Alecto: a arma de micro-ondas dos EUA que "frita" drones
EUA contratam arma de micro-ondas que "frita" drones sem disparar um tiro. O Alecto emite pulsos de gigawatt que queimam a eletrônica do alvo em movimento.
O Exército dos Estados Unidos contratou a empresa californiana ThinKom Solutions por até US$ 49 milhões para desenvolver e testar o sistema Alecto — uma arma de micro-ondas de alta potência projetada para neutralizar drones em movimento, sem disparar um único projétil.
O conceito é radical: em vez de gastar um míssil de centenas de milhares de dólares para derrubar um drone de mil, o Alecto simplesmente queima a eletrônica do alvo com um pulso de energia direcionada. Custo por disparo: quase zero. Munição: ilimitada, desde que haja energia.
O que é o Alecto
O Alecto é um sistema de micro-ondas de alta potência (HPM, na sigla em inglês) montado sobre um veículo tático. Ele faz parte de uma categoria emergente de armamento conhecida como armas de energia direcionada (DEW) — sistemas que usam feixes de energia em vez de projéteis físicos para neutralizar alvos.
Desenvolvido inicialmente com recursos próprios da ThinKom e apresentado em 30 de abril de 2026, o sistema combina duas tecnologias: a antena patenteada VICTS (Variable Inclination Continuous Transverse Stub), uma antena de fase mecânica orientável, e eletrônica de vácuo de alta potência. A combinação produz densidades de potência de pico na escala de gigawatts — ordens de magnitude acima dos sistemas baseados em nitreto de gálio (GaN).
"O Alecto foi projetado para dar aos soldados uma opção de alto desempenho e baixo custo por engajamento, capaz de operar em movimento e proteger contra ameaças de drones dos Grupos 1 e 2." — Dan Roman, vice-presidente de guerra eletrônica da ThinKom
Como ele destrói um drone
Aqui está o diferencial técnico mais importante do Alecto — e o que o separa de sistemas de guerra eletrônica convencionais como os jammers.
Um jammer funciona interferindo na comunicação entre o drone e seu operador. O problema é que essa abordagem tem uma falha crescente: drones autônomos, programados com rotas por GPS ou por inteligência artificial embarcada, não precisam de um operador. Um drone que perde o link de comando pode simplesmente continuar sua missão pré-programada, retornar à base ou permanecer em espera.
O Alecto resolve esse problema de uma forma mais direta. Em vez de interferir no sinal, ele emite pulsos de radiofrequência de altíssima potência que entram pelo receptor, pela antena ou por qualquer abertura na blindagem do drone. Essa energia penetra a eletrônica interna e queima permanentemente os circuitos — controlador de voo, receptor GPS, sistema de controle de motor, placa de processamento.
A ThinKom descreve o efeito como um "hard kill": não é uma interferência temporária, mas um dano físico irreversível. O drone perde a capacidade de voar, manobrar ou detonar, e cai. Um aparelho cuja eletrônica foi fritada por um pulso de micro-ondas de nível de gigawatt não faz nenhuma dessas coisas.
Mobilidade: a vantagem decisiva
Sistemas de micro-ondas de alta potência não são novidade. O que torna o Alecto diferente é que ele foi projetado para operar em movimento — o chamado "fire-on-the-move".
A maioria dos sistemas HPM existentes é estacionária: protege perímetros de bases ou instalações fixas. Um sistema que precisa parar para funcionar é útil para defender um aeródromo, mas inútil para proteger um comboio em marcha, uma unidade em manobra ou um elemento avançado que não pode se deter sem se tornar alvo.
O Alecto pode ser instalado em veículos leves, como o Infantry Squad Vehicle (ISV) — o jipe tático usado pelos esquadrões de infantaria americanos. O perfil compacto e de baixo peso reduz os requisitos de tamanho, peso e consumo de energia (SWaP) em comparação com sistemas HPM tradicionais, que normalmente exigem caminhões pesados.
A operação é feita via interface de tablet integrada às redes de comando e controle existentes do Exército, permitindo que um único operador coordene a defesa antidrone com o restante das forças.
O teste que já aconteceu
O Alecto não é apenas um conceito no papel. Em março de 2026, o sistema participou do exercício Cross Domain Fires do Exército dos EUA, realizado em três instalações simultâneas: Fort Sill, White Sands Missile Range e Yuma Proving Ground.
