EUA planejam ataques em terra contra o narcotráfico na América Latina

Por Cenas de Combate

Hegseth anuncia que os EUA planejam ataques em terra contra o narcotráfico na América Latina. Facções brasileiras entram no radar da nova doutrina de Washington.

EUA planejam ataques em terra contra o narcotráfico na América Latina

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou nesta semana, no Panamá, que Washington planeja realizar operações militares "em terra" contra o narcotráfico na América Latina. A medida amplia para o continente a campanha de ataques que os EUA já vinham conduzindo contra embarcações no mar.

A declaração marca uma escalada significativa na doutrina de segurança americana para a região. Hegseth equiparou as organizações do narcotráfico a grupos terroristas como o ISIS e a Al-Qaeda.

A ameaça de Hegseth

Falando em um local não identificado na selva panamenha, cercado de soldados, o secretário foi direto sobre a intenção de reproduzir no continente a lógica dos ataques marítimos.

"Será o mesmo efeito em terra. Estamos trabalhando com Equador, Colômbia e outros parceiros para levar a luta às organizações de tráfico em terra. Onde quer que trafiquem drogas ou ameacem o povo americano, vocês são um alvo — assim como o ISIS ou a Al-Qaeda." — Pete Hegseth

Hegseth afirmou que os cartéis devem estar "avisados" e invocou até a Doutrina Monroe, princípio bicentenário que reivindica a primazia dos EUA sobre os assuntos do hemisfério ocidental. Ele também citou os mais de um milhão de americanos mortos por drogas como fentanil e cocaína nas últimas décadas.

A coalizão de 19 países

Os planos de ataques em terra fazem parte da agenda da Americas Counter Cartel Coalition (A3C), aliança liderada por Trump que reúne 19 países. A declaração ocorreu durante o encerramento dos exercícios militares multinacionais PANAMAX 2026.

A composição da coalizão é reveladora: ela agrupa países com governos de direita, como Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Honduras e Peru. A Colômbia, aliás, acabou de aderir como 19º membro, após eleger o candidato alinhado a Trump, Abelardo de la Espriella. Ficam de fora dois países-chave: o México, de governo de esquerda e sede de poderosos cartéis, e o Brasil.

A estratégia já em ação

O anúncio não é apenas retórico — a nova doutrina já começou a se materializar. Segundo relatos, forças dos EUA e do Equador executaram um ataque contra um acampamento dos Comandos de la Frontera, uma dissidência das FARC, perto da fronteira com a Colômbia.

No mar, a campanha é ainda mais intensa. Iniciada em setembro no Caribe e no Pacífico oriental, ela já soma cerca de 20 ataques contra embarcações suspeitas de traficar drogas. Para reforçar as operações, os EUA chegaram a deslocar para a região o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford.

O ponto de atenção para o Brasil

Embora nenhuma operação em território brasileiro tenha sido anunciada, há um sinal de alerta para Brasília. Em junho, os EUA classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — a mesma designação usada para justificar os ataques na região.

Na prática, isso coloca as facções brasileiras no radar da nova doutrina americana. Como noticiado anteriormente, o próprio governo Lula já havia manifestado preocupação com o "risco de os EUA recorrerem à força militar" em território nacional a partir dessa classificação — uma tensão que o anúncio de Hegseth só tende a aprofundar.

As críticas: execução extrajudicial

A ofensiva enfrenta forte contestação jurídica. A campanha de ataques no mar, que já deixou ao menos 215 mortos, é criticada por juristas e organizações de direitos humanos como uma forma de execução extrajudicial.

O argumento central é que os suspeitos são mortos sem julgamento, sem apresentação de provas e sem o devido processo legal. Estender essa lógica para operações em terra, em territórios soberanos de outros países, levanta questões ainda mais graves sobre legalidade internacional e violação de soberania. Há ainda um dado incômodo: relatos indicam que os ataques marítimos não conseguiram reduzir a oferta de cocaína.

Eficácia ou precedente perigoso?

O caso expõe um dilema profundo. De um lado, os EUA apresentam a militarização como resposta a uma crise real de saúde pública e segurança, tratando os cartéis como inimigos de guerra. De outro, especialistas alertam que ações militares diretas raramente desarticulam o crime organizado de forma duradoura — e podem, ao contrário, aumentar a violência e a instabilidade.

O ponto mais sensível, porém, é o precedente. Ao reivindicar o direito de atacar alvos em qualquer país do continente, Washington reabre um debate histórico sobre soberania na América Latina. Se a nova doutrina trará resultados concretos contra o narcotráfico ou apenas abrirá caminho para intervenções unilaterais, é uma resposta que os próximos meses começarão a revelar — e que o Brasil, no radar da designação terrorista, acompanha de perto.

Fontes: Associated Press, AFP, TRT World, Newsroom Panama, OAN e Fox News.

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