Amorim alerta para tropas dos EUA na América Latina e defende 2,5% do PIB para a Defesa
Celso Amorim defende elevar a Defesa a 2,5% do PIB e alerta para risco de ações militares dos EUA contra grupos criminosos na América Latina.
O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, voltou a defender que o Brasil aumente gradualmente os recursos destinados à Defesa para cerca de 2,5% do PIB. A declaração ocorre em meio à preocupação com a ampliação da atuação militar dos Estados Unidos contra organizações criminosas na América Latina.
Segundo Amorim, o Brasil precisa acompanhar com atenção a possibilidade de Washington levar para o ambiente terrestre uma campanha militar que já realizou dezenas de ataques contra embarcações suspeitas de ligação com o narcotráfico no Caribe e no Pacífico Oriental.
“Não quero ser alarmista, mas você olha essa situação e você se preocupa”, afirmou Celso Amorim.
A preocupação aumentou após declarações do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, que afirmou que Washington trabalha com países da região para realizar operações militares conjuntas em terra contra grupos criminosos classificados como narcoterroristas.
A mensagem de Amorim é clara: o Brasil não deve buscar confronto com os Estados Unidos, mas precisa ter Forças Armadas capazes de proteger sua soberania em um cenário regional mais militarizado.
Amorim defende Defesa em 2,5% do PIB
Celso Amorim afirmou que o Brasil deveria elevar gradualmente os gastos militares para aproximadamente 2,5% do Produto Interno Bruto. Para ele, um país com as dimensões territoriais, marítimas, ambientais e estratégicas do Brasil não deveria permanecer investindo algo próximo de 1% do PIB em Defesa.
A defesa de um orçamento militar maior não é nova em sua trajetória. Quando foi ministro da Defesa, Amorim já havia defendido que o Brasil destinasse pelo menos 2% do PIB ao setor, aproximando-se de patamares observados em outras potências médias e grandes economias emergentes.
A diferença agora está no contexto usado para justificar a proposta. A discussão não envolve apenas modernização tecnológica, proteção da Amazônia, Atlântico Sul ou capacidade de dissuasão tradicional. Ela passa também pela percepção de que os Estados Unidos estão ampliando o uso direto de suas Forças Armadas no entorno estratégico brasileiro.
O alerta sobre ações militares dos EUA
A fala de Amorim ocorre em um momento sensível. O governo Donald Trump vem tratando cartéis e organizações criminosas latino-americanas dentro de uma lógica cada vez mais próxima da guerra contra o terrorismo.
Segundo informações da Associated Press citadas na notícia-base, os Estados Unidos realizaram mais de 60 ataques contra embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental, causando mais de 200 mortes. Agora, Washington busca ampliar essa campanha para operações terrestres em países aliados da região.
Hegseth afirmou durante visita ao Panamá que os Estados Unidos trabalham com governos latino-americanos para realizar operações militares conjuntas contra grupos criminosos. A Colômbia, o Equador e Honduras aparecem entre os países com os quais Washington busca ampliar a cooperação, enquanto a Guatemala negou ter autorizado operações desse tipo em seu território.
É justamente esse salto do mar para a terra que preocupa Brasília. Uma coisa é interceptar embarcações suspeitas em rotas marítimas. Outra, muito mais sensível, é empregar forças militares em solo latino-americano contra grupos classificados por Washington como ameaças à segurança nacional.
A classificação de facções como terroristas
Um dos pontos centrais da preocupação brasileira é a classificação de organizações criminosas como terroristas. Em audiência na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, Amorim afirmou que o governo brasileiro não tem complacência com facções criminosas, mas vê risco jurídico e político nesse enquadramento.
Segundo ele, classificar uma organização criminosa como terrorista pode abrir margem para que os Estados Unidos aleguem base legal para ações militares externas contra esses grupos.
“O fato de uma organização ser classificada como terrorista dá poder aos Estados Unidos para agir militarmente”, afirmou Amorim aos deputados.
Para Brasília, o problema não é combater o crime organizado. O problema é permitir que esse combate vire justificativa para ação militar estrangeira na região.
Do Caribe para o continente
A campanha americana começou com ataques contra embarcações suspeitas de transportar drogas. Agora, segundo reportagens internacionais, Washington avalia levar essa lógica para operações terrestres ao lado de governos aliados.
