A guerra na Ucrânia abriu uma rota inesperada entre a América Latina e o front europeu. Desde 2022, milhares de colombianos passaram pelas fileiras ucranianas, formando o maior contingente estrangeiro a lutar ao lado de Kiev. O fenômeno combina experiência militar, necessidade econômica, recrutamento pelas redes sociais e uma pergunta que preocupa governos da região: o que esses homens vão trazer de volta quando retornarem?
O presidente colombiano, Gustavo Petro, afirmou que cerca de 7.000 colombianos estariam lutando ou teriam passado pela guerra na Ucrânia. Ele classificou esses combatentes como “mercenários” e disse que a Colômbia não deveria “exportar morte”. A frase reacendeu um debate que vai muito além da semântica: afinal, quem são esses soldados e por que tantos saíram da Colômbia para combater na Europa?
A Colômbia não exporta apenas homens treinados. Ela exporta décadas de experiência em guerra irregular, contrainsurgência e combate real.
O número de 7.000 exige cautela
O número de 7.000 colombianos não significa necessariamente que todos estejam hoje no front. A cifra se refere ao total acumulado de colombianos que teriam passado pelas forças ucranianas desde o início da invasão russa em larga escala, em 2022.
Estimativas independentes apontam para algo entre 1.000 e 2.000 colombianos em combate ativo em diferentes momentos. Mesmo com essa margem de incerteza, o dado central permanece: a Colômbia se tornou, com folga, uma das principais fontes de combatentes estrangeiros para a Ucrânia.
Fontes militares ucranianas citadas por veículos internacionais estimam que colombianos representem uma parcela expressiva dos estrangeiros nas fileiras de Kiev. Em algumas unidades, o espanhol se tornou quase tão comum quanto o ucraniano ou o inglês.
A herança de 60 anos de guerra interna
A resposta para essa presença colombiana começa dentro da própria Colômbia. O país convive há mais de seis décadas com conflitos armados envolvendo guerrilhas, paramilitares, cartéis, dissidências e forças de segurança. Essa realidade criou uma das forças militares mais experientes em combate real na América Latina.
O Exército colombiano acumulou experiência em patrulhas, emboscadas, pequenas unidades, combate em selva, montanha, operações contra insurgência e proteção de infraestrutura. Com o Plano Colômbia, programa de cooperação militar com os Estados Unidos iniciado no fim dos anos 1990, parte dessas forças também recebeu treinamento, doutrina e equipamentos alinhados a padrões ocidentais.
Quando o acordo de paz com as FARC reduziu parte da intensidade da guerra interna, muitos militares experientes deixaram o serviço ainda jovens, entre 30 e 45 anos. Eram homens com preparo físico, treinamento real e dificuldade para encontrar no mercado civil um emprego que remunerasse suas habilidades.
Por que a Ucrânia atrai tantos colombianos?
O salário é um dos principais fatores. Para um veterano colombiano, a remuneração oferecida na Ucrânia pode ser várias vezes maior do que a paga em funções militares ou de segurança privada em Bogotá, Medellín ou outras cidades do país.

Relatos internacionais apontam pagamentos mensais na casa de alguns milhares de dólares, além de bônus, indenizações por ferimento e compensação às famílias em caso de morte. Para homens com experiência de combate e poucas oportunidades econômicas, a Ucrânia passou a ser vista como uma opção arriscada, mas financeiramente atraente.
No início da guerra, muitos viajavam por conta própria. Com o tempo, o fluxo se organizou. Recrutadores, intermediários e veteranos passaram a usar redes sociais, principalmente TikTok e WhatsApp, para explicar o processo de alistamento, mostrar a rotina no front e atrair novos interessados.
Para muitos colombianos, a guerra na Ucrânia não começou como uma causa ideológica. Começou como trabalho armado em um mercado global de guerra.
Mercenários ou soldados regulares?
A palavra “mercenário” tem enorme peso político, mas também possui uma definição jurídica específica. Pelo direito internacional, especialmente pelo Artigo 47 do Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra, não basta ser estrangeiro e receber dinheiro para ser automaticamente classificado como mercenário.
A definição exige uma série de condições simultâneas. Uma delas é que o combatente não faça parte das forças armadas de uma das partes do conflito. Esse ponto é decisivo no caso ucraniano.
Estrangeiros incorporados formalmente às Forças Armadas da Ucrânia recebem uniforme, salário, patente, cadeia de comando e ficam sujeitos à lei militar ucraniana. Nessa condição, eles se aproximam mais da lógica de uma legião estrangeira regular do que da figura clássica do mercenário atuando fora de uma estrutura estatal.
Isso não impede que governos, adversários políticos ou a própria Rússia usem o termo “mercenário” para fins de propaganda. Mas, no campo jurídico, a classificação é mais complexa do que a palavra sugere.
Por que a Ucrânia valoriza esses combatentes?
A Ucrânia enfrenta uma guerra de desgaste. Precisa substituir perdas, manter posições, reforçar unidades de assalto, operar drones, defender trincheiras e conduzir pequenas ações ofensivas em um front extremamente violento. Nesse cenário, soldados estrangeiros com experiência real de combate ganham valor imediato.
Os colombianos chegam com uma vantagem: muitos já sabem lidar com disciplina militar, armas leves, patrulhas, emboscadas, terreno difícil e pressão psicológica. Ainda precisam se adaptar a outro tipo de guerra — artilharia pesada, drones, minas, trincheiras e guerra eletrônica — mas não começam do zero.
