EUA compram única mina de terras raras fora da Ásia no Brasil
EUA compram a Serra Verde, única mina fora da Ásia que produz as quatro terras raras magnéticas em escala. O negócio de US$ 2,8 bi tem apoio direto de Washington.
A empresa americana USA Rare Earth anunciou a aquisição de 100% da Serra Verde, mineradora brasileira que opera a mina Pela Ema, em Goiás. A transação, avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões, coloca sob controle americano a única instalação produtora fora da Ásia capaz de fornecer os quatro elementos de terras raras magnéticas em escala.
O negócio não é apenas comercial — é geopolítico. A operação conta com apoio direto do governo dos EUA, que garantiu a compra de 100% da produção por 15 anos.
O que está em jogo
Para entender o peso desta aquisição, é preciso entender o que são as terras raras e por que elas importam. Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos com propriedades magnéticas especiais, indispensáveis para tecnologias que vão de smartphones e veículos elétricos a sistemas de armas avançados.
A mina de Pela Ema é a única fora da Ásia que produz em escala os quatro elementos magnéticos mais críticos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Sem eles, não se fabricam os ímãs permanentes de alta performance usados em motores elétricos, turbinas eólicas, radares e munições guiadas.

Cada caça F-35, por exemplo, exige cerca de 417 kg de elementos de terras raras para seus sistemas de radar, sensores, armas guiadas e motores. Um submarino da classe Virginia consome cerca de 4 toneladas. E a demanda só cresce com a transição energética e a expansão da inteligência artificial.
Os termos do negócio
A transação foi estruturada como uma combinação de US$ 300 milhões em dinheiro e cerca de 126,8 milhões de novas ações da USA Rare Earth. Os acionistas da Serra Verde — incluindo os fundos Denham Capital, Vision Blue Resources, Orion Resource Partners e Energy & Minerals Group — ficarão com aproximadamente 34% da empresa combinada.
"A Serra Verde é um ativo único — a única produtora fora da Ásia capaz de fornecer as quatro terras raras magnéticas em escala. O mundo se tornou dependente demais de uma única fonte, e já é hora de quebrar essa dependência." — Barbara Humpton, CEO da USA Rare Earth
O CEO da Serra Verde, Thras Moraitis, assumirá a presidência da empresa combinada, e o chairman Sir Mick Davis entrará no conselho. Na capacidade plena da Fase 1, prevista para o fim de 2027, a mina deve produzir cerca de 6.400 toneladas métricas de óxidos de terras raras por ano, com EBITDA projetado entre US$ 550 e 650 milhões anuais.
O papel do governo americano
Este não é um negócio comum de mercado. O envolvimento de Washington é profundo e multifacetado. Em primeiro lugar, a Serra Verde já havia fechado um pacote de financiamento de US$ 565 milhões com a DFC (International Development Finance Corporation), a agência de investimentos do governo americano, destinado a expandir a operação da mina.
Em segundo, os EUA firmaram um acordo de offtake de 15 anos para a compra de 100% da produção inicial dos quatro elementos magnéticos, por meio de um veículo de propósito específico capitalizado por entidades governamentais e fontes privadas de capital. O acordo inclui preços mínimos garantidos para cada elemento, protegendo a mina contra quedas de mercado.
Na prática, Washington não apenas financiou a expansão como garantiu a receita por uma década e meia. Isso transforma Pela Ema em um ativo estratégico do governo americano dentro do território brasileiro.
Por que agora: a ameaça chinesa
A motivação é direta. A China controla cerca de 70% da mineração global de terras raras e mais de 90% do refino — e vem usando essa posição como instrumento geopolítico. Em 2025, Pequim restringiu a exportação de terras raras como retaliação às tarifas de Trump, e já acumula um histórico de usar controles de exportação como pressão diplomática.
Para os EUA, a dependência chinesa nesse setor é uma vulnerabilidade estratégica crítica. Se a China cortasse o fornecimento, a produção de armamentos avançados, veículos elétricos e equipamentos de telecomunicações seria severamente comprometida. A mina de Goiás oferece a Washington uma fonte alternativa, escalável e fora da esfera chinesa.
O que isso significa para o Brasil
A aquisição coloca o Brasil em uma posição ambivalente. De um lado, o país se consolida como peça da cadeia de suprimentos militar e tecnológica ocidental, atraindo investimentos bilionários e se tornando relevante em uma das disputas geopolíticas centrais do século XXI.
De outro, levanta questões sobre soberania e política industrial. O Brasil possui as segundas maiores reservas de terras raras do mundo, atrás apenas da China, mas praticamente não desenvolve uma cadeia de valor própria. A Serra Verde é, na prática, a única operação significativa no país — e agora será americana.
CADE investiga o negócio
A transação já chamou a atenção de Brasília. Em maio, o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) abriu uma investigação sobre a aquisição, representando um obstáculo regulatório potencial. O Brasil também rejeitou a proposta americana de um acordo bilateral de minerais críticos, apelidada internamente de "TerraBras", e as negociações seguem inconclusas.
Até agora, o único acordo formal entre os governos é um memorando de entendimento em nível estadual, entre os EUA e o governo de Goiás, focado nos investimentos na Serra Verde. Um acordo federal amplo ainda não se materializou — sinal de que Brasília hesita em se alinhar abertamente com Washington nessa frente, em meio à pressão simultânea de Pequim.
Recurso estratégico ou oportunidade perdida
O caso da Serra Verde resume um dilema que o Brasil enfrenta em diversos setores: ter o recurso, mas não a política industrial para capturá-lo. A mina de Pela Ema produz matéria-prima que vale bilhões — mas o refino, a metalização e a fabricação de ímãs são feitos nos Estados Unidos e na Europa, onde o valor agregado é incomparavelmente maior.
A aquisição garante ao Brasil investimentos, empregos e receita de exportação. Mas a pergunta que permanece é se o país está aproveitando estrategicamente sua posição de fornecedor de minerais críticos ou se está, mais uma vez, exportando riqueza bruta para que outros a transformem em tecnologia — e em poder.
Fontes: CNBC, Mining.com, Carbon Credits, SEC filings e International Development Finance Corporation (DFC).