste ano, porém, o clima é diferente. A Rússia chega às comemorações em meio a uma guerra prolongada contra a Ucrânia, ataques de drones em profundidade contra seu território e aumento das medidas de segurança em Moscou. O próprio formato do desfile foi reduzido, com restrições à presença de equipamentos militares pesados.
A ameaça russa contra Kiev mostra que o 9 de maio deixou de ser apenas uma data simbólica e passou a ser também um ponto de tensão militar.
Ataques de drones aumentam pressão sobre Moscou
O alerta russo foi divulgado após uma grande onda de drones atribuída à Ucrânia. O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que suas defesas aéreas derrubaram 347 drones durante a madrugada, incluindo aparelhos direcionados à região de Moscou e a outras áreas do país.
Para o Kremlin, esses ataques reforçam a necessidade de ampliar a segurança em torno da capital e dos eventos de 9 de maio. Para Kiev, a capacidade de atingir alvos dentro da Rússia tornou-se parte de uma estratégia de pressão sobre infraestrutura militar, logística e energética usada por Moscou na guerra.
Nos últimos meses, a Ucrânia intensificou ataques contra refinarias, depósitos, instalações industriais e bases militares russas. Esse tipo de ação busca levar a guerra para além da linha de frente e obrigar Moscou a redistribuir defesas aéreas para proteger regiões internas.
Cessar-fogo disputado
A crise ocorre em meio a propostas rivais de cessar-fogo. A Rússia anunciou uma trégua unilateral para coincidir com as celebrações do Dia da Vitória. Kiev, por sua vez, havia proposto uma suspensão das hostilidades antes disso, mas afirmou que Moscou não respeitou a iniciativa e continuou atacando posições e cidades ucranianas.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, acusou a Rússia de rejeitar na prática qualquer pausa real nos combates. Segundo ele, ataques russos continuaram com drones, mísseis, artilharia e bombas planadoras, inclusive contra áreas civis e infraestrutura.
“A Rússia não parou nenhum tipo de atividade militar. A Ucrânia agirá de forma simétrica.”
A frase resume o tom adotado por Kiev: se Moscou continuar atacando, a Ucrânia promete responder na mesma medida. No campo de batalha, militares ucranianos também relataram que unidades russas não interromperam operações, o que reforça a percepção de que a trégua é mais política do que militar.
O desfile reduzido na Praça Vermelha
As preocupações de segurança já afetaram os preparativos em Moscou. O tradicional desfile do Dia da Vitória deve ocorrer com formato mais limitado, sem a presença habitual de tanques, mísseis e outros equipamentos militares pesados. A decisão foi atribuída pelas autoridades russas à “situação operacional” atual.
A ausência de blindados e sistemas pesados é politicamente sensível. O desfile sempre foi usado como vitrine militar do Kremlin. Reduzir essa exibição, justamente durante uma guerra de grande escala, transmite uma mensagem ambígua: por um lado, preserva a segurança; por outro, mostra que a guerra chegou ao coração simbólico da capital russa.
Moscou também ampliou medidas de segurança, com reforço de defesas aéreas e restrições temporárias em serviços de comunicação móvel. Essas ações mostram que o Kremlin não trata a ameaça como simples propaganda ucraniana, mas como risco concreto durante um dos eventos mais observados do ano.
A ameaça contra Kiev
O ponto mais grave do alerta russo é a ameaça de ataques retaliatórios contra Kiev. O Ministério da Defesa da Rússia já havia indicado que responderia com um ataque massivo caso a Ucrânia tentasse atingir as comemorações do Dia da Vitória. O Ministério das Relações Exteriores reforçou a mensagem ao pedir que diplomatas estrangeiros deixem a capital ucraniana.

Kiev ainda não apresentou uma reação oficial direta ao alerta diplomático russo. Mesmo assim, a ameaça eleva o risco para a população civil da capital, que já passou por repetidas ondas de mísseis e drones desde o início da invasão em larga escala.
Na prática, Moscou tenta estabelecer uma linha vermelha pública: qualquer ação ucraniana contra os eventos de 9 de maio poderia ser usada como justificativa para uma nova rodada de ataques contra centros de comando e estruturas em Kiev.
Guerra de símbolos e guerra real
O episódio mostra como a guerra entre Rússia e Ucrânia também se trava no campo simbólico. Para Moscou, o Dia da Vitória é uma data central de legitimidade histórica. Para Kiev, a tentativa russa de celebrar enquanto ataques continuam contra a Ucrânia é vista como demonstração de cinismo político.
Zelensky afirmou que uma guerra em larga escala e mortes diárias não combinam com celebrações públicas. A mensagem busca enfraquecer a narrativa russa de normalidade e mostrar que a própria capital russa agora precisa adaptar seus rituais militares por medo de ataques.
O 9 de maio se transformou em uma disputa de narrativas: Moscou tenta preservar a imagem de força; Kiev tenta mostrar que a guerra tornou essa imagem vulnerável.
Escalada antes de uma data sensível
A aproximação do Dia da Vitória ocorre em um momento de intensificação das operações dos dois lados. A Ucrânia ampliou ataques de longo alcance contra o território russo, enquanto a Rússia continua usando drones, mísseis, artilharia e bombas guiadas contra cidades e posições ucranianas.
Esse ambiente torna qualquer incidente mais perigoso. Um drone abatido perto de Moscou, uma explosão próxima a uma área simbólica ou um ataque russo contra Kiev pode gerar uma reação em cadeia, especialmente quando os dois governos já deixaram claro que pretendem responder a violações com força.
O alerta russo às embaixadas em Kiev deve ser entendido como ameaça militar, mensagem diplomática e ferramenta de pressão psicológica. Ao mesmo tempo, os ataques de drones contra a Rússia mostram que a Ucrânia continua capaz de levar a guerra para dentro do território russo, inclusive em datas politicamente sensíveis.
A questão agora é se o 9 de maio passará como uma data de tensão controlada ou se será usado como gatilho para uma nova rodada de ataques. Em uma guerra marcada por drones, mísseis e disputas de narrativa, o Dia da Vitória se tornou mais do que uma comemoração histórica. Tornou-se um teste de segurança para Moscou e um novo ponto de risco para Kiev.
Fonte: AFP, Reuters e Associated Press.