EUA miram Groenlândia para reforçar defesa no Ártico
Enviado de Trump afirma que os EUA precisam reconstruir sua presença na Groenlândia, território estratégico do Ártico ligado à defesa, minerais e rotas marítimas.
O enviado especial dos Estados Unidos para a Groenlândia, Jeff Landry, afirmou que Washington precisa reconstruir sua presença no território autônomo dinamarquês, em meio ao aumento da disputa estratégica no Ártico.
Em entrevista à AFP, Landry disse que chegou a hora de os EUA voltarem a “deixar sua marca” na Groenlândia. A declaração foi feita ao fim de sua primeira visita à ilha desde sua nomeação pelo presidente Donald Trump.
A fala reacende a tensão sobre o papel da Groenlândia na segurança dos Estados Unidos, da Dinamarca e da Otan.
Washington quer recuperar espaço no Ártico
No auge da Guerra Fria, os Estados Unidos chegaram a manter 17 instalações militares na Groenlândia. Com o passar das décadas, essa presença foi reduzida. Hoje, a principal instalação americana no território é a Base Espacial de Pituffik, localizada no norte da ilha.
Landry afirmou que os EUA deveriam fortalecer suas operações de segurança nacional e voltar a ocupar algumas bases na Groenlândia. Segundo ele, a ilha “precisa dos Estados Unidos”.
“Acredito que está na hora de os Estados Unidos voltarem a deixar sua marca na Groenlândia”, disse Jeff Landry à AFP.
A visita, porém, gerou controvérsia. Landry, que também é governador da Louisiana, não havia sido formalmente convidado pelas autoridades locais, segundo relatos da imprensa internacional.

Por que a Groenlândia é tão estratégica
A Groenlândia ocupa uma posição central no Ártico. A ilha fica em uma região sensível para o monitoramento de mísseis, rotas aéreas, navegação marítima e movimentação militar entre América do Norte, Europa e Rússia.
Com o derretimento do gelo polar, novas rotas marítimas podem ganhar importância comercial e militar. Além disso, a Groenlândia possui depósitos de minerais estratégicos, incluindo terras raras, recursos cada vez mais disputados por grandes potências.
Para Washington, a preocupação envolve principalmente a presença de Rússia e China no Ártico. Para a Dinamarca e para a própria Groenlândia, o desafio é equilibrar cooperação militar com soberania política.
A Base de Pituffik continua sendo peça-chave
A Base Espacial de Pituffik, antiga Base Aérea de Thule, é uma das instalações militares mais importantes dos Estados Unidos no Ártico.
Ela é operada pela Força Espacial dos EUA e tem papel relevante em alerta antecipado de mísseis, vigilância espacial e apoio a operações no extremo norte. Sua localização torna a base estratégica para a defesa norte-americana e para o monitoramento de ameaças vindas pelo polo.
Mesmo com uma presença muito menor do que na Guerra Fria, os EUA nunca deixaram de considerar a Groenlândia uma peça vital de sua defesa no Ártico.
O acordo de defesa permite reforço militar
A presença americana na Groenlândia se apoia em um acordo de defesa assinado em 1951 entre os Estados Unidos e a Dinamarca, posteriormente atualizado em 2004.
Esse acordo permite a presença militar americana em áreas de defesa na Groenlândia, dentro de um arranjo que envolve Washington, Copenhague e as autoridades groenlandesas.
Segundo relatos recentes, os EUA avaliam possibilidades de ampliar sua presença além de Pituffik, incluindo investimentos e possíveis áreas adicionais de defesa. Ainda assim, qualquer expansão tende a passar por negociações sensíveis com Dinamarca e Groenlândia.
Autoridades locais rejeitam controle externo
As autoridades da Groenlândia e da Dinamarca têm repetido que apenas os groenlandeses podem decidir o futuro político da ilha.
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou que as conversas com Landry foram construtivas, mas ressaltou que não viu sinais de mudança na posição americana.
Nielsen também afirmou que, embora a postura de Trump sobre o controle da Groenlândia seja desrespeitosa, o território precisa encontrar uma forma de lidar com os Estados Unidos, dada a importância estratégica da relação.
Para o governo groenlandês, cooperação com os EUA não significa abrir mão do direito de decidir o próprio futuro.
Independência segue como tema sensível
A Groenlândia é um território autônomo dentro do Reino da Dinamarca. Pesquisas indicam que muitos groenlandeses apoiam a ideia de independência no futuro, mas o tema é complexo.
A economia local ainda depende fortemente do apoio financeiro dinamarquês, o que torna qualquer separação um processo difícil, gradual e cercado de incertezas.
Durante a visita, Landry tentou associar oportunidades econômicas à possibilidade de maior autonomia groenlandesa. Ele afirmou que haveria oportunidades capazes de levar os groenlandeses “da dependência para a independência”.
Essa abordagem, no entanto, também pode gerar resistência local, especialmente quando vista como tentativa de influência externa sobre o debate político da ilha.
A fala de Jeff Landry mostra que a Groenlândia voltou a ocupar um lugar central na estratégia dos Estados Unidos para o Ártico.
Para Washington, a ilha combina posição militar privilegiada, importância para defesa antimísseis, proximidade com rotas polares e potencial mineral. Para a Groenlândia, o desafio é transformar essa relevância em benefícios reais sem perder controle sobre seu próprio destino.
O resultado é uma disputa diplomática delicada: os EUA querem ampliar presença, a Dinamarca tenta preservar a soberania do reino, e os groenlandeses insistem que o futuro da ilha deve ser decidido por eles mesmos.
Fonte: AFP, The Guardian, Al Jazeera, Departamento de Estado dos EUA, Força Espacial dos EUA e CSIS.