"Não vamos entregar o Donbas": Ucrânia marca 35 anos sob guerra
Ucrânia completa 35 anos de independência sob guerra. Zelensky rejeita entregar o Donbas, cobra aliados por armas e pede que a China "pare de ficar em silêncio".
A Ucrânia completou nesta segunda-feira (24) 35 anos de independência em um cenário que os parlamentares que votaram pela separação da União Soviética em 1991 jamais imaginariam. Na praça em frente ao Mosteiro de São Miguel das Cúpulas Douradas, em Kiev, tanques russos destruídos serviam de cenário para o discurso do presidente Volodymyr Zelensky — vestindo a tradicional camisa ucraniana bordada, ladeado por líderes europeus.
Foram 1.643 dias de guerra em larga escala. "A Ucrânia quer absolutamente a paz, mas não está pronta para simplesmente se render", disse Zelensky.
Um discurso com três destinatários
O endereço de Zelensky foi cuidadosamente construído para falar a três públicos ao mesmo tempo: os ucranianos, a Rússia e os aliados ocidentais. Para cada um, houve um tom diferente — mas o mesmo recado de fundo: a Ucrânia não vai recuar.
Aos ucranianos, o presidente reconheceu que "as coisas estão genuinamente muito, muito difíceis para todos nós", mas afirmou que uma "força visível" segura o país pela mão. Ele homenageou os mortos, os soldados na linha de frente e a resiliência de uma nação que, segundo ele, "já está derrotando a Rússia".
O recado à Rússia
A parte mais contundente do discurso foi dirigida a Moscou. Zelensky abandonou o tom diplomático e falou diretamente ao adversário.
"Vocês queriam tomar toda a nossa Ucrânia, toda a nossa terra. Em vez disso, perderam suas refinarias de petróleo, sua frota, seus lucros e toda uma geração que vocês enviaram para o moedor de carne." — Volodymyr Zelensky
Sobre a mobilização russa de até 300 mil homens que a inteligência ucraniana detectou, Zelensky foi igualmente direto: "Eles vão perder todos os 300 mil mobilizados ali. Nós os eliminaremos." E acrescentou um recado pessoal a Putin: "Seu líder é mortal e está ficando sem tempo."
O Donbas como linha vermelha
A questão territorial foi o eixo central. Zelensky rejeitou explicitamente a exigência russa de que a Ucrânia ceda o restante do Donbas — a região de Donetsk e Luhansk parcialmente ocupada — como condição para a paz.
"Não vamos deixar que eles tomem a iniciativa, enganem a Europa e o mundo inteiro fazendo-os pensar que simplesmente precisamos entregar o Donbas e tudo acabará em breve." — Volodymyr Zelensky
Para o presidente, ceder o Donbas não encerraria a agressão russa, mas apenas alimentaria a próxima etapa. A história, disse ele, prova que cada concessão territorial incentiva Moscou a buscar mais.
A cobrança aos aliados
Zelensky dedicou boa parte do discurso a pressionar os parceiros internacionais. Pediu que os aliados dessem à Ucrânia "tudo o que ela precisa" para encerrar a guerra, cobrou sanções mais duras contra a Rússia e fez dois apelos diretos inéditos.
Sobre os Estados Unidos, disse esperar que Washington "perca todas as contradições e fobias" em relação à Rússia. E, em um gesto raro na diplomacia ucraniana, cobrou a China publicamente: "A China não deve mais permanecer em silêncio."
Líderes europeus em Kiev
A cerimônia na Catedral de Santa Sofia contou com a presença de líderes que reforçaram o compromisso europeu. O primeiro-ministro britânico Andy Burnham, em sua primeira visita a Kiev no cargo, anunciou apoio britânico para a produção doméstica ucraniana de mísseis de longo alcance — uma mudança significativa que permitiria a Kiev depender menos de entregas externas.
Burnham também copresidiria com o presidente francês Emmanuel Macron e o chanceler alemão Friedrich Merz uma reunião virtual da "Coalition of the Willing" — o grupo de países que apoiam a Ucrânia. Na pauta, o pedido ucraniano de mais sistemas de defesa aérea para conter os mísseis balísticos russos.
O presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, foi condecorado por Zelensky com uma premiação estatal ucraniana. A presença dos líderes em Kiev — sob risco constante de ataques aéreos — carrega uma mensagem simbólica por si só.
O momento mais difícil da guerra
O Dia da Independência coincide com um dos períodos mais complexos do conflito. As negociações de paz lideradas pelos EUA travaram no início do ano, quando a guerra com o Irã consumiu a atenção de Washington. A Rússia intensificou os ataques aéreos explorando a escassez de interceptadores ucranianos. Moscou prepara uma nova onda de mobilização de até 500 mil soldados. E a linha de frente, apesar de enormes perdas russas, segue praticamente estática.
A Ucrânia, por sua vez, ampliou os ataques profundos em território russo — atingindo refinarias, depósitos e infraestrutura logística a mais de mil quilômetros de suas fronteiras. A estratégia provoca escassez de combustível na Rússia e eleva o custo da guerra para Moscou, mas não conseguiu, até agora, forçar Putin à mesa de negociação.
35 anos: da independência à resistência
Em 24 de agosto de 1991, o parlamento ucraniano votou pela declaração de independência, confirmada meses depois em um referendo com 92% de aprovação. A separação da União Soviética foi pacífica. Ninguém imaginava que, três décadas e meia depois, a soberania conquistada no papel seria testada nos campos de batalha do Donbas.
Zelensky encerrou o discurso com uma frase que resume o espírito do momento: "A guerra transformou o caráter desta data. Não comemoramos, resistimos." Entre tanques destruídos e cúpulas douradas, a Ucrânia celebra seu aniversário como faz há quatro anos e meio — de pé, sob fogo, e recusando-se a ceder.
Fontes: Reuters, Associated Press, South China Morning Post e Global Security.