EUA buscam míssil ar-ar de 1.850 km contra a China
Força Aérea dos EUA busca míssil ar-ar de 1.850 km no programa AFLRW, projetado para atingir alvos aéreos chineses de alto valor no Indo-Pacífico.
A Força Aérea dos Estados Unidos abriu uma nova frente na corrida por armas aéreas de ultra longo alcance. O serviço iniciou consultas à indústria para o programa Air Force Long Range Weapon (AFLRW), uma família de mísseis lançados do ar com requisito mínimo de alcance de 1.000 milhas náuticas — cerca de 1.850 quilômetros.
O número é extraordinário para uma arma ar-ar. O alcance previsto é quase dez vezes maior que o dos principais mísseis ar-ar ocidentais em serviço hoje. Ele revela uma mudança profunda na forma como Washington pretende enfrentar ameaças aéreas e navais em cenários de alta intensidade, sobretudo no Indo-Pacífico.
O que é o programa AFLRW
O aviso foi divulgado pelo Air Force Life Cycle Management Center (AFLCMC), por meio de sua Diretoria de Armamentos, no dia 24 de junho. Um encontro classificado com empresas do setor está previsto para 25 e 26 de agosto, no Guided Weapons Evaluation Facility, na Base Aérea de Eglin, na Flórida. O evento será realizado em nível de sigilo Secret, exigindo credenciais de segurança dos participantes.
Segundo o documento, o AFLRW busca atender à próxima geração de armas ar-superfície e ar-ar de longo alcance. A Força Aérea poderá escolher múltiplos fornecedores para as variantes ar-ar e ar-superfície, mas a prioridade inicial será a versão ar-ar, para alcançar a capacidade operacional mais cedo.
O texto enfatiza componentes modulares e arquitetura aberta, além da possível escolha de um "Master Integrator" — responsável por reunir os subsistemas em um míssil completo, pronto para produção.
Um salto de alcance sem precedentes
O ponto central do programa é o salto de distância. A família AIM-120 AMRAAM, base do combate ar-ar americano há décadas, opera em alcances muito menores — estimados em torno de 160 km na versão mais moderna. O novo AIM-260 JATM, ainda em desenvolvimento, foi concebido para superar o AMRAAM e responder aos mísseis chineses, mas não há indício público de que chegue perto do patamar do AFLRW.
Para dimensionar o que significam 1.850 km, o próprio teatro do Pacífico oferece exemplos. A distância entre as bases americanas em Okinawa e Taiwan é de cerca de 390 milhas náuticas. Já de Guam a Taiwan são aproximadamente 1.500 milhas náuticas. Uma aeronave armada com o AFLRW poderia, em tese, atingir alvos muito antes de eles se aproximarem da zona de combate.
A lógica estratégica contra a China
A motivação é clara: em um eventual conflito no Pacífico Ocidental, neutralizar os alvos aéreos de alto valor da China sem expor as próprias aeronaves. O objetivo são os aviões de alerta antecipado, os aviões-tanque, os bombardeiros e as plataformas de comando e controle — os elos mais frágeis e valiosos de qualquer campanha aérea.
Atingir esses ativos a longa distância forçaria o adversário a recuar suas peças mais importantes, degradando sua capacidade de vigilância, reabastecimento e comando. É a tentativa de furar as chamadas "bolhas" de negação de área que a China vem construindo há décadas.
O desafio invisível: encontrar o alvo
Na prática, um míssil de 1.850 km não seria apenas uma arma maior. A essa distância, o radar da própria aeronave lançadora é irrelevante. O AFLRW dependeria inteiramente de uma rede de sensores capaz de detectar, identificar, rastrear e atualizar alvos em tempo real — a chamada "kill web".
Isso envolveria satélites, aeronaves de alerta antecipado, plataformas furtivas, enlaces de dados e sistemas de comando e controle integrados. Analistas apontam que uma camada espacial de rastreamento de aeronaves seria essencial. Sem essa rede externa, o alcance do míssil superaria a própria capacidade de localizar o alvo.
Quem carregaria uma arma desse porte
Outra dúvida em aberto é qual aeronave levaria um míssil tão grande. A Força Aérea não informou as plataformas previstas. Caças como F-22, F-35 e o futuro F-47 têm limitações de espaço interno para armas volumosas.
Já bombardeiros como o B-21 Raider poderiam atuar como plataformas de lançamento de longo alcance — verdadeiros "caminhões de mísseis" furtivos, empregados tanto em missões ar-ar quanto em ataques a distância.
Uma corrida que se acelera
A iniciativa surge em meio à disputa por mísseis ar-ar de maior alcance. A Marinha dos EUA já opera o AIM-174B, derivado do SM-6, capaz de atingir alvos aéreos a algumas centenas de quilômetros — uma resposta rápida à vantagem chinesa representada pelo PL-15 e por novas armas em desenvolvimento.
O AFLRW, porém, elevaria a disputa a outro nível. Um alcance de 1.850 km aproximaria a arma da categoria dos mísseis de cruzeiro, mas com função declarada também contra alvos aéreos. É uma linha que começa a borrar a fronteira entre o combate aéreo tático e a guerra de mísseis estratégica.
Ainda no papel
Apesar da ambição, o AFLRW está longe de ser uma capacidade real. O aviso atual é apenas um passo preliminar para informar a indústria e coletar propostas. O pedido de orçamento de US$ 49,5 milhões para 2027 confirma que o programa segue em fase de refinamento de conceito.
Não há dados públicos sobre velocidade, propulsão, sistema de guiagem, dimensões, ogiva, custo ou cronograma. Mas a simples existência do requisito revela como o Pentágono enxerga as guerras do futuro: travadas a distâncias oceânicas, onde o alcance deixa de ser vantagem e passa a ser o preço de entrada.
Fontes: The War Zone, Air & Space Forces Magazine e AFLCMC.