O presidente russo Vladimir Putin usou o desfile do Dia da Vitória, na Praça Vermelha, para associar a guerra na Ucrânia à memória da luta soviética contra a Alemanha nazista. Em discurso realizado neste sábado, 9 de maio de 2026, Putin afirmou que as tropas russas enfrentam, na Ucrânia, forças “armadas e apoiadas por toda a OTAN”.
A fala ocorreu durante uma cerimônia mais curta e discreta do que em anos anteriores. O desfile em Moscou durou cerca de 45 minutos, foi realizado sob forte esquema de segurança e não contou com a tradicional exibição de tanques e equipamentos militares pesados, segundo agências internacionais.
A mensagem central de Putin foi clara: apresentar a guerra na Ucrânia não apenas como um conflito territorial, mas como uma continuação simbólica da resistência russa contra ameaças externas.
Putin liga Ucrânia à memória da Segunda Guerra
Durante o discurso, Putin afirmou que a vitória soviética contra Adolf Hitler continua servindo de inspiração para os soldados russos que participam da chamada “operação militar especial”, termo usado pelo Kremlin para se referir à guerra na Ucrânia.
“A grande conquista da geração vitoriosa é hoje uma inspiração para os soldados que conduziram a operação militar especial. Eles enfrentam uma força ofensiva armada e apoiada por toda a OTAN”, disse Putin.
O presidente russo também afirmou estar “absolutamente convencido” de que a causa da Rússia é justa. Em seguida, declarou que o país está unido e que “a vitória foi nossa e será para sempre”.
A escolha das palavras reforça uma estratégia recorrente do Kremlin: conectar a guerra atual à memória da chamada Grande Guerra Patriótica, como a Rússia denomina o combate soviético contra a Alemanha nazista entre 1941 e 1945.
Um desfile menor e sob forte segurança
Apesar do tom de confiança no discurso, o desfile deste ano foi marcado por sinais de cautela. A cerimônia foi descrita como reduzida, com menos demonstração de poder militar e forte aparato de segurança em Moscou.
Segundo relatos da imprensa internacional, o desfile não exibiu tanques e armamentos pesados na Praça Vermelha, algo que chamou atenção pela importância simbólica da data para o Kremlin.
Jornalistas também relataram restrições de internet móvel no centro de Moscou e ruas mais vazias que o habitual durante as celebrações. A medida ocorreu em meio ao temor de ataques com drones ucranianos contra eventos ligados ao Dia da Vitória.
O contraste chamou atenção: enquanto Putin falava em força, unidade e vitória, o próprio formato da cerimônia revelava o peso da guerra sobre a capital russa.
O cessar-fogo em meio às comemorações
O desfile ocorreu em meio a uma nova tentativa de cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia. Nos dias anteriores, tentativas de interrupção dos combates já haviam sido violadas, mantendo alto o clima de desconfiança entre os dois lados.
A data também aumentou a tensão militar. O Dia da Vitória é uma das celebrações mais importantes do calendário russo, e qualquer ataque durante as cerimônias teria forte impacto simbólico, além das consequências militares e diplomáticas.
Por isso, o governo russo reforçou medidas de segurança em Moscou e em outras regiões, especialmente diante do risco de ataques com drones.
A presença de tropas norte-coreanas
Outro ponto de destaque foi a participação de soldados norte-coreanos nas celebrações em Moscou. A presença das tropas foi tratada como um gesto simbólico da aproximação entre Moscou e Pyongyang em meio à guerra na Ucrânia.
Segundo a televisão russa, militares norte-coreanos participaram das celebrações após terem ajudado Moscou a expulsar tropas ucranianas da região de Kursk na primavera de 2025.
Para o Kremlin, a presença norte-coreana serve como demonstração de que Moscou ainda mantém parceiros dispostos a apoiá-la, mesmo diante das sanções e do isolamento imposto por parte do Ocidente.
Para os países ocidentais, porém, essa aproximação reforça a preocupação com a cooperação militar entre Rússia e Coreia do Norte, especialmente em uma guerra marcada pelo uso intenso de drones, artilharia, mísseis e apoio externo.
A guerra também é travada pela memória
O discurso de Putin mostra como a memória da Segunda Guerra Mundial continua sendo uma ferramenta política central para a Rússia. A vitória soviética sobre o nazismo é um dos pilares da identidade nacional russa e ocupa lugar de enorme importância nas cerimônias oficiais do país.
Desde a invasão da Ucrânia em 2022, Moscou tenta associar a guerra atual a essa memória histórica, apresentando o conflito como uma luta contra forças hostis apoiadas pelo Ocidente.
Kiev e seus aliados rejeitam essa leitura e afirmam que a Rússia usa a narrativa antifascista para justificar uma guerra de agressão.
Na Praça Vermelha, o passado foi usado para reforçar uma mensagem sobre o presente: para Putin, a guerra na Ucrânia é também uma disputa contra a influência militar e política da OTAN.
O desfile do Dia da Vitória de 2026 mostrou duas imagens diferentes da Rússia em guerra. De um lado, Putin tentou projetar confiança, unidade nacional e continuidade histórica entre a vitória soviética de 1945 e o conflito atual na Ucrânia.
De outro, o formato reduzido da cerimônia, a ausência de equipamentos militares pesados, as restrições de segurança e o temor de ataques com drones revelaram que a guerra já influencia diretamente até os rituais mais simbólicos do poder russo.
A fala sobre forças “apoiadas por toda a OTAN” reforça a tentativa do Kremlin de enquadrar o conflito como uma disputa maior entre Rússia e Ocidente. Mais do que uma cerimônia militar, o desfile se tornou uma peça de comunicação estratégica em plena guerra.
Fonte: Reuters, Associated Press, AFP e Kremlin.