Brasil se despede de dois veteranos da FEB e vê partir uma geração que lutou na Itália

Por Cenas de Combate

Brasil se despede de Altair Alaluna e José Barbosa Sobrinho, veteranos da FEB que lutaram na Itália na Segunda Guerra Mundial.

Brasil se despede de dois veteranos da FEB e vê partir uma geração que lutou na Itália

O Brasil perde dois últimos elos vivos com a guerra na Itália

O Brasil se despede de dois homens que não carregavam apenas lembranças pessoais, mas uma parte viva da história militar do país. Em abril de 2026, morreram dois veteranos da Força Expedicionária Brasileira: Altair Pinto Alaluna, aos 105 anos, e José Barbosa Sobrinho, aos 108. Ambos fizeram parte da geração de brasileiros que atravessou o Atlântico para lutar na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.

A partida dos dois veteranos reacende uma questão que o país não pode tratar como detalhe: cada pracinha que se vai leva consigo uma memória que não está completamente nos livros, nos documentos oficiais ou nas fotografias de época. São relatos de medo, disciplina, frio, fome, deslocamentos, feridos, marchas, esperas e combates que ajudaram a formar uma das páginas mais marcantes da participação brasileira no conflito.

Entre 1944 e 1945, mais de 25 mil militares da FEB cruzaram o Oceano Atlântico para integrar o esforço aliado contra o totalitarismo na Europa. O Brasil foi o único país latino-americano a enviar tropas para combater no maior conflito armado da história.

Altair Pinto Alaluna: o soldado que sustentava a guerra por trás da linha de frente

Natural de Sumidouro, na Região Serrana do Rio de Janeiro, Altair Pinto Alaluna nasceu em 22 de setembro de 1920 e integrou a 1ª Companhia de Intendência da Força Expedicionária Brasileira. Ele embarcou para a Itália em 2 de julho de 1944, no primeiro escalão expedicionário, a bordo do navio General W. A. Mann.

Sua função não era a mais lembrada nas narrativas populares de guerra, mas era uma das mais essenciais. Altair atuou no apoio logístico às tropas brasileiras, ligado ao recebimento, armazenamento e distribuição de suprimentos, munições, armamentos, combustíveis, uniformes e alimentação. Sem esse tipo de trabalho, nenhuma linha de combate se mantém por muito tempo.

Na guerra, a logística raramente aparece com o mesmo brilho dos ataques, das tomadas de posição e dos atos de bravura em campo aberto. No entanto, é ela que mantém uma tropa viva, armada, alimentada e capaz de avançar. A trajetória de Altair mostra uma dimensão muitas vezes invisível da campanha brasileira na Itália: por trás de cada avanço da infantaria, havia homens garantindo que combustível, munição, comida e material chegassem onde precisavam chegar.

Altair faleceu em 24 de abril de 2026, no Rio de Janeiro, aos 105 anos. A Prefeitura de Sumidouro decretou luto oficial de três dias, e entidades ligadas à memória da FEB destacaram sua trajetória como exemplo de coragem, dever e preservação da história nacional.

José Barbosa Sobrinho: ferido em combate, voltou para ajudar outros feridos

José Barbosa Sobrinho nasceu em Pedra Branca, na Paraíba, e se tornou um dos últimos ex-combatentes brasileiros vivos da Segunda Guerra Mundial. Ele morreu em Fortaleza, em 15 de abril de 2026, aos 108 anos, poucos dias antes de completar 109. A morte foi confirmada pela 10ª Região Militar do Exército.

Sua trajetória na guerra teve uma marca particularmente forte. José Barbosa embarcou para a Itália em fevereiro de 1945, como parte do Centro de Recompletamento da FEB, e participou da campanha final contra as forças alemãs. Ele atuou como padioleiro, função responsável por retirar feridos do campo de batalha, muitas vezes sob risco direto, em meio a fogo inimigo, explosões e deslocamentos em terreno difícil.

Segundo registros e homenagens publicados após sua morte, José Barbosa foi ferido em combate, passou por enfermaria e retornou ao serviço, continuando a atuar no apoio aos feridos. Ele também é associado aos combates de Collecchio e à Batalha de Fornovo di Taro, episódios decisivos da ofensiva final da FEB na Itália.

