Em meio a uma trégua frágil no Oriente Médio, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu afirmou que a guerra com o Irã “não acabou”. A declaração foi feita em entrevista ao programa 60 Minutes, da CBS News, e recoloca o programa nuclear iraniano no centro da crise regional.
Segundo Netanyahu, Israel e seus aliados conseguiram degradar parte das capacidades do Irã, incluindo elementos do programa nuclear, redes apoiadas por Teerã em outros países e a capacidade iraniana de produzir mísseis. Mas, para o líder israelense, isso ainda não basta para considerar a guerra encerrada.
“A guerra não acabou.”
Netanyahu mira o urânio enriquecido
O ponto central da entrevista foi o urânio altamente enriquecido do Irã. Netanyahu afirmou que esse material precisa ser retirado do país e que as instalações de enriquecimento nuclear iranianas devem ser desmontadas. Para Israel, enquanto esse estoque permanecer sob controle de Teerã, a ameaça estratégica continuará existindo.
A preocupação israelense se concentra especialmente no urânio enriquecido a níveis elevados. O Irã nega buscar armas nucleares e afirma que seu programa tem fins civis. Israel, por outro lado, sustenta que a combinação de enriquecimento avançado, conhecimento técnico e infraestrutura subterrânea reduz o tempo necessário para uma possível corrida rumo à arma nuclear.
Para Netanyahu, a guerra só poderá ser considerada encerrada quando o material nuclear mais sensível do Irã for removido ou neutralizado.
Acordo seria o melhor caminho
Na entrevista, Netanyahu afirmou que um acordo seria a melhor forma de retirar o urânio enriquecido do Irã. A frase mostra que Israel não descarta uma solução diplomática, desde que ela resulte em medidas concretas e verificáveis sobre o programa nuclear iraniano.
O problema está nos detalhes. Para Israel, qualquer entendimento precisa incluir retirada do material nuclear, desmonte de instalações de enriquecimento e mecanismos de verificação capazes de impedir a retomada rápida do programa. Para o Irã, aceitar essas condições poderia ser visto internamente como capitulação estratégica após semanas de pressão militar e diplomática.
Quando questionado sobre o que aconteceria se não houvesse acordo, Netanyahu evitou apresentar um cronograma ou detalhar possíveis ações. Essa ambiguidade mantém a pressão sobre Teerã sem revelar publicamente os próximos passos militares ou diplomáticos de Israel.
Uma trégua sob desconfiança
A declaração ocorre em meio a uma trégua considerada frágil entre os Estados Unidos e o Irã. Embora canais diplomáticos sigam abertos, incidentes no Golfo, disputas sobre o Estreito de Ormuz e ataques envolvendo aliados regionais continuam alimentando a percepção de que a crise pode voltar a escalar rapidamente.
Netanyahu tenta deixar claro que, do ponto de vista israelense, uma pausa nos combates não equivale ao fim da ameaça. Para Israel, a guerra não se resume aos ataques recentes, mas à capacidade futura do Irã de reconstruir infraestrutura nuclear, apoiar grupos aliados e manter um arsenal de mísseis capaz de atingir território israelense.
Essa diferença de leitura é importante. Para Washington, uma trégua pode funcionar como primeiro passo para reduzir a crise. Para Israel, ela só terá valor duradouro se vier acompanhada de garantias nucleares e militares mais profundas.
O peso das instalações nucleares iranianas
O programa nuclear iraniano é composto por instalações conhecidas internacionalmente, como Natanz, Fordow e Isfahan. Algumas delas foram construídas com proteção subterrânea, justamente para dificultar ataques aéreos e operações de sabotagem. Esse fator torna qualquer tentativa de neutralização militar mais complexa e arriscada.
A Agência Internacional de Energia Atômica já alertou sobre a dificuldade de verificar plenamente estoques e atividades nucleares iranianas após períodos de acesso reduzido. Para Israel e seus aliados, essa incerteza amplia a sensação de urgência. Para Teerã, por outro lado, o programa nuclear é apresentado como símbolo de soberania e avanço científico.
O desmonte dessas instalações, como propõe Netanyahu, seria uma exigência muito mais dura do que simples limitação temporária do enriquecimento. Por isso, a proposta tende a encontrar forte resistência iraniana, especialmente se vier acompanhada de ameaça militar.
A pressão sobre Washington
A fala de Netanyahu também pressiona os Estados Unidos. Israel quer garantir que qualquer acordo mediado por Washington não apenas suspenda a guerra, mas elimine o que considera a base material da ameaça nuclear iraniana.
O governo americano tenta equilibrar dois objetivos difíceis: evitar uma escalada regional maior e impedir que o Irã avance em direção a uma capacidade nuclear militar. Para isso, precisa manter Israel alinhado, convencer Teerã a aceitar limites verificáveis e preservar apoio de aliados europeus e regionais.
Ao dizer que a guerra não acabou, Netanyahu reduz o espaço político para um acordo considerado fraco por Israel. A mensagem é simples: uma trégua sem solução nuclear seria apenas uma pausa, não o fim da crise.
O risco de uma nova escalada
A posição israelense aumenta o risco de novas tensões, principalmente se as negociações com o Irã não avançarem. Caso Teerã rejeite a retirada do urânio enriquecido ou o desmonte de suas instalações, Israel pode defender novas medidas de pressão, incluindo operações clandestinas, ataques limitados ou apoio a sanções mais duras.
O Irã, por sua vez, pode responder acelerando partes do programa nuclear, restringindo cooperação com inspetores internacionais ou ampliando pressão por meio de aliados regionais. Em um ambiente já marcado por ataques no Golfo, bombardeios no Líbano e tensão no Estreito de Ormuz, qualquer movimento mal calculado pode reacender a guerra.
O maior perigo é que a trégua reduza o ritmo dos ataques, mas não resolva a disputa que levou à guerra.
Uma guerra suspensa, não encerrada
A entrevista de Netanyahu deixa claro que Israel vê a atual fase como uma pausa operacional, não como encerramento definitivo da guerra. O primeiro-ministro reconhece que capacidades iranianas foram degradadas, mas insiste que o material nuclear, as instalações de enriquecimento, os mísseis e as redes regionais apoiadas por Teerã ainda representam ameaça.
Essa posição complica a diplomacia. Para que a trégua se transforme em acordo, será preciso encontrar uma fórmula que o Irã consiga aceitar sem parecer derrotado, que os Estados Unidos consigam vender como avanço estratégico e que Israel considere suficiente para sua segurança.
Por enquanto, esse equilíbrio ainda não existe. Netanyahu está dizendo, em termos diretos, que a guerra só terminará quando a ameaça nuclear iraniana for removida de forma verificável. Até lá, mesmo com cessar-fogo, negociações e pressão internacional, Israel continuará tratando o Irã como uma ameaça ativa.
Fonte: CBS News, 60 Minutes e declarações públicas de Benjamin Netanyahu.