FAB avalia compra de 36 caças italiano para substituir AMX

Por Cenas de Combate

FAB avalia o M-346 FA como possível substituto dos AMX e complemento aos Gripen na aviação de caça brasileira.

FAB avalia compra de 36 caças italiano para substituir AMX

A Força Aérea Brasileira avalia a possível aquisição do caça leve italiano Leonardo M-346 FA como parte de uma solução para substituir os AMX e reforçar a aviação de combate do país nos próximos anos. A movimentação ocorre em um momento sensível para a FAB, que precisa equilibrar modernização, orçamento, treinamento avançado e manutenção de capacidade operacional.

Segundo informações publicadas pela revista Asas e repercutidas por veículos especializados, a discussão envolve a possibilidade de compra de até 36 aeronaves M-346 FA. O modelo atuaria como complemento ao Gripen E, especialmente em missões de ataque leve, reconhecimento armado, treinamento avançado e conversão operacional de pilotos.

A possível escolha do M-346 FA não substituiria o papel estratégico do Gripen, mas poderia preencher uma lacuna importante deixada pela retirada dos AMX.

Por que a FAB busca uma nova solução

A discussão nasce de uma necessidade operacional clara. Os caças AMX, conhecidos na FAB como A-1, caminham para o fim de sua vida operacional. Essas aeronaves cumpriram durante décadas missões de ataque ao solo, reconhecimento e apoio tático, mas já pertencem a uma geração anterior da aviação militar.

Com a retirada progressiva dos AMX, a FAB precisa decidir como manter parte dessas capacidades sem concentrar todas as missões de caça em um único modelo. O Gripen E é hoje o principal vetor de modernização da aviação de combate brasileira, mas o contrato inicial brasileiro foi firmado para 36 aeronaves.

Embora o Gripen seja um caça moderno, com sensores avançados e capacidade de emprego de armamentos de última geração, a quantidade disponível ainda é limitada para substituir, ao mesmo tempo, diferentes funções antes exercidas por F-5 e AMX.

Crédito: Foto: Força Aérea Brasileira / AMX

Gripen e M-346 FA teriam funções diferentes

O debate não coloca o M-346 FA como concorrente direto do Gripen E. As duas aeronaves pertencem a categorias diferentes. O Gripen é um caça supersônico de primeira linha, projetado para superioridade aérea, defesa do espaço aéreo, ataque e integração em redes modernas de combate.

O M-346 FA, por outro lado, é uma versão de combate leve derivada de um treinador avançado. Sua proposta é entregar uma combinação de treinamento moderno, custo operacional menor e capacidade real de ataque, reconhecimento e defesa aérea limitada.

Esse tipo de composição não é incomum. Forças aéreas de vários países utilizam aeronaves de categorias diferentes para dividir missões, reduzir custos e preservar os caças principais para tarefas mais exigentes. Na prática, nem toda missão precisa empregar o vetor mais caro e sofisticado disponível.

Para a FAB, a questão central não é apenas ter um caça moderno, mas montar uma frota equilibrada, sustentável e capaz de formar pilotos para uma guerra aérea cada vez mais digital.

O que é o Leonardo M-346 FA

O M-346 FA é a versão Fighter Attack do treinador avançado M-346, desenvolvido pela italiana Leonardo. Segundo a própria fabricante, a aeronave foi projetada para missões de combate leve, apoio aéreo aproximado, interdição, defesa nacional e reconhecimento tático.

A aeronave possui radar multimodo Grifo M-346, aviônicos digitais, capacidade de integração com armamentos guiados e sete pontos externos para cargas, sensores e armas. Sua carga externa pode chegar a cerca de 3.000 kg, dependendo da configuração.

O M-346 FA também pode operar em missões ar-ar e ar-solo, utilizando mísseis, bombas guiadas, pods e sistemas de autoproteção. Embora não tenha o mesmo desempenho de um caça de primeira linha, sua proposta está na flexibilidade: treinar pilotos e cumprir missões reais de menor intensidade com menor custo por hora de voo.

Treinamento avançado virou ponto estratégico

Um dos argumentos mais fortes a favor do M-346 FA é seu papel no treinamento. O salto tecnológico entre aeronaves de treinamento básico e caças modernos como o Gripen é cada vez maior. Aviônicos digitais, guerra eletrônica, radar moderno, datalink, mísseis de longo alcance e operação em rede exigem uma fase de preparação mais sofisticada.

Hoje, a FAB utiliza o A-29 Super Tucano como uma plataforma importante na formação de pilotos. O avião é eficiente, robusto e consolidado, mas é um turboélice. Ele não reproduz totalmente as exigências de um caça moderno de alto desempenho.