A mudança é relevante porque amplia o alcance da presença militar americana. Operações no mar já geram debate sobre legalidade, provas, soberania e uso da força. Operações em terra podem gerar debates ainda maiores, especialmente em países com histórico de intervenção estrangeira, conflitos internos e presença de grupos armados.
No caso colombiano, Washington mencionou a possibilidade de operações conjuntas contra grupos como o Exército de Libertação Nacional, o ELN, e dissidências das antigas FARC. O governo americano sustenta que organizações envolvidas com o narcotráfico e classificadas como terroristas devem ser tratadas como ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos.
A Colômbia volta ao centro da estratégia americana
A Colômbia aparece como peça central dessa nova fase. O novo governo colombiano, liderado por Abelardo de la Espriella, aproximou-se de Washington com a promessa de combater o narcoterrorismo sem trégua.
Os Estados Unidos também anunciaram planos para destinar cerca de US$ 1 bilhão em assistência de segurança à Colômbia. A aproximação reacende comparações com o Plano Colômbia, política apoiada por Washington no fim dos anos 1990 para combater narcotráfico, guerrilhas e fortalecer o Estado colombiano.
Para os Estados Unidos, Bogotá volta a ser uma aliada estratégica no combate ao narcotráfico e na contenção de redes criminosas transnacionais. Para Brasília, a questão precisa ser acompanhada com atenção porque a Colômbia faz parte do entorno sul-americano e influencia diretamente a dinâmica de segurança regional.
Uma ofensiva mais agressiva contra grupos criminosos pode deslocar rotas, pressionar fronteiras, provocar reação de facções e ampliar a militarização do combate ao crime organizado.
Paraguai também entra no radar brasileiro
Outro ponto citado por Amorim é a cooperação militar dos Estados Unidos com o Paraguai. O país tem uma extensa fronteira terrestre com o Brasil e ocupa posição sensível no centro da América do Sul.
Segundo o assessor presidencial, o problema não é uma cooperação militar bilateral em si. O alerta está no contexto mais amplo: Washington amplia sua campanha contra organizações criminosas, discute operações terrestres e reforça sua presença militar no entorno brasileiro.
Para o Brasil, qualquer movimentação militar estrangeira em países vizinhos precisa ser acompanhada de perto. Não necessariamente como ameaça direta imediata, mas como mudança no ambiente estratégico regional.
É nesse ponto que Amorim defende uma política equilibrada: evitar confronto com os Estados Unidos, mas estabelecer limites claros em temas relacionados à soberania e à segurança regional.
Doutrina Monroe volta ao debate
Na audiência da Câmara, Amorim também mencionou material divulgado pelo governo americano com uma interpretação atualizada da Doutrina Monroe, conceito histórico associado à predominância dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.
Segundo Amorim, esse novo conceito estratégico precisa ser lido junto com a recente utilização do poder militar americano na região e com a classificação de organizações criminosas latino-americanas como terroristas.
A referência é politicamente sensível na América Latina. Para muitos governos da região, a Doutrina Monroe carrega a memória de intervenção e pressão externa. Para Washington, ela é apresentada como defesa do hemisfério contra ameaças externas e redes criminosas.
No contexto atual, o debate ganha nova força porque os Estados Unidos não estão apenas fazendo declarações diplomáticas. Estão usando poder militar contra redes criminosas e discutindo operações terrestres com governos aliados.
Brasil não quer confronto, mas fala em limites
Amorim deixou claro que o Brasil não deve adotar uma política de confronto com os Estados Unidos. A relação com Washington é ampla e envolve comércio, diplomacia, defesa, tecnologia, meio ambiente, energia e temas multilaterais.
Ao mesmo tempo, o assessor defende que o Brasil precisa estabelecer limites quando o assunto envolve soberania, presença militar estrangeira e ações unilaterais no continente.
Essa é uma posição delicada. Se o Brasil reage pouco, pode parecer passivo diante da militarização regional. Se reage demais, pode criar tensão desnecessária com a maior potência militar do mundo.
Por isso, a linha defendida por Amorim combina diplomacia, cautela e reforço da capacidade militar brasileira.
Por que o orçamento militar entrou na conversa
A defesa de 2,5% do PIB para a área militar aparece como resposta estrutural ao novo ambiente. Para Amorim, um país como o Brasil não pode depender apenas de discurso diplomático se quiser preservar autonomia estratégica.
