França prepara SAMP/T NG com ASTER e MICA para defesa multicamada

Por Cenas de Combate

França encomendou nova configuração do SAMP/T NG, integrando mísseis ASTER e MICA VL em uma arquitetura de defesa aérea multicamada.

França prepara SAMP/T NG com ASTER e MICA para defesa multicamada

A França entrou em uma nova fase de desenvolvimento do sistema de defesa aérea SAMP/T NG, com uma configuração projetada para integrar mísseis de diferentes categorias em uma mesma arquitetura de comando e controle.

O Ministério das Forças Armadas francês anunciou que encomendou a versão multicamada ASTER/MICA VL, capaz de combinar interceptadores ASTER, de médio e longo alcance, com mísseis VL MICA e VL MICA NG, voltados à defesa de curto alcance.

A nova configuração busca transformar o SAMP/T NG em uma plataforma de defesa aérea em múltiplas camadas, capaz de responder a drones, aeronaves, mísseis de cruzeiro e ameaças balísticas.

Uma nova fase para o SAMP/T NG

O contrato foi assinado em 30 de abril pela OCCAR, a Organização Conjunta de Cooperação em Matéria de Armamentos, em nome da Direção-Geral de Armamentos da França, conhecida pela sigla DGA.

O desenvolvimento foi concedido à Eurosam, consórcio franco-italiano formado por MBDA e Thales, responsável por sistemas de defesa aérea baseados na família de mísseis ASTER.

A ideia central é permitir que uma mesma estrutura de comando consiga selecionar e empregar o míssil mais adequado para cada tipo de ameaça, evitando o uso de interceptadores caros contra alvos menores ou menos sofisticados.

Em uma guerra aérea moderna, o desafio não é apenas interceptar ameaças. É interceptar cada ameaça com o sistema certo, no tempo certo e pelo custo certo.

O que muda com a configuração ASTER/MICA VL

Hoje, o SAMP/T NG é estruturado principalmente em torno dos mísseis ASTER 30 B1 e ASTER 30 B1NT, usados em missões de médio e longo alcance, incluindo defesa contra mísseis balísticos táticos.

Com a nova configuração, o sistema também passará a integrar a cadeia de engajamento do VL MICA, acrescentando uma camada de defesa de curto alcance.

Na prática, isso significa que o SAMP/T NG poderá empregar diferentes tipos de interceptadores dentro de uma mesma rede. O ASTER ficaria reservado para ameaças mais exigentes, como mísseis balísticos, aeronaves de alto valor ou mísseis de cruzeiro em perfis complexos. O MICA VL poderia ser usado contra ameaças mais próximas, como drones, munições guiadas, aeronaves em baixa altitude e ataques de saturação.

O objetivo é criar uma defesa mais eficiente: usar o ASTER quando a ameaça exigir alcance e desempenho máximo, e o MICA quando a prioridade for resposta rápida e menor custo de interceptação.

Defesa aérea contra saturação

A nova arquitetura responde a uma mudança clara no campo de batalha. Guerras recentes mostraram que ataques aéreos não ocorrem mais apenas com aeronaves tripuladas ou mísseis caros.

Drones baratos, munições vagantes, mísseis de cruzeiro, foguetes, aeronaves e mísseis balísticos podem aparecer de forma simultânea, tentando saturar radares, centros de comando e baterias de defesa aérea.

Nesse ambiente, usar um míssil de longo alcance contra cada drone pode ser operacionalmente possível, mas economicamente insustentável. Por isso, sistemas modernos precisam combinar camadas diferentes de defesa.

O novo SAMP/T NG ASTER/MICA VL segue exatamente essa lógica: ampliar a quantidade de respostas disponíveis e permitir que o sistema escolha a melhor opção de engajamento.

Radar Ground Fire 300 e módulo de engajamento

A integração exigirá modificações de software e hardware no módulo de engajamento de nova geração e no radar Ground Fire 300.

O Ground Fire 300 é um radar multifuncional de varredura eletrônica ativa, projetado para oferecer cobertura de 360 graus contra diferentes tipos de ameaça aérea, incluindo aeronaves, mísseis e alvos balísticos.

Ministério da Defesa da França

Com a nova configuração, a cadeia de engajamento do MICA VL será conectada ao centro de comando do SAMP/T NG. Isso permitirá que o sistema identifique a ameaça, classifique sua prioridade e selecione automaticamente o interceptador mais adequado.

Esse tipo de automação é essencial em ataques de saturação, quando o tempo entre detecção, decisão e lançamento pode ser extremamente curto.

Por que usar ASTER e MICA no mesmo sistema?

A combinação entre ASTER e MICA VL cria uma arquitetura mais flexível.

O ASTER é o interceptor principal do SAMP/T NG. Ele é projetado para engajar ameaças exigentes em maior alcance e altitude, incluindo mísseis balísticos táticos, mísseis de cruzeiro, aeronaves e outros alvos de alta prioridade.