Durante o exercício, o Alecto foi integrado ao radar EchoShield, da empresa Echodyne, para demonstrar a capacidade de detectar, rastrear e engajar drones de forma autônoma. Segundo a ThinKom, o sistema oferece cobertura de 360 graus e pode rastrear múltiplos alvos simultaneamente.
Os resultados do teste motivaram o Exército a avançar para a fase de protótipo. O contrato prevê a entrega de até quatro unidades, com a primeira chegando no primeiro trimestre de 2027. Os testes de campo avaliarão a integração com sensores, equipamentos de controle de fogo e uma plataforma móvel designados pelo próprio Exército.
O problema que o Alecto tenta resolver
O contexto por trás do contrato é tão importante quanto a tecnologia. A guerra na Ucrânia demonstrou, de forma definitiva, que drones baratos dominam o campo de batalha moderno. Quadricópteros de US$ 500, drones FPV de US$ 1.000 e enxames coordenados por IA ameaçam tanques, blindados, trincheiras e até navios.
O problema é a assimetria de custo. Derrubar um drone de US$ 1.000 com um míssil Stinger de US$ 120 mil ou um Patriot de vários milhões é economicamente insustentável. E os estoques de interceptadores são finitos — como os EUA descobriram na guerra com o Irã, quando gastaram "quase todos" os seus mísseis de precisão em cinco meses.
O Alecto inverte essa equação. Cada "disparo" é essencialmente um pulso de energia elétrica. Enquanto houver combustível para o gerador do veículo, há munição. O custo por engajamento cai para uma fração do valor de qualquer míssil — e o "pente" nunca acaba.
As limitações que ainda existem
É preciso, porém, temperar o entusiasmo com realismo. O Alecto ainda é um protótipo. Há perguntas técnicas que só os testes de campo poderão responder com precisão.
Entre elas: qual é o alcance efetivo real contra drones de diferentes tamanhos e materiais? Como o sistema se comporta contra drones com blindagem eletromagnética? Qual é o tempo de recarga entre pulsos? E, talvez a mais importante: qual é a eficácia contra enxames de dezenas ou centenas de drones simultâneos, como os que a Ucrânia e a Rússia já empregam?
Há ainda a questão dos danos colaterais eletromagnéticos. A ThinKom afirma que a antena VICTS direciona a energia com precisão, minimizando efeitos indesejados. Mas, em um campo de batalha repleto de sistemas eletrônicos aliados — rádios, GPSs, drones amigos, redes de comando —, garantir que o pulso atinja apenas o alvo é um desafio técnico não trivial.
O contexto da corrida antidrone
O Alecto não compete sozinho. O Exército americano mantém um portfólio diversificado de sistemas antidrone em vários estágios de desenvolvimento. Há programas baseados em laser (como o DE-SHORAD), em jamming eletrônico e em projéteis cinéticos de baixo custo. A filosofia é não depender de uma única solução, mas montar uma defesa em camadas — cada tecnologia cobrindo uma faixa de ameaças diferente.
Nesse ecossistema, o Alecto ocupa um nicho específico: o de neutralizar drones pequenos (Grupos 1 e 2, com peso de até 25 kg) a curta e média distância, com custo quase zero por engajamento e sem limite de munição. É o tipo de arma pensada não para substituir os mísseis, mas para complementá-los — reservando os interceptadores caros para ameaças maiores e mais sofisticadas.
Do protótipo ao campo de batalha
O caminho do Alecto está traçado, mas ainda é longo. O contrato atual não garante produção em série — é um acordo de prototipagem e avaliação. Os resultados dos testes de 2027 é que vão determinar se o Exército decide avançar para a aquisição em escala.
Se funcionar como prometido, o sistema pode representar uma virada na forma como exércitos ocidentais enfrentam a ameaça dos drones — trocando mísseis caros e finitos por energia barata e ilimitada. Se falhar, será mais um capítulo na longa lista de armas futuristas que não sobreviveram ao contato com a realidade do combate. A diferença, desta vez, é que a urgência é real: os drones já estão no campo de batalha, e cada mês sem resposta eficaz custa vidas.
Fontes: Defense Daily, Military Aerospace e ThinKom Solutions.