Exército tenta destravar obuseiro ATMOS no Brasil

Por Cenas de Combate

Exército tenta destravar compra de 36 obuseiros ATMOS 155 mm com montagem na Avibras, em projeto que pode modernizar a artilharia brasileira.

Exército tenta destravar obuseiro ATMOS no Brasil

O Exército Brasileiro tenta destravar uma compra considerada decisiva para modernizar sua artilharia de campanha. Com aval político do governo federal, a Força busca avançar na aquisição de 36 obuseiros autopropulsados ATMOS 155 mm, sistema de origem israelense escolhido em licitação internacional, mas parado desde 2024 em meio ao desgaste diplomático envolvendo Brasil e Israel.

A saída em negociação passa pela Avibras, em Jacareí, no interior de São Paulo. A proposta prevê que parte do processo de montagem e integração dos obuseiros seja realizada no Brasil, transformando uma compra politicamente sensível em um projeto com participação da indústria nacional de defesa.

Na prática, o Brasil tenta resolver dois problemas ao mesmo tempo: modernizar uma artilharia que precisa ganhar alcance, mobilidade e velocidade de resposta, e recolocar a Avibras no centro de um programa estratégico das Forças Armadas.

O ATMOS deixou de ser apenas uma compra de obuseiros: virou um teste sobre a capacidade do Brasil de modernizar sua defesa sem ignorar os limites políticos de sua diplomacia.

O que está em negociação

A negociação envolve a aquisição de 36 sistemas ATMOS 155 mm, produzidos pela israelense Elbit Systems. Segundo a imprensa especializada em defesa, a proposta em discussão inclui a participação da AEL Sistemas, subsidiária brasileira da Elbit, da própria Elbit e da Avibras Aeroco, que retomou atividades no complexo industrial de Jacareí.

A ideia seria usar a estrutura da Avibras para montagem e integração local dos obuseiros. Isso permitiria apresentar o programa não apenas como importação de material militar israelense, mas como projeto com algum grau de conteúdo nacional, geração de atividade industrial e preservação de capacidade estratégica no Brasil.

Esse ponto é politicamente importante. A compra havia sido travada após a escolha do sistema israelense em 2024, em um momento de forte tensão diplomática entre o governo brasileiro e Israel por causa da guerra em Gaza.

Com a entrada da Avibras na equação, o programa ganha uma nova narrativa: não seria apenas uma compra externa, mas uma tentativa de fortalecer a base industrial de defesa brasileira.

O ATMOS venceu a licitação do Exército

O ATMOS foi escolhido pelo Exército Brasileiro no processo de aquisição da Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado 155 mm Sobre Rodas, dentro do programa de modernização da artilharia de campanha.

Em abril de 2024, o Exército informou oficialmente que a proposta da Elbit Systems Land Ltd, com o ATMOS 155 mm 52 calibres montado em chassi Tatra T-815 6x6, foi classificada em primeiro lugar no processo licitatório internacional iniciado em agosto de 2023.

Segundo o próprio Exército, a aquisição tem como objetivo modernizar e ampliar a capacidade de apoio de fogo da Força Terrestre. O sistema foi escolhido por atender aos requisitos definidos pelo edital, incluindo mobilidade, alcance, precisão e rapidez de emprego.

A assinatura do contrato, porém, não avançou como previsto. O impasse político em torno da origem israelense do equipamento atrasou uma decisão que, do ponto de vista militar, já havia sido tomada pela Força.

Por que o Exército quer o ATMOS

ATMOS

O ATMOS é um obuseiro autopropulsado sobre rodas, calibre 155 mm/52. Diferente de peças rebocadas, ele combina o poder de fogo de artilharia pesada com maior mobilidade, já que o canhão é instalado em um caminhão militar.

Essa característica permite deslocamento mais rápido, entrada em posição, disparo e retirada antes que o inimigo consiga responder com fogo de contrabateria. Em guerras modernas, essa capacidade é decisiva.