Mais recursos permitiriam modernizar meios navais, terrestres, aéreos, cibernéticos e espaciais. Também ajudariam a sustentar programas estratégicos, como submarinos, fragatas, blindados, defesa aérea, sistemas de vigilância, satélites, comunicações seguras e capacidade de mobilização.
O problema é que aumentar gastos militares exige escolha política. O orçamento brasileiro já é pressionado por saúde, educação, previdência, infraestrutura, segurança pública e programas sociais.
Defender 2,5% do PIB para a Defesa significa dizer que o país precisa tratar sua soberania como prioridade de longo prazo, mesmo em meio a disputas fiscais intensas.
Amazônia, fronteiras e Atlântico Sul
O Brasil possui desafios próprios que justificam uma Defesa robusta. A Amazônia concentra fronteiras extensas, biodiversidade, recursos minerais, rios estratégicos e pressões transnacionais. O Atlântico Sul abriga rotas comerciais, cabos submarinos, plataformas de petróleo e a chamada Amazônia Azul.
Além disso, o país tem fronteiras terrestres com dez países sul-americanos e precisa lidar com crimes transnacionais, tráfico de armas, garimpo ilegal, contrabando, narcotráfico e desafios ambientais.
Esses problemas não se resolvem apenas com tanques, navios ou caças. Mas sem capacidade militar, logística, inteligência e presença estatal, o Brasil perde poder de dissuasão e reação.
É nesse contexto que a fala de Amorim ganha força: a Defesa não deve ser lembrada apenas quando surge uma crise.
O risco de importar a lógica da guerra ao terror
Um dos maiores receios brasileiros é que a lógica da guerra ao terror seja aplicada ao combate ao crime organizado latino-americano.
Essa mudança pode ampliar o uso de forças militares, ataques preventivos, operações transfronteiriças e ações conduzidas por grandes potências.
Para os Estados Unidos, cartéis e facções podem ser tratados como ameaças diretas à segurança nacional. Para países da região, porém, o tema toca em soberania, justiça, polícia, direitos humanos e controle territorial.
O crime organizado é uma ameaça real. Mas transformá-lo em justificativa para operações militares externas pode criar novos riscos: intervenção, tensão diplomática, deslocamento de violência e perda de controle político sobre ações de segurança.
O que está confirmado e o que ainda é alerta
Alguns pontos já estão documentados: os Estados Unidos ampliaram ataques marítimos contra embarcações suspeitas de ligação com o narcotráfico; Hegseth defendeu ações mais agressivas contra cartéis; Washington classificou organizações criminosas latino-americanas como terroristas; e o governo americano discute cooperação militar terrestre com países aliados da região.
Também está confirmado que Amorim levou sua preocupação ao Congresso brasileiro e defendeu cautela diante da possibilidade de ações militares externas baseadas nessa nova classificação.
O que ainda deve ser tratado como alerta, e não como fato consumado, é a possibilidade de operações militares americanas em países próximos ao Brasil ou ações unilaterais em território brasileiro. Até o momento, isso não foi anunciado oficialmente.
Portanto, o centro da discussão é preventivo: o Brasil observa a mudança da doutrina americana e tenta antecipar seus efeitos antes que uma crise concreta chegue à fronteira.
A defesa de Celso Amorim para elevar os gastos militares brasileiros a 2,5% do PIB ocorre em um momento de mudança no ambiente estratégico da América Latina. Os Estados Unidos ampliam sua campanha contra organizações criminosas, discutem operações terrestres com governos aliados e tratam cartéis e facções dentro de uma lógica cada vez mais militarizada.
Para Brasília, isso acende um alerta. O Brasil não quer confronto com Washington, mas também não pode ignorar uma eventual expansão da presença militar americana em seu entorno estratégico.
A fala de Amorim combina diplomacia e dissuasão: negociar, observar e evitar escaladas, mas fortalecer as Forças Armadas para que o país tenha capacidade real de proteger sua soberania.
No fim, a pergunta permanece: o Brasil está apenas reagindo a um discurso americano mais duro ou a América Latina está entrando em uma fase de militarização que exigirá uma Defesa brasileira muito mais forte?
Fonte: Valor Econômico, InfoMoney, Agência Câmara, Associated Press, Reuters, Senado Federal e Forças de Defesa.