Brasil teme intervenção militar dos EUA após designação de facções

Por Cenas de Combate

Brasil teme uso de força militar dos EUA em seu território após Washington designar Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas. Entenda a crise.

Brasil teme intervenção militar dos EUA após designação de facções

O governo brasileiro manifestou preocupação com o "risco de os Estados Unidos recorrerem à força militar" em território nacional. O temor surgiu após Washington designar duas das maiores facções criminosas do país como organizações terroristas, segundo uma carta ao parlamento à qual a agência AFP teve acesso.

A avaliação consta de um documento do Ministério das Relações Exteriores. Vale registrar, porém, que se trata de uma preocupação do governo Lula, e não de uma ação militar concretamente anunciada pelos EUA.

O alerta da diplomacia brasileira

Na carta, enviada ao Congresso, o ministro Mauro Vieira afirmou que a medida americana abre precedentes perigosos para a soberania nacional.

"Essa designação unilateral pode ser invocada para justificar ações extraterritoriais contra instituições brasileiras. Existe o risco de os EUA recorrerem à força militar dentro do território nacional." — Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se opôs à designação. Pela legislação americana, o rótulo permite, em tese, qualquer tipo de intervenção contra líderes de grupos classificados como terroristas, onde quer que estejam no mundo.

Como funciona a designação

Em 28 de maio, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou a inclusão do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) na lista de organizações terroristas, com vigência plena a partir de 5 de junho. Washington alegou que os grupos criaram "redes ilegais" que se estendem "muito além das fronteiras do Brasil".

O rótulo coloca as facções ao lado de grupos como Al-Qaeda, Estado Islâmico e os principais cartéis mexicanos. Na prática, ele proíbe a entrada de membros nos EUA, veta transações financeiras com eles — sob pena de sanções — e, segundo a lei americana, abre caminho para ações militares.

O precedente que assusta Brasília

O receio do governo brasileiro não é abstrato. Desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, sua administração passou a tratar diversas facções latino-americanas ligadas ao narcotráfico como "terroristas", incluindo o cartel de Sinaloa e o venezuelano Tren de Aragua.

Sob essa justificativa, Washington realizou ataques na Venezuela e lançou dezenas de bombardeios contra lanchas que, segundo os EUA, traficavam drogas no Pacífico e no Caribe — sem apresentar provas. Mais de 200 pessoas morreram nessas ações. Especialistas também alertam para outro risco: a "militarização" do combate ao crime, deslocando a cooperação do FBI e da DEA para a CIA, agência de inteligência externa.

O pano de fundo político

A designação também tem forte componente eleitoral, com o pleito presidencial de outubro se aproximando. A oposição de direita elogiou a decisão de Washington e acusa o governo de leniência com o crime.

Lula, por sua vez, acusou o senador Flávio Bolsonaro — seu provável rival na disputa — de ter articulado a medida em uma visita à Casa Branca. Segundo o presidente, membros da família Bolsonaro viajaram aos EUA para "advogar por intervenção estrangeira" no Brasil. O senador confirmou a repórteres que pediu a Trump a designação das facções.

A frente comercial

O atrito militar e diplomático se soma a uma disputa comercial. A administração Trump deve decidir até 15 de julho se aplicará uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, após uma investigação sobre supostas práticas comerciais desleais. Brasília rejeita a acusação.

A convergência dos dois temas — a designação das facções e a ameaça tarifária — aponta para um período de tensão elevada entre os dois países.

Soberania no centro do debate

No fundo, a crise expõe um choque de interpretações. Para Washington, as facções são ameaças transnacionais que justificam ação global. Para Brasília, são um problema de segurança pública interna, movido pelo lucro do tráfico, e não por motivação política ou ideológica.

Entre essas duas leituras, o que está em jogo é o limite da soberania brasileira diante de uma potência estrangeira. E, com eleições no horizonte e tarifas na mesa, a disputa tende a se tornar ainda mais delicada nos próximos meses.

Fontes: AFP, Agência Brasil e Departamento de Estado dos EUA.

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