Netanyahu diz que vilas cristãs libanesas pediram anexação a Israel
Netanyahu diz que vilas cristãs do sul do Líbano pediram anexação a Israel para escapar do Hezbollah. Autoridades libanesas negam e chamam versão de fabricada.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que algumas vilas cristãs do sul do Líbano teriam "pedido para serem anexadas" a Israel em busca de proteção contra o Hezbollah. A declaração, dada à rede americana Fox News no domingo (5), provocou reação imediata — e uma negação firme do lado libanês.
A fala se insere em um discurso mais amplo do premiê sobre a proteção de cristãos no Oriente Médio. Mas autoridades libanesas rejeitaram a versão e a classificaram como "fabricada e sem relação com a realidade".
O que disse Netanyahu
Durante o programa "The Sunday Briefing", da Fox News, Netanyahu afirmou que Israel protege comunidades cristãs de quem, segundo ele, quer exterminá-las.
"Vilas cristãs no Líbano, algumas delas de fato pediram para ser anexadas a Israel, porque as protegemos contra os fanáticos do Hezbollah que querem matá-las — e fazemos o mesmo pelos cristãos em toda parte." — Benjamin Netanyahu
O premiê não nomeou nenhuma das vilas nem esclareceu se os supostos pedidos foram feitos de forma pública ou privada. Ele foi além e afirmou que não seriam só os cristãos a buscar proteção israelense, mas também drusos, sunitas e "alguns xiitas".
O Líbano nega com veemência
A resposta do outro lado da fronteira foi categórica. O prefeito de Debel, Joseph Attieh, negou qualquer pedido de proteção. "Diga ele o que disser, nunca pedimos proteção a ninguém. Temos o Estado libanês e continuaremos libaneses", afirmou ao jornal The National.
Autoridades das cidades de maioria cristã Rmeish e Ain Ebel também rejeitaram a versão. Representantes de mais de uma dúzia de vilarejos da fronteira sul chamaram as alegações de "fabricadas". Vilas da região de Marjeyoun reforçaram não ter "nem o poder nem o direito legal" de tomar decisões dessa magnitude, reafirmando sua lealdade à bandeira libanesa.
Como o Líbano entrou na guerra
O contexto ajuda a entender a tensão. O Líbano foi arrastado para a guerra mais ampla no Oriente Médio em 2 de março de 2026, quando o Hezbollah disparou foguetes contra Israel em apoio ao Irã — então alvo de um ataque conjunto dos EUA e de Israel.
Israel respondeu com pesados bombardeios e uma invasão terrestre do sul libanês, onde suas tropas ainda ocupam faixas de território perto da fronteira. Ao longo do conflito, várias aldeias cristãs sofreram ataques, destruição e ordens de evacuação, ainda que a maioria siga habitada.
Israel não pretende recuar
Em uma cerimônia oficial no mesmo domingo, Netanyahu reiterou que o exército manterá a presença no sul do Líbano "pelo tempo necessário para proteger os moradores do norte e todos os cidadãos de Israel".
O chefe do Estado-Maior israelense, tenente-general Eyal Zamir, visitou tropas próximas ao Castelo de Beaufort e prometeu que as forças continuarão a agir "de forma decisiva" contra ameaças vindas do território libanês, prontas para retomar operações ofensivas caso a trégua seja violada. Vale notar que os ministros israelenses Gideon Sa'ar e Israel Katz já declararam que o país não tem ambições territoriais no Líbano.
Atritos com Trump em cena
Na entrevista, Netanyahu também comentou os desentendimentos com Donald Trump em torno do memorando de entendimento assinado com o Irã, voltado a uma solução para o conflito regional.
"Temos uma relação excelente. Em 99% das vezes, pensamos igual. Mas, como em qualquer família, em toda amizade próxima, às vezes há diferenças de opinião — e as discutimos abertamente." — Benjamin Netanyahu
A fala amena contrasta com o tom de Trump. Segundo o site Axios, o presidente americano afirmou que Netanyahu "sabe quem manda" e, nas últimas semanas, criticou o premiê pela escalada no Líbano. Os dois devem se encontrar em breve em Washington.
Uma disputa de narrativas
A declaração de Netanyahu resume a guerra de versões que acompanha o conflito. De um lado, Israel apresenta sua presença no sul do Líbano como proteção a minorias ameaçadas. De outro, as próprias comunidades citadas rejeitam esse papel e reafirmam sua identidade nacional.
Entre uma narrativa e outra, permanece um fato incômodo: são justamente esses vilarejos que vivem sob ocupação, bombardeios e ordens de evacuação. E, enquanto a trégua com o Hezbollah segue frágil, o sul libanês continua no centro de uma disputa que mistura território, religião e geopolítica.
Fontes: Arab News, The Times of Israel, The National, Al Arabiya e Axios.