Montanha Picareta: o alvo nuclear que Trump ameaça bombardear
Trump ameaça bombardear a Montanha Picareta, onde Israel acredita que o Irã escondeu milhares de centrífugas. O alvo pode estar fundo demais para as bombas.
Donald Trump colocou na mira um dos alvos mais difíceis do planeta. O presidente americano ameaçou bombardear a Montanha Picareta — conhecida no Irã como Kuh-e Kolang Gaz La —, um complexo subterrâneo onde a inteligência israelense acredita que Teerã escondeu milhares de centrífugas nucleares.
A ameaça abre uma nova frente na guerra que já dura quase cinco meses. O problema é que o alvo pode estar fundo demais para qualquer bomba do arsenal americano.
A ameaça de Trump
A declaração veio na terça-feira (21), durante um encontro com o presidente libanês Joseph Aoun, no Salão Oval. Questionado sobre o local, Trump não hesitou.
"Vamos atingir aquela área provavelmente muito em breve. E com muita força. Qualquer local onde eles estejam sequer pensando em nuclear, vamos atacar de forma muito, muito poderosa." — Donald Trump
Dias antes, em entrevista ao locutor Hugh Hewitt, ele já havia descrito a montanha como "um possível alvo para um belo tiro certeiro bem na porta da frente". Curiosamente, na mesma ocasião afirmou não ver "nenhuma atividade ali".
A revelação do Wall Street Journal
A ameaça ganhou peso após uma reportagem do Wall Street Journal. Segundo o jornal, Israel repassou aos Estados Unidos informações de que o Irã transferiu milhares de centrífugas para os túneis da montanha no outono passado — logo após a guerra de 12 dias de junho de 2025, quando bombardeiros americanos atingiram as principais instalações nucleares iranianas.
O próprio jornal, porém, faz uma ressalva importante: a presença das centrífugas não significa necessariamente que o Irã esteja construindo um novo local de enriquecimento ali. Teerã pode simplesmente ter guardado os equipamentos sobreviventes no ponto mais protegido de que dispunha.
Trump minimiza — mas mantém o alvo
A reação do presidente americano foi ambígua. Ele não negou a reportagem, mas relativizou seu conteúdo: o Irã "pode ter" movido as centrífugas, disse, mas os EUA "não têm isso registrado".
Trump acrescentou que, mesmo que o equipamento esteja lá, "não significa nada, a menos que eles tenham o material" — referindo-se ao urânio enriquecido, que, segundo ele, o Irã não possui. Ainda assim, manteve a instalação na lista de alvos e afirmou haver indícios de que Teerã tenta reconstituir seu programa nuclear.
Uma fortaleza escavada no granito
Do ponto de vista militar, o desafio é imenso. A montanha fica na cordilheira Zagros, a cerca de 1.600 metros de altitude, aproximadamente 220 km ao sul de Teerã — e a menos de 3 km do complexo nuclear de Natanz.
O complexo consiste em uma rede de túneis escavados em rocha, a uma profundidade estimada entre 90 e 145 metros. Para efeito de comparação, isso é muito mais fundo que Natanz e Fordo, ambas atingidas nos ataques do ano passado. Analistas avaliam que o local foi projetado desde o início para resistir a bombardeios convencionais.
O limite das bombas anti-bunker
Essa profundidade levanta dúvidas sérias sobre a eficácia até da GBU-57, a maior bomba penetradora do arsenal americano, lançada apenas pelos bombardeiros furtivos B-2.
Em Fordo, os ataques se concentraram nos dutos de ventilação que davam acesso aos corredores subterrâneos — uma solução criativa diante da impossibilidade de perfurar toda a rocha. O problema é que, na Montanha Picareta, imagens de satélite ainda não identificaram estruturas equivalentes.
Pior: segundo o Institute for Science and International Security, imagens recentes mostram o Irã reforçando ativamente as entradas dos túneis contra ataques aéreos, com rocha e solo empurrados e nivelados sobre os portais.
A ironia da sabotagem
Há um detalhe histórico que dá outra camada à história. A construção do complexo começou em 2020, logo após uma explosão em Natanz que as autoridades iranianas atribuíram a um ato de sabotagem. O Irã declarou o local, em 2021, como um centro de montagem de centrífugas, para substituir a fábrica destruída.
Ou seja: a Montanha Picareta nasceu justamente como resposta a uma operação encoberta. E agora, ironicamente, a sabotagem pode voltar a ser a arma mais eficaz contra ela.
O ponto fraco não está no teto
É aí que entra a análise mais interessante. O complexo ainda não está concluído. Uma instalação em construção depende de fornecimento contínuo de energia, transporte de equipamentos pesados e presença de pessoal altamente especializado.
Cada um desses fatores é um vetor vulnerável — não a bombas, mas a operações de inteligência, ciberataques e sabotagem. É o tipo de guerra em que Israel construiu sua reputação, e que já provou ser mais eficaz que qualquer tonelagem de explosivos contra alvos enterrados.
Uma ameaça que revela um limite
A promessa de atingir a montanha "com muita força" carrega um paradoxo. Quanto mais fundo o Irã cava, menos relevante se torna a superioridade aérea americana — e mais o confronto se desloca para o terreno silencioso da espionagem.
Há ainda a dimensão política. Segundo o WSJ, Benjamin Netanyahu vem tentando convencer Trump a retomar ataques totais contra o Irã, à medida que os objetivos israelenses divergem das prioridades americanas. Nesse contexto, a inteligência sobre a Montanha Picareta funciona como argumento tanto quanto como informação. E, enquanto Washington e Teerã negociam sob bombardeios, resta a dúvida: o alvo é a montanha, ou o rumo da própria guerra.
Fontes: The Wall Street Journal, ABC News, Forbes, CBS News, Institute for Science and International Security e Reuters.