Putin admite escassez de combustível, mas promete avançar no Donbass
Putin admite escassez de combustível na Rússia após ataques de drones ucranianos a refinarias, mas garante avançar no Donbass e na "Novorrússia".
Vladimir Putin reconheceu pela primeira vez, neste domingo (28), que a Rússia enfrenta escassez de combustível provocada pelos ataques ucranianos de longo alcance contra refinarias e instalações de petróleo. Mesmo assim, o presidente russo afirmou que o problema é "temporário" e que Moscou não vai recuar de seu objetivo central no conflito.
Em entrevista à televisão estatal russa e em reunião com altos funcionários sobre o abastecimento, Putin tentou equilibrar dois recados: admitir a pressão sobre a economia e, ao mesmo tempo, projetar firmeza militar. "Estamos observando alguma escassez, mas não é crítica", disse o presidente.
O que Putin admitiu
Segundo o Kremlin, os repetidos ataques de Kiev à infraestrutura de hidrocarbonetos criaram filas em postos e faltas de abastecimento em várias regiões russas. Putin classificou a situação como um "déficit temporário" e prometeu acelerar os reparos nas refinarias e importar mais combustível para resolver o problema.
"Claro, esses golpes à nossa infraestrutura criam problemas, isso é óbvio. Todas as instalações danificadas estão sendo restauradas rapidamente, e as questões que surgem não são críticas." — Vladimir Putin
O presidente também afirmou que a Rússia precisa, com urgência, ampliar a produção de sistemas de defesa antiaérea para conter os drones ucranianos que vêm atingindo o setor petrolífero. Para Putin, essa é a "primeira tarefa": aumentar de forma rápida e significativa a fabricação dos equipamentos mais necessários.
A escassez que já chega à Sibéria
A crise de abastecimento começou em meados de junho e se espalhou para longe da linha de frente. Na região de Irkutsk, na Sibéria, a milhares de quilômetros da fronteira ucraniana, o governador local limitou a compra a 50 litros por veículo por dia nos postos estatais da Rosneft. Em meio à pressão, o governo russo afirmou que estuda proibir as exportações de diesel para proteger o consumo interno e garantir suprimento ao setor agrícola.
Os efeitos econômicos já aparecem. O banco central russo projeta crescimento entre 0,5% e 1,5% em 2026, e admite que meses de operação abaixo da capacidade no setor de combustíveis devem cobrar seu preço do PIB.
Novos ataques às refinarias
O reconhecimento de Putin veio no mesmo dia em que a Ucrânia manteve sua ofensiva. Segundo o presidente Volodymyr Zelensky, as forças ucranianas atingiram duas refinarias russas durante a madrugada — uma em Krasnodar, no sul, e outra na região de Yaroslavl, a cerca de 700 km da fronteira. Zelensky chamou as operações de "sanções de longo alcance".
Kiev tem intensificado nos últimos meses os ataques profundos contra a indústria militar e energética russa, com o objetivo de reduzir a receita que sustenta a guerra, agora no quinto ano. Apesar das sanções ocidentais, a Rússia segue entre os maiores exportadores de petróleo e gás do mundo.
O objetivo declarado: Donbass e "Novorrússia"
Apesar da pressão interna, Putin foi enfático ao dizer que os ataques não mudam os planos de Moscou. Para ele, o real objetivo das ofensivas ucranianas seria desviar a atenção e as forças russas de suas metas no campo de batalha — que ele resumiu como a "libertação completa do Donbass e da Novorrússia".
O termo, usado pelo Kremlin, faz referência às regiões de Donetsk e Luhansk (o Donbass) e às áreas de Zaporizhzhia e Kherson — os quatro territórios que a Rússia anexou em 2022, mas nunca chegou a controlar por completo.
Putin afirmou ainda que Kiev propôs uma suspensão mútua dos ataques de longo alcance como passo rumo a negociações, além de limitar os combates a essas quatro regiões. O presidente russo rejeitou as duas ideias. Segundo ele, a oferta busca proteger as forças ucranianas e abrir espaço para uma negociação em termos favoráveis ao adversário.
"Está claro por que essa proposta está sendo feita: porque nossos contra-ataques no território ucraniano são muito mais fortes e, francamente, mais destrutivos." — Vladimir Putin
O que está em jogo
A fala de Putin expõe um paradoxo do momento atual da guerra. Pela primeira vez, o Kremlin admite publicamente que a campanha ucraniana de drones tem custo real — filas nos postos, racionamento e impacto no PIB. Ao mesmo tempo, Moscou insiste que nada disso afeta a linha de frente nem altera seus objetivos territoriais.
O recado, portanto, é duplo: a Rússia sente o golpe na retaguarda, mas aposta que sua capacidade de resistir — e de revidar — é maior que a do adversário. Os próximos meses devem mostrar se o abastecimento se estabiliza ou se a guerra de desgaste energético se torna uma nova frente decisiva do conflito.
Fontes: Associated Press, Reuters, PBS NewsHour, CNBC e declarações oficiais do Kremlin.