Netanyahu rejeita plano dos EUA para desarmar o Hamas em Gaza
Netanyahu diz que Israel não aceitou o plano dos EUA para desarmar o Hamas em Gaza. A recusa o coloca em rota de colisão com Trump a meses das eleições.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que Israel não aceitou o plano para Gaza apoiado pelos Estados Unidos. A declaração, sua primeira manifestação pública sobre o tema, coloca o premiê em possível rota de colisão com Donald Trump.
A recusa persiste mesmo após Israel receber uma garantia importante: a de que só precisará retirar suas tropas de Gaza depois do desarmamento completo do Hamas. O impasse não é sobre o "se", mas sobre a ordem das coisas.
O que disse Netanyahu
Em um vídeo publicado no Facebook na noite de terça-feira (4), Netanyahu foi direto ao rejeitar o documento enviado pela equipe de Trump.
"A equipe do presidente Trump acha que pode conseguir o desarmamento do Hamas e a desmilitarização de Gaza. Estamos analisando isso. Eles nos enviaram um rascunho — não concordamos com ele, não é o nosso plano. Enviamos nossos comentários." — Benjamin Netanyahu
O premiê reforçou a linha vermelha de Israel: as tropas não recuarão "das linhas atuais" enquanto o Hamas não depuser todas as suas armas. Ele acrescentou que permitirá ao exército "fazer tudo o que for necessário" para proteger seus soldados e o território.
O nó do problema: a sequência
O ponto central da disputa é a ordem das ações. O plano do chamado "Conselho de Paz" (Board of Peace), órgão liderado pelo diplomata Nickolay Mladenov, prevê que Israel recue para a chamada "Linha Amarela" original dentro de Gaza como parte de uma retirada em fases.
Israel, porém, trata a desmilitarização verificada do Hamas como uma pré-condição inegociável para qualquer retirada. O Hamas, por sua vez, vincula a entrega das armas pesadas ao fim das operações israelenses e à saída das tropas. Cada lado quer que o outro se mova primeiro — e é aí que o processo trava.
Um plano negociado sem Israel
Há um detalhe que ajuda a explicar a resistência de Netanyahu. O "rascunho" que ele diz ter rejeitado foi resultado de meses de negociações das quais Israel não participou — conduzidas entre o Hamas, o Conselho de Paz e os países mediadores.
Ou seja, o documento não era, a rigor, aberto a um debate com Israel. O gabinete de Netanyahu já havia dito que a versão tornada pública "não reflete as posições de Israel". O Hamas, na sexta-feira anterior, havia anunciado que aceitava o acordo, sinalizando disposição de entregar armas a um comitê palestino de governança.
O choque com Trump
A postura israelense é delicada porque contraria diretamente uma iniciativa pessoal de Trump, que celebrou a adesão do Hamas como um "passo monumental" rumo à estabilidade. A recusa pública de Netanyahu pode, assim, azedar a relação com seu principal aliado.
Analistas notam que a margem de manobra do premiê é estreita. "Netanyahu não tem outra opção a não ser ouvir seu único amigo restante na comunidade diplomática", avaliou um comentarista, em referência a Trump. A pressão americana para que Israel contenha os ataques em Gaza, aliás, já vinha surtindo algum efeito.
A pressão da extrema-direita
Netanyahu também enfrenta fogo dentro de casa. A poucos meses das eleições de outubro, seus aliados de extrema-direita — como o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich — denunciaram o acordo e exigem uma votação no gabinete para rejeitá-lo de vez.
Para uma base que cobra "vitória total" sobre o Hamas, qualquer retirada soa como concessão. Isso empurra o premiê para uma posição mais dura, ainda que ao custo de atritos com Washington. O equilíbrio entre agradar Trump e segurar a coalizão define, hoje, cada movimento de Netanyahu.
A guerra continua no terreno
Enquanto a diplomacia patina, os ataques prosseguem. Israel intensificou suas operações em Gaza desde o anúncio do plano, o que levou a pelo menos 26 mortos em um único fim de semana, incluindo mulheres e crianças, segundo autoridades locais. Apesar do cessar-fogo de outubro, Israel ainda controla cerca de 60% do território.
A escalada rendeu uma rara crítica de Mladenov, que condenou os ataques sem citar Israel diretamente. "Alcançar uma paz duradoura é difícil, mas possível, se todos se esforçarem ao máximo", escreveu o diplomata.
Um acordo à beira do colapso
O episódio revela a fragilidade do plano de paz mesmo depois do aparente avanço com o Hamas. Ter o grupo palestino a bordo não basta se a outra parte — Israel — se recusa a aceitar os termos da retirada.
No fim, tudo se resume a uma questão de confiança e de sequência: quem desarma e quem recua primeiro. Enquanto nenhum dos lados ceder nesse ponto, o acordo mediado por Trump corre o risco de se juntar à longa lista de tréguas anunciadas que nunca saíram do papel — e Gaza, mais uma vez, segue no limbo entre a guerra e uma paz que não chega.
Fontes: The Times of Israel, The National, The Jerusalem Post, Al Jazeera e CNN.