Díaz-Canel acusa EUA de preparar três cenários contra Cuba
Presidente cubano Miguel Díaz-Canel afirma que os EUA trabalham com sufocamento econômico, coerção e até agressão militar contra Cuba.
O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, acusou os Estados Unidos de trabalharem com três possíveis cenários contra a ilha: sufocamento econômico, coerção política e econômica, ou uma eventual agressão militar.
A declaração foi feita em entrevista ao portal espanhol elDiario.es e reproduzida posteriormente pelo site da Presidência cubana. Segundo Díaz-Canel, a política americana de “máxima pressão” teria como objetivo provocar uma crise interna capaz de abrir caminho para uma intervenção externa.
A fala do presidente cubano ocorre em meio à piora das tensões entre Havana e Washington, após novas sanções americanas e medidas de pressão econômica contra a ilha.
Os três cenários citados por Díaz-Canel
Na entrevista, Díaz-Canel afirmou que o primeiro cenário seria provocar uma explosão social em Cuba por meio do que chamou de asfixia econômica.
Segundo o presidente cubano, esse cenário buscaria criar uma crise social que pudesse servir de pretexto para uma intervenção sob a justificativa de ajuda humanitária.
O segundo cenário, de acordo com Díaz-Canel, seria um diálogo marcado por coerção e acompanhado de uma campanha de máxima pressão sobre a economia cubana.
Para o governo de Havana, esse tipo de estratégia teria como objetivo tomar o controle de setores econômicos da ilha e, a partir disso, estimular uma mudança no sistema político cubano.
O terceiro cenário citado pelo presidente cubano foi o mais grave: uma eventual agressão militar.
Havana vê risco de intervenção
Díaz-Canel afirmou que Cuba não deseja guerra, mas se prepara para defender o país caso avalie que sua soberania esteja ameaçada.
Segundo ele, os cenários mencionados não seriam uma invenção de Havana, mas consequência da retórica adotada por autoridades americanas, incluindo o presidente Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio.

O líder cubano disse que o país precisa evitar qualquer surpresa estratégica e qualquer possibilidade de derrota diante de uma pressão externa.
Para Díaz-Canel, Cuba tem o direito de se preparar para uma eventual agressão e de defender sua soberania.
Pressão econômica aumenta tensão entre Cuba e EUA
As declarações ocorrem em um momento de forte tensão entre os dois países. Desde janeiro, o governo Trump ampliou a pressão sobre Cuba, incluindo medidas voltadas ao fornecimento de petróleo à ilha e novas sanções contra autoridades e entidades cubanas.
A Casa Branca classificou ações do governo cubano como uma ameaça “incomum e extraordinária” à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos.
O governo americano também autorizou mecanismos para punir países que vendam ou forneçam petróleo a Cuba, dentro de uma estratégia apresentada por Washington como resposta a ameaças à segurança nacional americana.
Para Havana, a pressão energética e financeira busca provocar colapso interno. Para Washington, as medidas fazem parte de uma política de segurança nacional e pressão contra o governo cubano.
Sanções atingem autoridades cubanas
Nos últimos meses, os Estados Unidos também ampliaram sanções contra figuras ligadas ao governo cubano.
Entre as medidas mais recentes, Washington sancionou o próprio Miguel Díaz-Canel, sua esposa, integrantes da família Castro, autoridades militares e entidades relacionadas ao Estado cubano.
O governo americano acusa Havana de repressão interna, violações de direitos humanos e alinhamento com adversários estratégicos dos Estados Unidos. Cuba, por sua vez, acusa Washington de intervenção, guerra econômica e tentativa de mudança de regime.
O impacto sobre a economia cubana
A economia cubana já enfrenta uma crise profunda, marcada por falta de combustível, apagões, escassez de produtos básicos, inflação, queda no turismo e dificuldades para atrair investimentos.

As novas sanções e restrições ampliam o risco de saída de empresas estrangeiras, especialmente em setores sensíveis como turismo, energia, mineração, serviços financeiros e transporte.
Para o governo cubano, esse ambiente faz parte de uma estratégia deliberada de sufocamento econômico. Para críticos do governo de Havana, a crise também é consequência de décadas de controle estatal, baixa produtividade, restrições internas e dificuldades estruturais do próprio modelo cubano.
Essa disputa de narrativas é central. Cuba atribui grande parte da crise ao embargo e às sanções americanas. Washington e opositores do governo cubano afirmam que a responsabilidade principal está no sistema político e econômico da ilha.
Diplomacia continua, mas sob forte desconfiança
Apesar da escalada, os dois lados afirmam manter canais diplomáticos abertos. Díaz-Canel disse defender um diálogo “civilizado” com os Estados Unidos, desde que baseado em respeito à soberania cubana.
O problema é que, no momento, a confiança entre Havana e Washington parece mínima. Para Cuba, os Estados Unidos buscam provocar uma crise interna. Para Washington, o governo cubano representa uma ameaça regional e deve ser pressionado.
Esse ambiente dificulta qualquer negociação. Mesmo quando existem contatos diplomáticos, as duas partes partem de diagnósticos opostos sobre a origem da crise.
O risco de uma nova crise no Caribe
Qualquer aumento da pressão militar ou econômica sobre Cuba tem impacto direto no Caribe e na América Latina.
A ilha ocupa posição estratégica no hemisfério ocidental, próxima dos Estados Unidos e historicamente ligada a crises de grande impacto geopolítico, como a Crise dos Mísseis de 1962.
Embora o cenário atual seja diferente, a combinação de sanções, crise energética, instabilidade social e retórica de confronto aumenta o risco de erro de cálculo.
Para Havana, a prioridade é mostrar que não aceitará pressão externa para mudança de regime. Para Washington, a prioridade declarada é pressionar o governo cubano e apoiar mudanças políticas na ilha.
A fala de Miguel Díaz-Canel mostra que Cuba vê a atual política dos Estados Unidos como uma ameaça direta à sua estabilidade interna e à sua soberania.
Ao falar em três cenários — sufocamento econômico, coerção e agressão militar — o presidente cubano tenta enquadrar as ações americanas como parte de uma estratégia de pressão crescente contra Havana.
Do lado americano, a Casa Branca afirma que suas medidas respondem a ameaças à segurança nacional, violações de direitos humanos e alianças consideradas hostis por Washington.
O ponto central é que a relação entre Cuba e Estados Unidos entrou novamente em uma fase de alta tensão. Mesmo com canais diplomáticos ainda abertos, o aumento das sanções, a crise energética cubana e a retórica de confronto tornam qualquer entendimento mais difícil.
No cenário atual, Cuba tenta se preparar para resistir à pressão externa, enquanto os Estados Unidos ampliam instrumentos econômicos e políticos contra o governo da ilha. A disputa, por enquanto, continua no campo diplomático e econômico, mas a própria linguagem usada pelos dois lados mostra que o risco de escalada não pode ser ignorado.
Fonte: elDiario.es, Presidência de Cuba e Reuters.