Israel voltou a bombardear o sul do Líbano, deixando ao menos uma dúzia de mortos em uma nova escalada que pressiona a trégua anunciada em abril. Segundo o Ministério da Saúde libanês, os ataques atingiram áreas nas regiões de Nabatieh e Marjayoun, incluindo vilarejos civis e equipes de resgate.
O Exército israelense afirma que suas operações continuam mirando estruturas e membros do Hezbollah, movimento xiita libanês apoiado pelo Irã. O problema é que os ataques ocorrem apesar de um cessar-fogo anunciado por Washington, que deveria reduzir as hostilidades entre Israel e o grupo armado no território libanês.
“Não há imunidade para militantes”, afirmou o governo israelense após mirar um comandante do Hezbollah em Beirute.
Ataques atingem Nabatieh e Marjayoun
De acordo com autoridades libanesas, bombardeios israelenses mataram 11 pessoas, incluindo duas crianças, em três vilarejos no distrito de Nabatieh. Outro ataque, na região de Marjayoun, matou um paramédico do Comitê Islâmico de Saúde, serviço de emergência ligado ao Hezbollah, e deixou outro socorrista ferido.
Antes dos bombardeios, os militares israelenses emitiram alertas de evacuação para localidades no sul do país. Na prática, porém, o curto intervalo entre aviso, deslocamento e ataque costuma aumentar o risco para civis, especialmente em áreas onde famílias, idosos e equipes médicas têm dificuldade para sair rapidamente.
A trégua existe no plano diplomático, mas no sul do Líbano a guerra continua sendo sentida em ataques quase diários.
O ataque em Beirute e a força Radwan
A nova onda de ataques ocorreu um dia depois de Israel atingir o subúrbio sul de Beirute, área conhecida como reduto do Hezbollah. Segundo o governo israelense, o alvo era um comandante da força Radwan, unidade de elite do movimento xiita.
Foi o primeiro ataque israelense contra os subúrbios ao sul da capital libanesa desde o cessar-fogo anunciado em abril. Para Israel, a ação foi apresentada como uma operação preventiva contra uma ameaça a comunidades do norte israelense. Para o Hezbollah e seus aliados, trata-se de mais uma violação da trégua.
A força Radwan é considerada uma das estruturas mais sensíveis do Hezbollah. Israel acusa a unidade de preparar incursões, ataques com foguetes, drones e operações contra comunidades próximas à fronteira. Por isso, seus comandantes têm sido alvos prioritários desde a ampliação da guerra no Líbano.
Negociações em Washington
A escalada ocorre às vésperas de uma nova rodada de negociações entre representantes de Israel e do Líbano em Washington, prevista para os dias 14 e 15 de maio. Será a terceira rodada de conversas em nível diplomático, com mediação dos Estados Unidos.
Segundo autoridades americanas e israelenses, as reuniões devem discutir medidas mais concretas para reduzir a tensão, incluindo temas de segurança na fronteira e o papel do Hezbollah no sul do Líbano. As duas rodadas anteriores ocorreram em abril, em Washington, e abriram caminho para o cessar-fogo anunciado pelos EUA.
Israel e Líbano permanecem tecnicamente em guerra desde 1948. Por isso, mesmo reuniões diplomáticas limitadas têm peso político. Ainda assim, o avanço de qualquer acordo depende de um ponto central: a redução real dos ataques no terreno.
O impasse entre Beirute, Israel e Hezbollah
O governo libanês tenta equilibrar uma posição difícil. De um lado, sofre pressão internacional para avançar em um acordo de segurança com Israel e fortalecer o controle estatal sobre armas no país. De outro, enfrenta a influência do Hezbollah, que mantém força militar própria e acusa adversários internos de aceitar uma postura de “rendição”.
O presidente libanês, Joseph Aoun, afirmou que qualquer encontro de alto nível com Israel só faria sentido depois de um acordo de segurança e do fim dos ataques israelenses. Essa posição reflete uma tentativa de evitar que negociações sejam vistas internamente como normalização enquanto o país ainda sofre bombardeios.
Para Israel, a prioridade declarada é impedir que o Hezbollah mantenha capacidade de atacar o norte israelense. Para o Líbano, o desafio é evitar que o país inteiro seja arrastado para uma guerra aberta enquanto tenta preservar algum espaço diplomático.
Uma trégua cada vez mais frágil
Embora o cessar-fogo tenha reduzido parte da intensidade da violência, ele não encerrou as hostilidades. Levantamento da ACLED aponta que, entre 17 e 30 de abril, Israel e Hezbollah realizaram quase 360 ataques remotos um contra o outro, mesmo após a entrada em vigor da trégua.
Nesse período, segundo o mesmo levantamento, ataques israelenses mataram quase 300 pessoas no Líbano. A maior parte dos incidentes ocorreu perto da zona de segurança ao sul do rio Litani, mas Israel também ampliou ataques contra áreas ao norte dessa linha, incluindo Nabatieh e, mais recentemente, os subúrbios de Beirute.
A continuidade dos ataques mostra que o cessar-fogo funciona mais como instrumento diplomático do que como interrupção total da guerra. Ele cria espaço para negociações, mas não impede que Israel mantenha operações contra alvos ligados ao Hezbollah nem que o grupo continue tentando responder em áreas próximas à fronteira.
O custo humano no Líbano
A guerra no Líbano já deixou milhares de mortos e feridos desde março, segundo autoridades libanesas. Mais de um milhão de pessoas foram deslocadas internamente, principalmente no sul do país, onde vilarejos inteiros foram esvaziados por bombardeios, ordens de evacuação e destruição de infraestrutura.
Para a população civil, a diferença entre guerra aberta e trégua parcial é cada vez menos clara. Escolas, estradas, casas, instalações de saúde e serviços de emergência operam sob ameaça constante. Mesmo quando o alvo declarado é militar, o impacto acaba atingindo comunidades inteiras.
No sul do Líbano, a palavra “cessar-fogo” perdeu força diante da rotina de evacuações, drones e bombardeios.
O risco de uma escalada regional
A frente libanesa também está ligada à crise mais ampla no Oriente Médio. O Hezbollah é aliado do Irã, e a continuidade dos ataques israelenses no Líbano pesa sobre qualquer tentativa de estabilizar as negociações regionais envolvendo Washington, Teerã e seus aliados.
Para os Estados Unidos, a prioridade é impedir que o conflito no Líbano atrapalhe a tentativa de abrir uma via diplomática mais ampla. Para Israel, qualquer acordo que limite sua liberdade de ação contra o Hezbollah pode ser visto como risco à segurança no norte do país.
Essa tensão explica por que os ataques continuam mesmo com negociações marcadas. Israel tenta preservar capacidade de pressão militar. O Hezbollah busca mostrar que não foi neutralizado. O governo libanês tenta evitar uma guerra maior. E Washington tenta transformar uma trégua frágil em um processo político minimamente viável.
O problema é que cada novo bombardeio reduz a credibilidade da trégua. Se a rodada de Washington ocorrer com ataques ainda em andamento, as conversas começarão sob pressão direta do campo de batalha. A diplomacia pode até abrir caminho para um acordo, mas, no sul do Líbano, a realidade continua sendo decidida por drones, aviões e artilharia.
A nova ofensiva israelense mostra que o cessar-fogo entre Israel e Hezbollah ainda está longe de ser uma paz real. Enquanto os dois lados mantiverem ataques e respostas, qualquer negociação será vulnerável a um único incidente capaz de incendiar novamente toda a fronteira.
Fonte: Reuters, The New Arab e Times of Israel.