Ucrânia vira guerra de trincheiras com drones

Por Cenas de Combate

Estudo do CSIS aponta mais de 2 milhões de baixas militares na guerra da Ucrânia e descreve um front marcado por trincheiras, drones e desgaste extremo.

Ucrânia vira guerra de trincheiras com drones

A guerra na Ucrânia entrou em uma escala de desgaste que o mundo não via desde 1945. Segundo um novo estudo do Center for Strategic and International Studies, o CSIS, o conflito já ultrapassou 2 milhões de baixas militares desde a invasão russa em fevereiro de 2022, somando mortos, feridos e desaparecidos dos dois lados.

O levantamento aponta que a Rússia sofreu aproximadamente 1,4 milhão de baixas no campo de batalha, incluindo entre 400 mil e 450 mil mortos. A Ucrânia, por sua vez, teria sofrido entre 525 mil e 625 mil baixas, com estimativa de 125 mil a 150 mil mortos.

Os números são imprecisos, como em qualquer guerra em andamento, mas revelam a dimensão do conflito. Mais do que uma guerra de movimento, a Ucrânia se tornou uma disputa de atrito: trincheiras, minas, artilharia, drones, pequenos grupos de infantaria e uma zona de morte onde qualquer deslocamento pode ser detectado e atacado.

A guerra na Ucrânia parece uma contradição brutal: tecnologia moderna no céu, guerra de trincheiras no solo e milhares de soldados consumidos por mês sem grandes rupturas no mapa.

Mais de 2 milhões de baixas militares

De acordo com o CSIS, as baixas combinadas de Rússia e Ucrânia já passaram de 2 milhões desde o início da invasão em larga escala. A contagem inclui mortos, feridos e desaparecidos, o que torna o número mais amplo do que apenas fatalidades.

O estudo afirma que a Rússia carrega a maior parte desse custo humano. Moscou teria sofrido cerca de 1,4 milhão de baixas entre fevereiro de 2022 e junho de 2026. O total de mortos russos no campo de batalha estaria entre 400 mil e 450 mil.

Para comparação histórica, o CSIS afirma que nenhuma grande potência sofreu números próximos de baixas e mortes militares em qualquer guerra desde a Segunda Guerra Mundial. O estudo também aponta que as mortes russas na Ucrânia superam, em larga escala, as perdas soviéticas no Afeganistão e as baixas russas nas guerras da Chechênia.

Do lado ucraniano, o levantamento estima entre 525 mil e 625 mil baixas, incluindo entre 125 mil e 150 mil mortos. A diferença entre os dois lados não diminui o impacto da guerra sobre Kyiv, que enfrenta um problema estrutural: a Rússia tem população maior e mais capacidade de repor perdas humanas.

O front que lembra a Primeira Guerra Mundial

O estudo descreve um campo de batalha que combina elementos de guerras antigas e tecnologias modernas. A comparação mais forte é com uma espécie de “Primeira Guerra Mundial com drones”.

No solo, o cenário lembra os conflitos de atrito do século XX: trincheiras, campos minados, obstáculos antitanque, artilharia pesada, ataques frontais, posições fortificadas e avanços medidos em metros. No céu, porém, o campo de batalha é dominado por drones de reconhecimento, drones FPV, sistemas de guerra eletrônica e munições de precisão.

Essa combinação tornou o movimento extremamente perigoso. Tropas e veículos expostos podem ser localizados rapidamente por sensores, câmeras e drones. Depois disso, são alvejados por artilharia, bombas planadoras, drones suicidas ou pequenos drones de ataque.

O resultado é uma guerra em que romper a linha inimiga se tornou muito difícil. Grandes concentrações de blindados e infantaria são vulneráveis demais para avançar sem serem detectadas. Pequenos grupos avançam com menos visibilidade, mas sofrem altíssimo risco ao entrar nas zonas vigiadas por drones.

A zona de morte dos drones

Um dos conceitos mais importantes do estudo é a chamada zona de morte. Em algumas áreas da frente, a presença de drones, minas, artilharia e sensores torna extremamente perigoso qualquer movimento dentro de uma faixa que pode chegar a dezenas de quilômetros.

