Comandantes militares serão chamados à Câmara
Os comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica serão chamados à Câmara dos Deputados para discutir a situação das Forças Armadas em um momento de pressão sobre orçamento, modernização militar e prontidão operacional.
A audiência pública foi aprovada pela Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, a CREDN, e ainda terá data marcada. O requerimento foi apresentado pelo deputado Marcel van Hattem, do Novo do Rio Grande do Sul.
A proposta é ouvir os comandantes militares sobre prioridades, limitações, projetos em andamento e desafios das Forças Armadas diante de um cenário internacional marcado por guerras, tensões geopolíticas, ameaças híbridas e disputas por recursos estratégicos.
Na prática, a audiência pode funcionar como uma prestação de contas sobre a capacidade militar do Brasil em um momento de cobrança por transparência, planejamento e previsibilidade orçamentária.
O que a Câmara quer discutir
A CREDN pretende debater o papel estratégico das Forças Armadas na defesa nacional, na soberania e nas relações exteriores do Brasil.
Entre os temas previstos estão execução orçamentária, projetos de modernização, prontidão operacional, dissuasão, interoperabilidade entre as três Forças e transparência nas aquisições estratégicas.
Esse tipo de audiência ganha importância porque programas militares costumam envolver contratos de longo prazo, tecnologia sensível, cadeia industrial especializada e custos elevados. Quando há atrasos, cortes ou contingenciamentos, o impacto pode aparecer diretamente na capacidade de operação das Forças.
O debate também ocorre em um momento em que a defesa voltou a ocupar espaço no cenário internacional. A guerra na Ucrânia, as tensões no Oriente Médio, a disputa no Indo-Pacífico e o avanço de ameaças híbridas reforçaram a percepção de que países precisam manter estruturas militares preparadas para crises complexas.
Projetos estratégicos entram no centro da cobrança
O requerimento aprovado pela comissão cita programas estratégicos das três Forças. No caso do Exército Brasileiro, a discussão deve passar pelo Programa Estratégico Guarani, pela aquisição de helicópteros e pela incorporação de sistemas de aeronaves não tripuladas.
Esses temas envolvem mobilidade terrestre, apoio aéreo, vigilância, reconhecimento, comunicações e monitoramento de áreas sensíveis. Em um país de dimensões continentais, essas capacidades são importantes para fronteiras, Amazônia, operações de garantia da lei e da ordem, ações humanitárias e defesa territorial.
No caso da Marinha do Brasil, a audiência deve abordar o Programa de Desenvolvimento de Submarinos, conhecido como PROSUB, além da situação da Esquadra e da renovação dos meios de superfície.
Também devem entrar no debate temas ligados ao Atlântico Sul, à proteção de rotas marítimas, portos, plataformas offshore, cabos submarinos e outras infraestruturas críticas para a economia brasileira.
Gripen e KC-390 devem ser questionados
Na Força Aérea Brasileira, dois programas devem receber atenção especial: o F-X2, ligado ao caça Gripen, e o KC-390, aeronave de transporte militar desenvolvida pela Embraer.
O Gripen representa a modernização da aviação de caça da FAB e substitui gradualmente capacidades antigas da defesa aérea brasileira. Já o KC-390 amplia a capacidade de transporte, reabastecimento em voo, apoio logístico, evacuação aeromédica e resposta a missões humanitárias.
A audiência pode abrir espaço para questionamentos sobre cronogramas de entrega, custos, manutenção, integração dos sistemas e disponibilidade operacional.
Projetos desse porte não dependem apenas da compra da aeronave ou do equipamento. Eles exigem treinamento, infraestrutura, peças, doutrina, manutenção e orçamento constante para que a capacidade militar seja realmente incorporada.
Orçamento é ponto sensível
Um dos temas mais importantes da audiência deve ser o orçamento de defesa. As Forças Armadas brasileiras mantêm programas de longo prazo, mas convivem com restrições fiscais, contingenciamentos e disputas por recursos dentro do orçamento público.
