Hezbollah ataca negociações do Líbano com Israel em nova rodada

Por Cenas de Combate

Hezbollah diz que as negociações do Líbano com Israel trarão só "vergonha e humilhação". O governo rebate e acusa o grupo de ter arrastado o país à guerra.

Hezbollah ataca negociações do Líbano com Israel em nova rodada

O líder do Hezbollah, Naim Qassem, disparou nesta terça-feira (4) contra a nova rodada de negociações diretas entre Líbano e Israel, que começou em Roma. Segundo ele, as conversas trarão ao povo libanês "nada além de vergonha, humilhação e concessões sucessivas".

O discurso expôs, mais uma vez, a profunda divisão interna do Líbano. De um lado, um governo que aposta na diplomacia; de outro, um grupo armado que a chama de rendição.

O ataque de Qassem

Em mensagem televisionada durante uma cerimônia do Arba'een, na cidade de Baalbek, no sul do país, Qassem rejeitou categoricamente as negociações. Ele questionou o que o Líbano teria obtido com as sucessivas rodadas de conversas.

"O que o Líbano colheu de todas essas rodadas de negociação? Nada além de vergonha, humilhação e concessões sucessivas." — Naim Qassem, líder do Hezbollah

O líder do grupo xiita também mirou diretamente no presidente Joseph Aoun, acusando-o de abandonar a imparcialidade que seu cargo exige. Segundo Qassem, o presidente "não agiu como árbitro nem como figura unificadora, mas se tornou tendencioso e divisivo — algo incompatível com seu papel e com a força do Líbano".

A resposta do governo

A reação do Executivo libanês foi imediata e igualmente dura. O primeiro-ministro Nawaf Salam, sem citar o Hezbollah pelo nome, devolveu a acusação, responsabilizando o grupo por ter arrastado o país à guerra.

"O maior apoio a Israel foi dado por quem se destacou ao arrastar o Líbano para aventuras de guerra inúteis, dando pretextos para agressões que pisotearam nossa soberania, destruíram cidades e mataram nossos filhos." — Nawaf Salam, primeiro-ministro do Líbano

A troca de acusações resume o dilema libanês: o governo argumenta que a diplomacia busca reparar os danos de uma guerra que o próprio Hezbollah provocou, enquanto o grupo enxerga qualquer negociação como capitulação.

O que está em jogo em Roma

A rodada desta terça, mediada pelos Estados Unidos, ocorreu na embaixada americana em Roma. Beirute busca, sobretudo, uma retirada israelense em fases das áreas que suas tropas ainda ocupam no sul do país.

As negociações não são meramente simbólicas — já produziram resultados concretos. Após a rodada anterior, encerrada em 15 de julho, o exército israelense se retirou dos arredores da vila de Zawtar al-Gharbiyeh, uma das primeiras zonas-piloto. O Exército libanês assumiu a área e permitiu que moradores voltassem a inspecionar suas casas.

O ponto mais sensível: o desarmamento

Há, porém, um tema que torna tudo mais explosivo. Segundo um oficial israelense, na rodada anterior as duas partes concordaram sobre a necessidade de desarmar e desmantelar o Hezbollah.

Isso ajuda a explicar a fúria de Qassem. Para o grupo, entregar as armas equivale a perder sua razão de existir. Não por acaso, ele reafirmou que o Hezbollah continuará resistindo, alinhando-se ao discurso do Irã e do novo líder supremo, Mojtaba Khamenei.

Um aceno inesperado à Síria

Em meio às críticas, Qassem fez um gesto que surpreendeu. Ele afirmou estar aberto a uma reunião pública com o novo regime sírio — o mesmo que derrubou Bashar al-Assad, aliado histórico que o Hezbollah apoiou abertamente durante a guerra civil.

"Nada impede um encontro público entre o Hezbollah e a liderança síria quando ambos os lados julgarem o momento certo", disse, invocando "relações fraternas" entre os dois países. O aceno ganha peso porque Donald Trump vinha pressionando Damasco a agir contra o Hezbollah — o que torna a aproximação um movimento estratégico digno de atenção.

Um país dividido contra si mesmo

O episódio de Roma vai além de uma simples rodada de negociações. Ele revela um Líbano fraturado entre dois projetos incompatíveis: um Estado que tenta reafirmar sua soberania pela via diplomática e um ator armado que responde a agendas externas.

Enquanto israelenses e libaneses conversam em Roma, a verdadeira disputa parece estar dentro do próprio Líbano — entre um governo que quer virar a página da guerra e um Hezbollah que se recusa a depor as armas. O sucesso das negociações, no fim, pode depender menos de Israel e mais da capacidade de Beirute de resolver essa contradição interna.

Fontes: Naharnet, The Jerusalem Post, Middle East Eye, The Times of Israel e AFP.

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