O CSIS aponta que o movimento se tornou difícil em uma zona de aproximadamente 20 a 40 quilômetros ao redor da linha de frente. Nessa faixa, veículos podem ser detectados e destruídos rapidamente. Mesmo soldados a pé precisam se deslocar por longas distâncias, muitas vezes sem apoio blindado direto.

Essa realidade muda a lógica do combate. Em guerras de manobra, o objetivo é romper a linha inimiga e explorar a brecha com velocidade. Na Ucrânia, a densidade de drones, minas e artilharia faz com que qualquer tentativa de concentração de força seja vista antes de produzir ruptura.

O drone transformou o campo de batalha em um espaço quase transparente: esconder tropas, blindados e movimentos ficou mais difícil do que em qualquer guerra recente.

Por que a Rússia avança tão lentamente

A Rússia continua tentando avançar, principalmente no leste da Ucrânia, mas o custo é cada vez mais alto. O estudo do CSIS aponta que as ofensivas russas avançam em ritmo extremamente lento, muitas vezes medido em poucos metros por dia.

Em áreas como Kostiantynivka, Pokrovsk e Sloviansk, os avanços médios russos ficaram entre aproximadamente 50 e 90 metros por dia. São taxas entre as mais lentas observadas em grandes campanhas militares no último século.

Esse ritmo mostra a dificuldade de atravessar defesas preparadas. A Ucrânia construiu linhas em profundidade com trincheiras, minas, obstáculos antitanque, artilharia, drones e unidades capazes de recuar, resistir e contra-atacar localmente.

Além disso, a Rússia tem usado pequenos grupos de infantaria para testar posições ucranianas, atrair fogo e localizar pontos defensivos. Quando uma posição é identificada, ela pode ser atacada por artilharia, drones FPV e bombas planadoras. Essa tática produz pressão constante, mas também gera enormes baixas.

O custo humano da estratégia russa

A estratégia russa se baseia em desgaste. Moscou tenta usar sua superioridade em população, artilharia, bombas planadoras, drones e capacidade industrial para exaurir a defesa ucraniana ao longo do tempo.

O problema é o preço. O CSIS estima que a Rússia sofreu entre 30 mil e 34 mil baixas por mês em 2026. Esse número provavelmente supera sua taxa mensal de recrutamento, estimada em cerca de 27 mil novos recrutas.

Se essa tendência continuar, o desgaste pode se tornar problema estrutural para Moscou. Uma coisa é substituir soldados no papel. Outra é manter qualidade, treinamento, comando, moral e capacidade ofensiva após perdas tão elevadas.

O estudo também aponta que a proporção de baixas entre Rússia e Ucrânia teria subido para quase 8 para 1 no primeiro semestre de 2026, em grande parte pelo uso ucraniano de drones, inclusive sistemas com inteligência artificial, em campanhas de interdição aérea.

A Ucrânia também paga um preço enorme

Apesar de a Rússia sofrer perdas maiores, a Ucrânia também enfrenta um custo humano devastador. Entre 525 mil e 625 mil baixas representam um impacto profundo para um país menor, com população reduzida pela guerra, deslocamentos internos, refugiados e perdas econômicas.

Kyiv precisa defender uma linha extensa, manter rotação de tropas, repor unidades desgastadas, treinar novos soldados e preservar sua capacidade de combate enquanto depende de apoio externo para munições, defesa aérea, veículos, drones e inteligência.

Esse é um dos dilemas centrais da guerra. Mesmo quando a Ucrânia consegue impor perdas maiores à Rússia, ela também se desgasta. Uma guerra de atrito não mede apenas quem perde mais, mas quem consegue sustentar perdas por mais tempo.

Por isso, o apoio ocidental continua sendo decisivo. Sem munições, defesa aérea, drones, sistemas de guerra eletrônica e financiamento, a capacidade ucraniana de manter o custo russo elevado pode diminuir.