Por isso, brigadas ucranianas passaram a absorver combatentes latino-americanos, especialmente colombianos, em funções de infantaria, reconhecimento, assalto e apoio com drones. Para Kiev, cada veterano estrangeiro pronto para combater reduz um pouco a pressão sobre seu próprio sistema de mobilização.
A guerra que eles estão aprendendo
A guerra na Ucrânia é diferente da guerra interna colombiana. No Donbass, em Kharkiv ou em Zaporizhzhia, o combatente precisa lidar com artilharia constante, drones de reconhecimento, drones FPV, munições vagantes, sensores térmicos, trincheiras profundas e saturação de fogo.
Essa experiência tem valor militar imenso. Quem sobrevive aprende técnicas modernas de camuflagem, dispersão, assalto a posições fortificadas, defesa contra drones, uso de guerra eletrônica improvisada e coordenação entre infantaria, drones e artilharia.
É justamente esse aprendizado que preocupa governos da América Latina. O problema não é apenas que colombianos estejam lutando fora do país. O problema é que parte deles voltará com conhecimento prático de uma guerra altamente tecnológica, barata e adaptável.
O risco dos drones FPV nas mãos erradas
Entre todas as tecnologias absorvidas no front ucraniano, os drones FPV são a maior preocupação. Esses aparelhos, controlados por imagem em tempo real, transformaram drones comerciais ou baratos em armas de precisão contra blindados, trincheiras, veículos e soldados.
O custo relativamente baixo, a facilidade de transporte e a possibilidade de adaptação para ataques explosivos tornam os FPV atraentes para cartéis, milícias e grupos insurgentes. A técnica aprendida em uma guerra convencional pode ser transferida para conflitos criminais, ataques contra autoridades, guerras de facções ou intimidação de comunidades.
Investigações internacionais já apontaram preocupação com integrantes ligados a cartéis mexicanos e colombianos tentando aprender táticas de drones na Ucrânia. O caso mais citado envolve um mexicano identificado pelo codinome “Águila-7”, investigado por suspeita de ligação com esse tipo de transferência de conhecimento.
A Ucrânia virou o maior laboratório de drones de guerra do mundo. O medo é que parte desse conhecimento volte para a América Latina pelas mãos de veteranos e criminosos.
O retorno pode ser mais perigoso que a ida
A maior preocupação para a Colômbia não é apenas ver seus cidadãos combatendo na Ucrânia. É lidar com o retorno desses homens. Muitos voltarão feridos, traumatizados, endividados ou sem perspectiva clara de reintegração. Outros retornarão com contatos internacionais, experiência nova e habilidades que podem ser disputadas por grupos armados.
O país já enfrenta dissidências das FARC, ELN, grupos criminosos, redes de narcotráfico e mercados ilegais de segurança. A chegada de veteranos treinados em drones FPV, guerra eletrônica e assalto a posições fortificadas pode alimentar um novo ciclo de profissionalização da violência.
Esse risco não significa que todos os combatentes voltarão para o crime. A maioria pode simplesmente tentar reconstruir a vida. Mas, em um país com reintegração falha, mercado saturado e grupos armados capazes de pagar por habilidades militares, a preocupação é real.
O Brasil aparece em escala menor
O Brasil também aparece nesse mapa, mas em escala muito menor. Há brasileiros que lutaram e morreram na Ucrânia desde 2022, tanto por motivações ideológicas quanto por busca de experiência ou remuneração. Ainda assim, o Brasil não possui o mesmo estoque de veteranos de combate produzido por décadas de guerra interna.
A diferença é estrutural. A Colômbia formou milhares de militares em combate real contra guerrilhas, cartéis e grupos armados. O Brasil tem criminalidade organizada poderosa, mas não passou por uma guerra contrainsurgente nacional de seis décadas com o mesmo grau de mobilização militar.
Por isso, o risco de transferência de conhecimento militar da Ucrânia para o crime organizado existe no Brasil, mas tende a ser mais limitado do que na Colômbia. O caso colombiano é mais sensível pela escala, pelo histórico militar e pela quantidade de veteranos disponíveis.
Uma nova face da guerra global
A presença colombiana na Ucrânia mostra como as guerras modernas já não ficam presas ao território onde são travadas. Um conflito no leste europeu pode recrutar veteranos da América do Sul, ensinar técnicas de drones usadas no Donbass e, anos depois, influenciar a violência de cartéis no México ou grupos armados na Colômbia.
Esse fenômeno é conhecido por especialistas como difusão. Táticas, armas, tecnologias e métodos de guerra se espalham de um teatro para outro. Foi assim com explosivos improvisados no Iraque, com drones comerciais no Oriente Médio e agora com FPV na Ucrânia.
A Colômbia se tornou o caso mais claro dessa nova circulação de combatentes. O país tem mão de obra militar treinada, um mercado interno incapaz de absorvê-la plenamente e grupos armados interessados em qualquer vantagem tecnológica. A Ucrânia, por sua vez, precisa de soldados agora.
O resultado é uma conexão que beneficia Kiev no curto prazo, mas pode criar problemas sérios para a segurança latino-americana no futuro. A pergunta não é se os colombianos vão voltar. Muitos já estão voltando. A pergunta é se a Colômbia e seus vizinhos terão estrutura para reintegrá-los antes que cartéis, dissidências e redes criminosas façam isso primeiro.
Fonte: AP, Atlantic Council, Defense News, UNITED24 Media, France 24, The World e Lieber Institute / West Point.