A Elbit apresenta o ATMOS como um sistema de artilharia de alta mobilidade, resposta rápida e poder de fogo superior. Já publicações especializadas destacam seu alcance superior a 40 quilômetros, dependendo da munição utilizada, além de sistemas de navegação, computador balístico e capacidade de entrar em ação em poucos minutos.

A guerra na Ucrânia mostrou que artilharia que demora para atirar e sair da posição pode ser localizada por drones e destruída em minutos.

A lição da guerra na Ucrânia

A guerra na Ucrânia recolocou a artilharia no centro do campo de batalha. Obuseiros, foguetes, drones, radares de contrabateria e munições de precisão passaram a definir o ritmo de uma guerra de desgaste.

O conflito mostrou que alcance e mobilidade são tão importantes quanto poder de fogo. Uma peça de artilharia precisa atingir o alvo, mas também precisa sobreviver. Para isso, deve disparar rapidamente, mudar de posição e operar integrada a sensores, drones e sistemas de comando.

Esse é um dos motivos pelos quais sistemas como o ATMOS ganharam relevância. Obuseiros sobre rodas são mais leves e móveis do que muitos sistemas sobre lagartas, podendo usar estradas, deslocar-se com rapidez e reduzir o tempo de exposição.

Para o Brasil, que possui dimensões continentais e precisa pensar em diferentes teatros de operação, mobilidade é fator central. Uma artilharia moderna precisa acompanhar forças mecanizadas, deslocar-se por longas distâncias e oferecer apoio de fogo preciso em curto espaço de tempo.

A Avibras no centro da solução

A possível participação da Avibras torna o caso ainda mais sensível. A empresa brasileira, historicamente ligada ao sistema de foguetes ASTROS, é uma das marcas mais importantes da indústria nacional de defesa.

Nos últimos anos, a Avibras enfrentou grave crise financeira, processo de recuperação e incertezas sobre seu futuro. Recolocá-la em um programa relevante do Exército poderia ajudar a preservar conhecimento, mão de obra especializada e capacidade industrial estratégica.

A montagem e integração local dos ATMOS em Jacareí não transformariam automaticamente o sistema em produto brasileiro. Mas poderiam gerar participação industrial, transferência operacional, manutenção local e algum fortalecimento da cadeia nacional.

Esse é o ponto que torna o acordo politicamente mais viável. O governo pode defender a modernização da artilharia ao mesmo tempo em que apresenta a operação como apoio à indústria brasileira de defesa.

Compra militar ou projeto industrial?

A grande questão é saber se a montagem no Brasil será apenas uma saída política ou se poderá se transformar em um projeto industrial mais profundo. Existe diferença entre montar um sistema importado e desenvolver capacidade nacional real.

Se a participação brasileira se limitar à montagem final, o ganho industrial será menor. Ainda assim, pode ser útil para manutenção, integração, treinamento e suporte logístico. Se houver transferência mais ampla de conhecimento, produção de componentes e participação da cadeia local, o impacto pode ser maior.

Para o Exército, o ponto mais urgente é receber uma capacidade que falta à artilharia brasileira. Para a indústria, o desafio é garantir que a compra não seja apenas uma operação pontual, mas parte de uma política de longo prazo.

O Brasil já viveu ciclos de compras militares que trouxeram equipamentos modernos, mas pouca continuidade industrial. O risco é repetir esse padrão: adquirir um sistema avançado, mas não transformar a compra em aprendizado estratégico.

O impasse político com Israel

A origem israelense do ATMOS é o centro do impasse. A Elbit venceu a licitação, mas o contexto político mudou. A relação entre o governo Lula e Israel se deteriorou após críticas brasileiras à guerra em Gaza, criando resistência à assinatura de um contrato militar com empresa israelense.

Do ponto de vista técnico, o Exército já havia escolhido o sistema. Do ponto de vista político, o governo hesitou diante do custo diplomático de avançar com a compra em meio à crise.

Esse tipo de situação mostra como decisões de defesa raramente são apenas militares. Compras de armamentos envolvem diplomacia, política externa, opinião pública, relações comerciais e alianças estratégicas.

