Gripen brasileiro vira vitrine para novos compradores
Após avançar no Brasil com produção local, transferência de tecnologia e montagem pela Embraer, o Gripen voltou a ganhar força no debate internacional de defesa.
Segundo o CEO da Saab, Micael Johansson, Canadá e Portugal estão entre os países que avaliam o caça sueco JAS 39 Gripen E/F em meio a dúvidas sobre o F-35, especialmente envolvendo custos, dependência dos Estados Unidos, participação industrial e flexibilidade operacional.
O caso brasileiro entrou como uma vitrine importante para a Saab. O Brasil não apenas comprou o Gripen: entrou em um programa com transferência de tecnologia, participação da indústria nacional e montagem de parte das aeronaves em território brasileiro.
No mercado de caças modernos, a disputa deixou de ser apenas sobre desempenho em combate. Ela envolve autonomia, indústria, manutenção, software e dependência estratégica pelos próximos 30 anos.
O Brasil como vitrine do Gripen
O programa brasileiro do Gripen é um dos principais argumentos da Saab para mostrar que o caça sueco pode ir além da venda tradicional de aeronaves prontas.
O contrato brasileiro inclui transferência de tecnologia, treinamento de engenheiros, participação de empresas nacionais e montagem de parte dos caças na unidade da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo.
Em março de 2026, Brasil, Saab e Embraer apresentaram o primeiro Gripen E montado no país, um marco para a indústria aeroespacial brasileira. Segundo a Reuters, o Brasil se tornou o primeiro país da América Latina a montar localmente um caça supersônico.
Esse avanço tem peso simbólico e industrial. Para a Saab, mostra que o Gripen pode ser oferecido com participação local relevante. Para o Brasil, reforça a capacidade nacional de integrar, montar e sustentar sistemas militares complexos.
Por que Canadá e Portugal olham para o Gripen
Canadá e Portugal são países com realidades diferentes, mas enfrentam dilemas parecidos em relação à modernização de suas aviações de combate.

O F-35 segue como o principal caça de quinta geração dentro da OTAN e oferece capacidades avançadas de furtividade, sensores e integração em rede. No entanto, o programa também envolve custos elevados, dependência de uma cadeia americana de manutenção e forte controle tecnológico dos Estados Unidos.
Nesse cenário, o Gripen aparece como uma alternativa para países que buscam modernizar suas forças aéreas com maior flexibilidade operacional, custos potencialmente menores e mais espaço para participação industrial local.
Para o Canadá, a discussão envolve também a relação estratégica com os Estados Unidos e o desejo de ampliar parcerias de defesa com outros países. Para Portugal, o debate passa pela substituição futura de sua frota de F-16 e pela busca de uma solução compatível com a OTAN, mas financeiramente sustentável.
Gripen e F-35 representam escolhas diferentes
A comparação entre Gripen e F-35 não é simples porque os dois caças pertencem a conceitos diferentes.
O F-35 é um caça de quinta geração, projetado para operar com baixa assinatura radar, alta integração de sensores e forte capacidade de guerra em rede. Ele é pensado para missões em ambientes altamente contestados, com integração profunda ao ecossistema militar dos Estados Unidos e de aliados da OTAN.
O Gripen E/F, por outro lado, é um caça moderno de geração 4.5, com foco em eficiência operacional, manutenção mais simples, flexibilidade de emprego e capacidade de operar a partir de bases dispersas, inclusive pistas curtas e estruturas menos complexas.
A escolha, portanto, não se resume a qual caça é mais avançado. Ela depende de orçamento, doutrina, ameaça percebida, infraestrutura, autonomia desejada e grau de dependência tecnológica que cada país aceita assumir.
Autonomia virou parte da decisão
O debate internacional sobre caças ganhou uma camada política mais forte nos últimos anos. Comprar um avião de combate significa entrar em uma relação de décadas com o país fornecedor.
Peças, atualizações de software, armamentos, manutenção, treinamento e autorizações de integração podem depender do fornecedor original. Em situações de crise diplomática, essa dependência pode se tornar um fator estratégico.

É nesse ponto que o Gripen tenta se diferenciar. A Saab costuma apresentar o caça como uma plataforma mais aberta à cooperação industrial, transferência de tecnologia e adaptação às necessidades do cliente.
Para países médios, a pergunta deixou de ser apenas “qual caça comprar?”. Agora também é: “de quem vamos depender quando esse caça precisar operar em uma crise real?”.
O peso da indústria nacional
O caso brasileiro mostra como uma compra militar pode ser usada para fortalecer a base industrial de defesa. A participação da Embraer e de outras empresas nacionais no programa Gripen ampliou o domínio brasileiro em áreas de engenharia, integração, testes e manutenção de aeronaves militares avançadas.
Esse tipo de ganho é importante porque projetos de defesa não geram apenas capacidade militar imediata. Eles também podem deixar conhecimento, empregos qualificados, infraestrutura e domínio tecnológico.
Para Canadá e Portugal, esse é um ponto relevante. A possibilidade de envolver empresas locais em produção, manutenção ou suporte pode pesar tanto quanto o desempenho da aeronave em si.
Ao mesmo tempo, programas com transferência de tecnologia exigem compromissos de longo prazo, custos adicionais, estrutura industrial preparada e continuidade política.
O F-35 ainda domina dentro da OTAN
Apesar do crescimento do interesse pelo Gripen, o F-35 continua sendo a principal escolha de muitos países da OTAN. Sua rede de usuários, capacidade furtiva e integração com sistemas americanos dão ao caça uma posição dominante no mercado ocidental.
Para países que priorizam operar de forma totalmente integrada com os Estados Unidos em cenários de alta intensidade, o F-35 mantém forte vantagem estratégica.
Por outro lado, nem todos os países têm o mesmo orçamento, as mesmas ameaças ou a mesma disposição para depender de uma cadeia logística tão controlada por Washington.
É nesse espaço que o Gripen tenta crescer: como alternativa para forças aéreas que buscam equilíbrio entre capacidade, custo, soberania industrial e independência operacional.
O avanço do Gripen no Brasil deu à Saab um exemplo concreto para apresentar ao mercado internacional. A montagem local pela Embraer, a transferência de tecnologia e a participação da indústria brasileira transformaram o programa em uma vitrine de cooperação industrial.
Para Canadá e Portugal, o debate sobre o Gripen em meio às dúvidas sobre o F-35 mostra que a escolha de um caça vai muito além da ficha técnica.
Ela envolve alianças, orçamento, soberania, manutenção, software, armamentos, indústria nacional e dependência estratégica por décadas.
No novo cenário global, comprar um caça também é escolher uma rede de parceiros. E o caso brasileiro mostra que, para alguns países, a possibilidade de participar da produção e absorver tecnologia pode pesar tanto quanto o próprio avião.
Fonte: Reuters, Saab, Embraer, TurDef, AeroTime, Air Data News e Airway.