EUA atacam Irã pela terceira noite e petróleo dispara
EUA bombardeiam o Irã pela terceira noite seguida e o petróleo dispara. Brent tem maior alta diária em seis anos e o acordo de paz agoniza. Entenda a crise.
Pela terceira noite consecutiva, as forças americanas bombardearam o Irã em uma ofensiva que durou cinco horas. Enquanto Washington prepara a reimposição do bloqueio aos portos iranianos, o preço do petróleo dispara e o acordo de paz assinado em junho agoniza.
Mesmo em meio à escalada, Donald Trump garantiu que ainda é "possível" fechar um acordo com Teerã. O Brent teve sua maior alta diária em mais de seis anos.
Cinco horas de bombardeios
Segundo o Comando Central americano (Centcom), a missão atingiu alvos militares em várias cidades e portos do sul iraniano — entre eles Bushehr, Bandar Abbas, Chah Bahar, Jask, Konarak e a ilha de Abu Musa.
Os alvos incluíram sistemas de defesa costeira, instalações de drones e mísseis e ativos marítimos. A mídia estatal iraniana relatou explosões durante horas ao longo da costa sul, também nas ilhas de Kish e Qeshm. Na província de Khuzistão, a agência IRNA informou quatro feridos. Ao todo, segundo contagem da AFP, 25 pessoas morreram no Irã desde a quarta-feira passada.
"Vamos atacá-los forte esta noite, e vamos atacá-los forte amanhã." — Donald Trump, em entrevista de rádio
A cobrança de Trump e a ironia de Teerã
O presidente americano acrescentou uma exigência inédita: os países do Golfo deveriam pagar aos EUA uma taxa de 20% pela proteção do tráfego marítimo em Ormuz. Segundo ele, Washington está "protegendo uma porção muito rica do mundo" e espera ser remunerada por isso.
O chanceler iraniano Abbas Araghchi respondeu com ironia. Ele afirmou que o Irã "sempre foi o guardião do estreito e assim permanecerá", antes de alfinetar: quem garante a passagem segura deve mesmo ser compensado, mas 20% seria excessivo — o Irã, disse, "será justo".
O petróleo dispara
O mercado reagiu com pânico. O barril do Brent, referência internacional, saltou 9,59% na segunda-feira, fechando a US$ 83,30 — a maior alta percentual em um único dia em mais de seis anos. Nesta terça, seguiu subindo, superando os US$ 84.
O motivo é evidente: o tráfego de navios pelo estreito caiu cerca de 52% em relação à semana anterior, segundo a MarineTraffic. A Guarda Revolucionária acusou os EUA de colocar em risco o abastecimento mundial de energia.
Navios sob ataque
O mar segue como o ponto mais perigoso da crise. A Guarda Revolucionária afirmou ter atingido e inutilizado dois superpetroleiros que, segundo Teerã, desligaram os sistemas de navegação e ignoraram avisos ao tentar cruzar uma rota minada.
Os Emirados Árabes Unidos confirmaram que duas de suas embarcações foram atingidas por mísseis de cruzeiro iranianos. Um tripulante morreu e vários ficaram feridos. Como nas noites anteriores, a Guarda Revolucionária também atacou bases americanas no Bahrein, e as sirenes voltaram a soar em Manama.
Um acordo "em crise"
O Memorando de Entendimento de Islamabad, assinado em 17 de junho, previa a abertura total do Estreito de Ormuz. Menos de um mês depois, ele está em frangalhos.
O porta-voz da diplomacia iraniana, Esmail Bagaei, admitiu que "não há dúvida de que o memorando está em crise", mas insistiu que o Irã "nunca foi o primeiro a violar seus compromissos". As consultas com os mediadores — Catar, Paquistão e Omã — continuam, na tentativa de evitar uma escalada maior.
Uma guerra sem declaração
Na semana passada, Trump enviou uma notificação formal ao Congresso sobre a retomada das hostilidades. Em tese, é o Legislativo que detém o poder de declarar guerra nos EUA — uma prerrogativa contornada por sucessivos presidentes há décadas. O aviso permite estender a ação militar por mais 60 dias sem aprovação parlamentar.
Para o assessor militar do líder supremo, Mohsen Rezaei, o estreito é "mais importante do que dezenas de bombas atômicas" — e o Irã o protegerá a qualquer custo.
Negociar sob as bombas
O paradoxo do momento é evidente. Trump declara a trégua encerrada, ordena bombardeios noturnos e, ao mesmo tempo, afirma que um acordo segue possível. Teerã, por sua vez, promete vingança e mantém canais abertos com os mediadores.
O que ambos os lados parecem entender é que o Estreito de Ormuz não é apenas um alvo militar — é a alavanca econômica que sustenta as duas posições. Enquanto o barril sobe, o custo dessa guerra deixa de ser regional e chega ao bolso do mundo inteiro.
Fontes: Centcom, Reuters, CNN, Al Jazeera, AFP e IRNA.