Exército desativa sistema antiaéreo Oerlikon 35 mm
O Exército Brasileiro formalizou o plano de desativação do sistema de defesa antiaérea Oerlikon–Contraves 35 mm, encerrando o ciclo de um dos meios mais tradicionais da artilharia antiaérea da Força Terrestre.
A decisão foi oficializada por meio de portaria do Comando Logístico, o COLOG, publicada no Boletim do Exército em abril de 2026. Na prática, o documento organiza a retirada definitiva do material, sua destinação administrativa e os procedimentos logísticos para baixa, preservação ou descarte.
O sistema já havia sido desativado operacionalmente em 2023, após avaliações indicarem limitações relevantes para o emprego em escalões mais elevados, como Divisões e Corpos de Exército.
A saída do Oerlikon 35 mm marca não apenas o fim de um equipamento antigo, mas também a transição da defesa antiaérea brasileira para uma nova fase tecnológica.
Um sistema da Guerra Fria no inventário brasileiro
O sistema Oerlikon–Contraves 35 mm teve sua concepção original na década de 1950, na Suíça, e foi adquirido pelo Exército Brasileiro em 1974, na versão GDF-001.
As primeiras unidades chegaram ao Brasil em 1976. Desde então, o sistema permaneceu por décadas como um dos principais meios de defesa antiaérea de baixa altura e curto alcance da Força Terrestre.
Na época de sua incorporação, o conjunto representava um salto importante para a artilharia antiaérea brasileira. Ele combinava canhões de 35 mm com centrais diretoras de tiro e grupos geradores, formando unidades de tiro capazes de operar de maneira coordenada contra ameaças aéreas.
Com o passar do tempo, porém, o avanço das ameaças aéreas mudou o cenário. Drones, mísseis de cruzeiro, munições guiadas, aeronaves de maior desempenho e sistemas de guerra eletrônica passaram a exigir sensores, comunicações e integração muito superiores aos padrões das décadas anteriores.
Por que o sistema foi retirado
De acordo com os documentos citados pela imprensa especializada, a desativação foi motivada por deficiências que restringiam o emprego da capacidade operativa dentro do conceito atual do Exército.
Um dos pontos centrais foi a ausência de modernizações significativas ao longo da vida útil do sistema. Sem atualização de sensores, direção de tiro, integração com redes modernas e capacidade de resposta adequada às ameaças atuais, o Oerlikon 35 mm deixou de atender às exigências operacionais da Força.
O problema não era apenas a idade do canhão. O desafio estava no conjunto do sistema: detecção, aquisição de alvo, comando, controle, coordenação de fogo e integração com outros meios de defesa antiaérea.
Em guerras modernas, a artilharia antiaérea não atua isolada. Ela precisa operar dentro de uma rede de sensores, comunicações e tomada de decisão rápida. Essa é uma das razões pelas quais sistemas antigos, mesmo ainda capazes de disparar, podem se tornar inadequados para cenários de combate contemporâneo.
O destino dos equipamentos
O plano de desativação estabelece a destinação de dezenas de itens associados ao sistema, incluindo 39 canhões Oerlikon 35 mm, 19 centrais de direção de tiro e grupos geradores usados no apoio às unidades de tiro.
Segundo o documento, os canhões terão destinação voltada principalmente à preservação histórica em organizações militares. Essa medida mantém parte da memória material da artilharia antiaérea brasileira, especialmente por se tratar de um sistema que permaneceu em serviço por mais de quatro décadas.
Já parte das centrais de direção de tiro e dos grupos geradores será encaminhada para alienação, inutilização ou descarte, conforme normas administrativas, patrimoniais e ambientais.
A desativação desse tipo de material não envolve apenas retirar um equipamento do inventário. É necessário realizar avaliação técnica, inspeção, registro contábil, transferência, baixa patrimonial e destinação ambiental correta dos componentes inutilizados.
O que a retirada revela sobre a defesa antiaérea
A aposentadoria do Oerlikon 35 mm ocorre em um momento em que a defesa antiaérea voltou ao centro das discussões militares no mundo. A guerra na Ucrânia mostrou a importância de sistemas capazes de enfrentar drones, mísseis, aeronaves, munições vagantes e ataques em múltiplas camadas.
Para o Brasil, a decisão reforça um desafio conhecido: manter uma defesa antiaérea capaz de proteger tropas, estruturas críticas e áreas estratégicas em um território continental.
Atualmente, a Força Terrestre ainda conta com outros meios, como as viaturas blindadas antiaéreas Gepard 1A2 e sistemas portáteis de mísseis de curto alcance. No entanto, a substituição de capacidades mais antigas exige planejamento, recursos e integração com novos sistemas.
A retirada do Oerlikon deixa evidente que modernizar a defesa antiaérea não é apenas trocar canhões antigos por novos equipamentos, mas construir uma rede capaz de detectar, decidir e neutralizar ameaças rapidamente.
A busca por novos sistemas
A imprensa especializada aponta que o Exército já busca soluções mais modernas para ocupar lacunas na defesa antiaérea, incluindo sistemas de média altura e maior integração tecnológica.
Esse tipo de modernização é fundamental porque a ameaça aérea atual se tornou mais diversa. Um país precisa lidar não apenas com aeronaves convencionais, mas também com drones baratos, ataques saturados, munições de precisão e vetores lançados a partir de grandes distâncias.
Em um cenário assim, sistemas antigos de artilharia antiaérea podem até manter valor histórico ou uso limitado, mas não substituem capacidades modernas de vigilância, comando e controle.
O desafio brasileiro será transformar a baixa de sistemas obsoletos em uma oportunidade de renovação real, sem criar vazios operacionais prolongados.
A desativação do Oerlikon–Contraves 35 mm encerra um capítulo importante da história da artilharia antiaérea do Exército Brasileiro. Incorporado nos anos 1970, o sistema serviu por décadas e marcou uma fase da defesa antiaérea nacional.
Mas o ambiente de combate mudou. A velocidade das ameaças, a presença de drones, a necessidade de integração em rede e a exigência de respostas mais rápidas tornaram sistemas antigos cada vez menos adequados às necessidades atuais.
A decisão do Exército, portanto, representa mais do que uma baixa administrativa. Ela sinaliza a necessidade de adaptação da defesa antiaérea brasileira a um cenário em que proteger o espaço aéreo próximo das tropas e de áreas sensíveis se tornou uma prioridade estratégica.
O fim do Oerlikon 35 mm mostra que a modernização militar não começa apenas com a compra de novos equipamentos. Ela também exige retirar de serviço sistemas que já cumpriram seu papel, preservar sua história e abrir espaço para capacidades compatíveis com as guerras do século XXI.
Fonte: Boletim do Exército, Forças Terrestres e Tecnodefesa.