A entrada da Avibras pode funcionar como ponte. Ela não elimina a origem israelense do sistema, mas reduz a percepção de uma compra puramente externa e reforça o argumento de que o programa também atende a interesses industriais brasileiros.

O que o Brasil ganha com o ATMOS

Se a compra avançar, o Exército Brasileiro ganhará uma capacidade importante de artilharia sobre rodas em calibre 155 mm. Isso representa salto em alcance, mobilidade, velocidade de resposta e integração tecnológica em comparação com sistemas mais antigos.

O ATMOS pode ampliar a capacidade de apoio de fogo em operações convencionais, reforçar brigadas mecanizadas e oferecer maior flexibilidade em deslocamentos pelo território nacional.

Também pode servir como base para atualização doutrinária. Um sistema desse tipo exige integração com drones, observadores avançados, radares, comunicações seguras, munições modernas e planejamento digital de tiro.

Ou seja, a modernização não é apenas comprar o canhão. É adaptar toda a cadeia de artilharia para operar em um ambiente onde velocidade, precisão e sobrevivência são essenciais.

Os riscos do programa

Apesar dos ganhos potenciais, o programa também tem riscos. O primeiro é a dependência externa. Mesmo com montagem local, componentes críticos, suporte, peças, munições e atualizações podem continuar ligados ao fornecedor original.

O segundo risco é político. Se a relação entre Brasil e Israel voltar a se deteriorar, a manutenção do contrato, o suporte técnico e a continuidade logística podem enfrentar novas dificuldades.

O terceiro risco é industrial. A participação da Avibras só fará diferença se houver planejamento de longo prazo, contratos sustentáveis e capacidade real de absorver trabalho técnico. Caso contrário, a empresa pode ser usada apenas como solução simbólica.

Por fim, há o risco orçamentário. Programas de defesa exigem previsibilidade. Comprar 36 obuseiros é apenas o começo. É preciso manter treinamento, munição, peças, manutenção, simuladores e atualização ao longo de décadas.

Uma decisão sobre o futuro da artilharia

A modernização da artilharia brasileira não pode ser vista como luxo. Conflitos recentes mostraram que países sem artilharia moderna, defesa aérea, drones e comando integrado ficam vulneráveis em guerras de alta intensidade.

O Brasil não enfrenta uma ameaça militar imediata comparável à guerra da Ucrânia. Mas defesa nacional não é planejada apenas para a crise de hoje. Ela exige preparação antecipada, indústria ativa e capacidade de resposta.

O ATMOS entra nesse debate como símbolo de uma escolha maior: o Brasil quer apenas substituir material antigo ou construir uma artilharia compatível com o campo de batalha moderno?

Essa pergunta envolve Exército, governo, indústria e orçamento. Não basta escolher o equipamento certo. É preciso garantir que ele venha acompanhado de doutrina, treinamento, munições e integração com outras capacidades.

A tentativa de destravar a compra dos 36 obuseiros ATMOS mostra como a modernização militar brasileira depende de uma combinação difícil entre necessidade operacional, decisão política e participação industrial.

Para o Exército, o sistema representa ganho real em alcance, mobilidade e rapidez de disparo. Para o governo, a montagem na Avibras pode reduzir o desgaste político de uma compra israelense e fortalecer a narrativa de apoio à indústria nacional. Para a Avibras, o programa pode significar retorno ao centro de um projeto estratégico de defesa.

Mas o sucesso dependerá do conteúdo real da participação brasileira. Se a montagem em Jacareí for apenas uma solução política, o ganho será limitado. Se vier acompanhada de integração, manutenção, qualificação técnica e planejamento de longo prazo, pode marcar uma nova fase para a artilharia nacional.

No fim, a pergunta permanece: a montagem do ATMOS no Brasil será apenas uma saída política — ou o início de uma nova fase para a artilharia brasileira?

Fonte: Exército Brasileiro, Poder Terrestre, DefesaNet, Defesa Aérea & Naval, Elbit Systems, The Defense Post, LRCA Defense Consulting e imprensa especializada em defesa.

Link permanente deste artigo