Nesse cenário, o M-346 poderia atuar como etapa intermediária entre a formação básica e a conversão para o Gripen. A aeronave foi criada justamente para preparar pilotos para caças de quarta e quinta geração, usando sistemas embarcados e simuladores integrados.

A escola internacional da Itália também pesa

Outro elemento relevante é a International Flight Training School, a IFTS, criada pela Leonardo em parceria com a Força Aérea Italiana. A escola funciona na base aérea de Decimomannu, na Sardenha, e oferece treinamento avançado do tipo Lead-In Fighter Training, fase final antes da transição para caças operacionais.

Segundo a Leonardo, a estrutura da IFTS combina aeronaves M-346, simuladores de missão, dispositivos de treinamento e instrutores internacionais. O objetivo é preparar pilotos militares para ambientes de combate modernos, com cenários digitais, ameaças simuladas e integração entre voo real e treinamento virtual.

Para a FAB, uma eventual aproximação com essa estrutura poderia reduzir lacunas de formação e acelerar a adaptação de pilotos ao padrão operacional exigido pelo Gripen.

Relação Brasil-Itália favorece o debate

A possível negociação também tem uma camada histórica. Brasil e Itália já cooperaram em programas importantes da aviação militar brasileira, como o AT-26 Xavante e o próprio AMX. Esses projetos tiveram impacto direto no desenvolvimento da indústria aeronáutica nacional e na formação de gerações de pilotos e técnicos.

O AMX, em especial, nasceu de uma cooperação entre Brasil e Itália e se tornou um dos símbolos da aviação de ataque da FAB. Por isso, a escolha de uma aeronave italiana para suceder parte de suas funções teria peso simbólico e operacional.

Segundo a apuração citada na notícia-base, o tema também poderia entrar em uma agenda bilateral entre o governo brasileiro e o governo italiano. Até aqui, porém, não há anúncio oficial de contrato fechado.

O risco de depender de poucos caças

Um dos pontos mais sensíveis para qualquer força aérea é a dependência de uma frota pequena ou excessivamente concentrada em um único modelo. Em caso de problema técnico, atraso logístico, restrição orçamentária ou dificuldade de fornecimento de peças, toda a capacidade de caça pode ser afetada.

Por isso, a combinação entre um caça principal e uma aeronave leve multifuncional pode oferecer vantagens. O Gripen ficaria concentrado nas missões de maior complexidade, enquanto o M-346 FA poderia assumir tarefas de treinamento avançado, ataque leve, reconhecimento armado e apoio tático.

Esse desenho também ajudaria a preservar horas de voo dos caças mais caros e manter pilotos em treinamento mais realista. Em uma força aérea de orçamento limitado, a eficiência da frota importa tanto quanto a tecnologia embarcada.

Ainda não há contrato fechado

Apesar do avanço das discussões, a possível compra do M-346 FA ainda deve ser tratada com cautela. Até o momento, a informação disponível aponta para avaliação, negociação e interesse estratégico, mas não para uma aquisição oficialmente confirmada.

Esse cuidado é importante porque programas militares desse porte dependem de orçamento, aprovação política, negociação industrial, pacote logístico, treinamento, armamentos e cronograma de entrega. O valor final de um contrato também pode variar muito conforme a inclusão de simuladores, manutenção, peças, armas e transferência de tecnologia.

Mesmo assim, a discussão indica que a FAB busca uma solução para evitar um vazio operacional após a saída dos AMX e para sustentar a transição para uma aviação de caça mais moderna.

O que está em jogo

A possível chegada do M-346 FA ao Brasil representaria mais do que a compra de um novo avião. Ela poderia reorganizar a doutrina de formação e emprego da aviação de caça brasileira, criando uma ponte entre o treinamento avançado e o Gripen E.

Para a FAB, o desafio é manter capacidade de ataque, reconhecimento e defesa aérea em um cenário de recursos limitados. Para a indústria e para a política de defesa, a decisão pode reabrir uma linha histórica de cooperação com a Itália.

Se o projeto avançar, o Brasil poderá adotar uma frota mais flexível, combinando um caça principal de alta tecnologia com uma aeronave leve de combate e treinamento. Se não avançar, a FAB terá de encontrar outra resposta para a mesma questão: como substituir os AMX sem sobrecarregar a frota de Gripen.

Fonte: Revista Asas, Sociedade Militar, Leonardo, Força Aérea Brasileira e informações públicas sobre o programa Gripen no Brasil.

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