O VL MICA, por sua vez, é um sistema de defesa aérea de curto alcance baseado em lançamento vertical. Ele foi desenvolvido para proteger áreas sensíveis, forças desdobradas e instalações militares ou civis contra ameaças aéreas de menor distância.

Ao integrar os dois em uma única arquitetura, a França busca reduzir lacunas entre defesa de curto, médio e longo alcance.

A lógica da defesa multicamada é simples: nenhuma camada resolve tudo sozinha, mas várias camadas integradas tornam a penetração inimiga muito mais difícil.

Primeiras entregas a partir de 2030

A França planeja receber oito seções SAMP/T NG dentro da programação militar de 2024 a 2030.

Com o novo contrato, esses sistemas deverão ser entregues diretamente na configuração multicamada ASTER/MICA VL a partir de 2030.

Essa decisão evita que a França receba primeiro uma versão menos integrada para depois modernizá-la. A ideia é já incorporar a nova arquitetura no ciclo inicial de entrega dos sistemas planejados.

VL MICA já foi usado na proteção de Paris 2024

A defesa aérea de curto alcance da Força Aérea e Espacial Francesa já conta com sistemas VL MICA.

Esses sistemas foram empregados operacionalmente na proteção dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris 2024, em um ambiente de segurança marcado por risco de drones, ameaças aéreas leves e necessidade de cobertura de áreas urbanas sensíveis.

A experiência reforçou a importância de sistemas capazes de reagir rapidamente contra ameaças de baixa altitude e menor assinatura radar.

O próximo passo: MISTRAL e sistemas anti-drone

A nova versão do SAMP/T NG faz parte de uma estratégia mais ampla de defesa aérea integrada.

O Ministério das Forças Armadas francês indicou que a arquitetura foi pensada para permitir, no futuro, a incorporação de mísseis MISTRAL 3, de alcance muito curto, e sistemas especializados contra drones.

Isso colocaria o SAMP/T NG dentro de uma rede ainda mais ampla, combinando defesa de longo alcance, curto alcance, muito curto alcance e sistemas específicos de combate a drones.

Essa lógica também se conecta à decisão francesa de adquirir sistemas RapidFire 40 mm, destinados à proteção de bases aéreas contra drones, munições vagantes e ataques de saturação.

Uma resposta às lições da Ucrânia e do Mar Vermelho

O interesse por defesa aérea multicamada cresceu fortemente após as experiências recentes na Ucrânia, no Oriente Médio e no Mar Vermelho.

Nesses cenários, drones baratos, mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e munições guiadas passaram a ser usados em grandes volumes, muitas vezes de forma combinada.

Isso obrigou países europeus a repensarem suas defesas. Ter apenas poucos sistemas de longo alcance não basta. É necessário construir uma rede densa, com sensores, interceptadores de diferentes custos, artilharia antiaérea, guerra eletrônica e comando integrado.

A nova versão do SAMP/T NG mostra que a Europa está tentando adaptar sua defesa aérea a um campo de batalha dominado por saturação, drones e mísseis de vários tipos.

Interesse internacional pelo SAMP/T NG

O SAMP/T NG também ganhou maior projeção internacional. A Itália recebeu os primeiros sistemas para avaliação operacional, enquanto a Dinamarca escolheu o sistema europeu como solução de defesa aérea de longo alcance.

A escolha dinamarquesa reforçou o papel do SAMP/T NG como principal alternativa europeia ao sistema americano Patriot.

Além disso, atrasos em entregas do Patriot levaram outros países europeus a avaliar opções complementares ou alternativas, incluindo sistemas de origem europeia.

Para a França, a evolução do SAMP/T NG também tem valor industrial e estratégico. O programa fortalece MBDA, Thales e Eurosam, reduz dependência de fornecedores externos e amplia a autonomia europeia em defesa aérea.

A nova configuração ASTER/MICA VL do SAMP/T NG representa uma mudança importante na defesa aérea francesa.

Ao integrar mísseis de diferentes alcances em uma mesma arquitetura, a França busca criar um sistema mais flexível, mais eficiente e mais preparado para lidar com ataques de saturação.

O ASTER continuará sendo a camada de maior alcance e desempenho. O MICA VL acrescentará capacidade de curto alcance. No futuro, MISTRAL 3, RapidFire e sistemas anti-drone poderão completar a defesa em camadas ainda mais baixas.

O resultado é uma tentativa de construir uma rede de defesa aérea mais racional: sensores integrados, comando comum e interceptadores escolhidos conforme a ameaça.

Em um cenário marcado por drones baratos, mísseis de cruzeiro, ameaças balísticas e guerra eletrônica, essa combinação pode se tornar uma das respostas mais importantes da Europa para proteger bases, cidades, forças militares e infraestrutura estratégica.

Fonte: Ministério das Forças Armadas da França, DGA, OCCAR e Eurosam.

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