A imagem de um padioleiro na guerra carrega uma força própria. Enquanto muitos avançavam com armas, ele avançava para buscar quem havia caído. A missão não era menos perigosa. Em muitos momentos, significava entrar no terreno mais exposto não para atacar, mas para salvar. É nesse detalhe que a história de José Barbosa ganha uma dimensão humana profunda: ele viu a guerra de perto, foi atingido por ela e ainda assim voltou para socorrer outros homens.

A FEB e o peso histórico da Campanha da Itália

A Força Expedicionária Brasileira foi enviada à Itália em um momento decisivo da Segunda Guerra Mundial. O Brasil, que inicialmente havia mantido posição de neutralidade, entrou no conflito ao lado dos Aliados após ataques de submarinos do Eixo contra navios brasileiros e a intensificação da guerra no Atlântico.

Na Itália, os pracinhas brasileiros enfrentaram um cenário duro: montanhas, frio intenso, terreno acidentado, linhas defensivas alemãs e uma guerra que já caminhava para sua fase final, mas ainda cobrava um preço alto. A FEB participou de operações importantes na Campanha da Itália e se tornou símbolo da presença brasileira no esforço aliado.

O primeiro escalão da FEB embarcou em 2 de julho de 1944, data que ficou ligada à expressão “a cobra fumou”, frase que virou símbolo dos expedicionários brasileiros. Ao todo, mais de 25 mil brasileiros representaram o país na defesa de ideais democráticos, liberdade e paz social.

Essa dimensão histórica é fundamental para entender por que a morte de veteranos como Altair e José Barbosa não é apenas uma notícia de falecimento. É a perda gradual de uma geração que viveu no próprio corpo aquilo que hoje chega às novas gerações como fotografia, documento, museu ou relato familiar.

Nem todo herói aparece no mesmo lugar da história

As trajetórias de Altair Alaluna e José Barbosa Sobrinho mostram duas faces diferentes da guerra. Um esteve ligado à logística, ao suporte, ao funcionamento silencioso que sustentava a tropa. O outro atuou como padioleiro, próximo aos feridos, à dor imediata do campo de batalha e ao esforço de salvar vidas no meio do caos.

Essas funções revelam uma verdade importante sobre qualquer conflito militar: a guerra não é feita apenas pelos homens que aparecem na linha de fogo. Ela também depende dos que transportam, organizam, abastecem, removem feridos, reconstroem caminhos, mantêm equipamentos e fazem a máquina militar continuar funcionando.

Por isso, lembrar esses veteranos é também ampliar a forma como o país enxerga sua própria história militar. Não se trata apenas de homenagear nomes. Trata-se de entender que cada função exercida na campanha italiana compôs uma engrenagem maior, na qual brasileiros comuns foram lançados em uma guerra distante e voltaram marcados por experiências que poucos conseguiram traduzir por completo.

Uma geração que está desaparecendo diante dos nossos olhos

Com a morte de Altair, aos 105 anos, e José Barbosa, aos 108, o Brasil vê se afastar ainda mais a geração dos pracinhas da FEB. Durante décadas, esses homens foram testemunhas vivas de um capítulo que conectou cidades brasileiras, famílias do interior e jovens soldados ao maior conflito militar do século 20.

O tempo, agora, transforma essas testemunhas em memória. E essa mudança tem um peso simbólico profundo. Enquanto um veterano está vivo, a história ainda respira por meio de sua voz, seus gestos, suas lembranças e seus silêncios. Quando ele parte, o país perde uma fonte direta de humanidade sobre a guerra.

Por isso, preservar a memória da FEB não é apenas uma obrigação militar. É uma responsabilidade nacional. Significa registrar depoimentos, manter arquivos, valorizar museus, ensinar a história nas escolas, apoiar pesquisadores e impedir que a participação brasileira na Segunda Guerra seja reduzida a uma nota de rodapé.

O dever de lembrar

Altair Pinto Alaluna e José Barbosa Sobrinho não foram apenas nomes em uma lista de veteranos. Foram brasileiros que atravessaram o oceano, serviram em solo italiano e participaram de uma guerra que redefiniu o século 20. Cada um, à sua maneira, carregou no corpo e na memória uma parte da história nacional.

A morte dos dois veteranos em abril de 2026 é uma despedida, mas também um aviso. A geração que viu a Segunda Guerra de perto está chegando ao fim. E, quando os últimos combatentes se vão, o que fica não é apenas saudade. Fica o dever de impedir que suas histórias desapareçam com eles.

Porque um país que esquece seus veteranos não perde apenas o passado. Perde também a capacidade de reconhecer o preço pago por aqueles que serviram antes dele.

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