Drones mudaram a lógica da guerra

A Ucrânia se tornou o laboratório mais sangrento da guerra moderna. Drones baratos, sensores comerciais, inteligência artificial, guerra eletrônica, redes digitais e munições de precisão mudaram a relação entre custo e efeito no campo de batalha.

Um drone FPV de baixo custo pode destruir um veículo que vale centenas de milhares ou milhões de dólares. Um sistema de reconhecimento pode localizar tropas em movimento e repassar coordenadas quase em tempo real. Drones autônomos e assistidos por inteligência artificial reduzem a vulnerabilidade a bloqueios de comunicação e interferência eletrônica.

O CSIS destaca que a Ucrânia ampliou ataques de curto, médio e longo alcance contra alvos russos, incluindo infraestrutura energética, logística, bases, instalações industriais e depósitos. Essa campanha funciona como interdição aérea, mas feita com drones e mísseis, não com grandes frotas de aviões.

Essa mudança tem impacto global. Exércitos de todo o mundo estão observando a Ucrânia para entender como sobreviver em um campo de batalha onde tudo pode ser visto, rastreado e atacado rapidamente.

O mapa muda pouco, mas o desgaste é gigante

Uma das maiores contradições da guerra é que o mapa muda pouco, mas o custo humano e material é gigantesco. A Rússia consegue capturar vilas, bairros e pequenos trechos de terreno, mas raramente obtém rupturas operacionais decisivas.

Segundo o CSIS, a Rússia chegou a perder mais território do que conquistou em abril e maio de 2026, com uma perda líquida de cerca de 400 quilômetros quadrados. Isso indica que, apesar da ofensiva constante, Moscou não consegue transformar baixas massivas em ganhos proporcionais.

Essa é a lógica brutal da guerra de atrito: destruir, desgastar e pressionar, mesmo que o avanço territorial seja limitado. O objetivo pode não ser apenas conquistar terreno rapidamente, mas quebrar a capacidade política, militar e social do adversário de continuar resistindo.

O problema é que essa lógica consome os dois lados. Rússia e Ucrânia seguem presas em uma disputa onde cada quilômetro pode custar milhares de vidas.

O dilema do Ocidente

Para o Ocidente, o estudo reforça um dilema estratégico. A Rússia está pagando um preço enorme, mas continua lutando. A Ucrânia resiste, mas depende de apoio constante. A pergunta é se Estados Unidos e Europa conseguirão sustentar esse esforço por tempo suficiente para impedir uma vitória russa.

O apoio ocidental não é apenas militar. Ele envolve munições, inteligência, treinamento, sistemas de defesa aérea, financiamento, reconstrução, sanções contra Moscou e capacidade industrial para manter o fluxo de equipamentos.

Se esse apoio diminuir, a vantagem defensiva ucraniana pode enfraquecer. Se for ampliado, a Rússia pode continuar sofrendo perdas desproporcionais sem conseguir avanços decisivos.

O ponto central é que a guerra não será decidida apenas no front. Ela também será decidida em fábricas, orçamentos, eleições, arsenais, linhas de produção e disposição política de sustentar uma guerra longa.

O estudo do CSIS mostra que a guerra na Ucrânia chegou a uma escala de desgaste raramente vista desde a Segunda Guerra Mundial. Mais de 2 milhões de baixas militares, avanços medidos em metros por dia e uma frente dominada por drones revelam um conflito brutalmente moderno e, ao mesmo tempo, assustadoramente antigo.

A Rússia continua tentando avançar, mas paga um preço humano enorme. A Ucrânia consegue impor perdas severas ao inimigo, mas também sofre desgaste profundo e depende de apoio ocidental para manter sua defesa.

A imagem mais forte da guerra talvez seja essa: trincheiras no solo, drones no céu e soldados presos em uma zona onde qualquer movimento pode ser o último.

No fim, a pergunta permanece: a Ucrânia virou o laboratório mais sangrento da guerra moderna — e até quando Rússia, Ucrânia e Ocidente conseguirão sustentar esse desgaste?

Fonte: Center for Strategic and International Studies, The Guardian, Reuters, NV, Axios e imprensa internacional especializada em defesa.

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