Esse cenário cria uma tensão permanente entre ambição estratégica e capacidade financeira. O país busca manter projetos como submarinos, blindados, caças, aeronaves de transporte, sistemas de monitoramento e modernização tecnológica, mas precisa garantir previsibilidade para que esses programas não sejam interrompidos ou atrasados.
Na defesa, falta de previsibilidade orçamentária não afeta apenas compras futuras. Ela também pode comprometer manutenção, treinamento, prontidão e disponibilidade dos meios já existentes.
Por isso, a audiência deve ir além da lista de equipamentos. A questão central será entender se os recursos disponíveis são compatíveis com as missões atribuídas às Forças Armadas.
Cenário internacional aumenta pressão
A convocação dos comandantes ocorre em um ambiente internacional mais instável. Guerras convencionais, ataques cibernéticos, sabotagem, espionagem, desinformação, crime organizado transnacional e disputas por recursos naturais passaram a influenciar diretamente o planejamento de defesa dos países.
Essas ameaças são chamadas de híbridas porque combinam meios militares e não militares. Um país pode ser pressionado por ataques digitais, campanhas de influência, ações econômicas, sabotagem de infraestrutura e uso indireto de grupos armados, sem que exista uma declaração formal de guerra.
Para o Brasil, esse debate envolve fronteiras terrestres extensas, Amazônia, Atlântico Sul, espaço aéreo, infraestrutura energética, cabos submarinos, portos e capacidade de resposta em crises.
Isso explica por que a audiência não deve se limitar a uma discussão técnica sobre equipamentos. O tema também envolve estratégia nacional, soberania, relações exteriores e capacidade de dissuasão.
Repúdio aprovado amplia tensão política
Além da audiência sobre defesa nacional, a CREDN também aprovou uma manifestação de repúdio relacionada a um episódio envolvendo o deputado Marcel van Hattem e o general Emílio Vanderlei Ribeiro, chefe da assessoria parlamentar do Exército.
Segundo a tramitação na Câmara e relatos publicados pela imprensa, o caso envolve uma suposta intimidação ao parlamentar nas dependências da Câmara dos Deputados. A manifestação deve ser encaminhada ao ministro da Defesa, José Múcio Monteiro.
O episódio aumentou a tensão política entre integrantes da comissão e representantes militares no Congresso. Com isso, uma pauta que originalmente tratava de orçamento, modernização e defesa nacional também passou a envolver a relação institucional entre militares e parlamentares.
Por iniciativa do deputado Cabo Gilberto Silva, a comissão também aprovou convite para que o comandante do Exército preste esclarecimentos sobre a conduta do chefe da assessoria parlamentar da Força.
Uma audiência com peso estratégico e político
A presença dos comandantes militares na Câmara tende a ter dois efeitos. O primeiro é técnico: permitir que deputados questionem diretamente as Forças sobre projetos, custos, cronogramas, limitações e prioridades.
O segundo é político: colocar a defesa nacional sob maior visibilidade pública em um momento de tensão entre Parlamento, Ministério da Defesa e comandos militares.
Esse tipo de debate é importante porque as Forças Armadas operam com recursos públicos e executam projetos que envolvem valores bilionários, tecnologia sensível e planejamento de décadas.
Ao mesmo tempo, a discussão exige cuidado para não transformar temas estratégicos em disputa partidária simplificada. Defesa nacional envolve Estado, soberania e continuidade institucional, independentemente de governos ou partidos.
A audiência pública aprovada pela CREDN coloca os comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica diante de uma cobrança ampla sobre a situação das Forças Armadas brasileiras.
O debate deve envolver orçamento, prontidão, modernização, projetos estratégicos e os desafios de defesa em um ambiente internacional cada vez mais instável.
Também deve ocorrer sob um clima político sensível, marcado por tensão entre parlamentares e representantes militares no Congresso.
No fundo, a pergunta que estará sobre a mesa é maior do que qualquer programa isolado: o Brasil está conseguindo alinhar suas ambições estratégicas, seus recursos disponíveis e as ameaças que podem afetar sua soberania nos próximos anos?
Fonte: Câmara dos Deputados, CREDN, Sociedade Militar e ficha de tramitação do REQ 57/2026.