Putin diz estar pronto para acordo, mas exige concessões da Ucrânia
Putin afirma que a Rússia está pronta para um acordo com a Ucrânia, mas diz que Kiev precisa aceitar concessões para encerrar rapidamente a guerra.
O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que a Rússia está pronta para fazer um acordo com a Ucrânia, mas declarou que Kiev também precisará aceitar concessões para que a guerra termine rapidamente.
A declaração foi feita nesta quinta-feira, 4 de junho, durante conversa com jornalistas em São Petersburgo, em meio à nova pressão diplomática envolvendo Moscou, Kiev, Washington e países europeus.
Putin tentou apresentar a Rússia como disposta a negociar, mas deixou claro que qualquer acordo dependeria de concessões ucranianas em pontos considerados centrais por Moscou.
Putin fala em acordo, mas mantém posição dura
Segundo Putin, a Rússia está preparada para chegar a um entendimento com a Ucrânia por meios pacíficos, especialmente com base em pontos discutidos anteriormente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante encontro no Alasca.
“Estamos prontos para fazer um acordo”, afirmou Putin, ao defender que a Ucrânia também aceite compromissos para encerrar o conflito.
O presidente russo argumentou que, se Kiev aceitar as concessões discutidas, a guerra poderia chegar rapidamente ao fim. No entanto, ele não apresentou publicamente todos os termos que Moscou considera indispensáveis.
Na prática, a fala combina uma mensagem diplomática com uma pressão militar: Putin diz aceitar negociação, mas insiste que a situação no campo de batalha favorece a Rússia.
Rússia diz estar avançando na Ucrânia
Putin afirmou que as forças russas continuam avançando diariamente e que Moscou possui recursos humanos, industriais e militares suficientes para alcançar seus objetivos.
Segundo o presidente russo, a Rússia teria retirado forças ucranianas de quase 2.500 quilômetros quadrados de território recentemente.
Ele também declarou que Moscou controla totalmente a região de Luhansk, cerca de 85% de Donetsk e aproximadamente 80% de Zaporizhzhia.
Essas regiões estão entre os territórios ucranianos que a Rússia declarou anexar em 2022, em uma medida rejeitada por Kiev e pela maior parte dos países ocidentais.
Donbass segue no centro da disputa
O ponto mais sensível continua sendo o Donbass, região do leste da Ucrânia formada por Donetsk e Luhansk.
Para Moscou, o controle dessas áreas é uma exigência central. Para Kiev, entregar território significaria aceitar uma perda permanente de soberania e criar uma posição militar ainda mais vulnerável diante da Rússia.
Putin afirmou que a Rússia poderia controlar o Donbass e, ainda assim, fazer um acordo. A declaração reforça a ideia de que Moscou tenta transformar sua posição militar em vantagem diplomática.
O problema é que, para a Ucrânia, concessões territoriais podem ser vistas não como paz, mas como recompensa à invasão russa.
Críticas ao exército ucraniano
Putin também afirmou que o exército ucraniano enfrenta uma “falta catastrófica de pessoal”. A fala faz parte da tentativa russa de apresentar Kiev como desgastada e pressionada militarmente.
Ao mesmo tempo, o presidente russo reconheceu que drones ucranianos continuam conseguindo atingir território russo. Segundo ele, a defesa aérea da Rússia precisa ser reforçada para lidar com essa ameaça.
Esse ponto mostra uma contradição importante no discurso de Moscou. A Rússia tenta projetar superioridade no campo de batalha, mas admite que ataques ucranianos com drones seguem representando um desafio crescente dentro do território russo.
Putin volta a citar o míssil Oreshnik
Outro trecho relevante da declaração envolveu o míssil hipersônico Oreshnik. Putin afirmou que a Rússia ainda não teria usado o sistema em condições reais de combate contra a Ucrânia, mas apenas realizado testes para observar seus resultados.
Segundo o presidente russo, esses testes seriam importantes para decisões futuras sobre o uso do míssil, inclusive contra alvos urbanos.
O Oreshnik é descrito pela Rússia como um sistema de alcance superior a 5.000 quilômetros e capaz de transportar ogiva nuclear. Putin já afirmou anteriormente que o míssil seria impossível de interceptar, embora especialistas ocidentais contestem essa avaliação.
A menção ao Oreshnik funciona como sinal de pressão estratégica: Moscou tenta lembrar Kiev e o Ocidente de que ainda possui opções militares de escalada.
Legitimidade de Zelensky volta a ser atacada
Putin também voltou a questionar a legitimidade do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.
Segundo o líder russo, qualquer acordo seria assinado com representantes legais da Ucrânia, “talvez até com Zelensky”, mas ele acrescentou que advogados teriam de avaliar se o presidente ucraniano ainda é legítimo.
Moscou tem usado esse argumento porque o mandato presidencial de Zelensky teria terminado em condições normais. No entanto, a Ucrânia está sob lei marcial desde a invasão russa de 2022, e a legislação ucraniana impede a realização de eleições nacionais enquanto esse regime estiver em vigor.
Para Kiev, a tentativa russa de questionar a legitimidade de Zelensky é uma manobra política para enfraquecer a posição ucraniana nas negociações.
União Europeia: sem mediação, mas com influência
Putin afirmou que a União Europeia não poderia atuar como mediadora neutra na guerra, já que países europeus fornecem apoio militar e político à Ucrânia.
Mesmo assim, ele disse que a UE poderia desempenhar um papel positivo se usasse sua influência para convencer Kiev a aceitar concessões.
A posição russa é clara: Moscou não vê a Europa como árbitro, mas como parte interessada no conflito. Ainda assim, quer que os governos europeus pressionem a Ucrânia em direção aos termos russos.
Putin também voltou a criticar a possibilidade de a União Europeia se transformar em um bloco militar, algo que classificou como motivo de preocupação para Moscou.
Schröder como possível mediador
Putin citou o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder como alguém que poderia atuar em uma eventual mediação entre Rússia e Europa.
O presidente russo descreveu Schröder como uma figura confiável e com opiniões próprias, embora tenha dito que Moscou não pretende ditar à Europa quem deve representar o continente em conversas com a Rússia.
A sugestão é politicamente sensível. Schröder é conhecido por sua proximidade histórica com Moscou e por sua ligação com projetos energéticos russos, o que torna seu nome controverso em vários países europeus.
Nord Stream 2 volta ao discurso russo
Putin também afirmou que a Rússia está pronta para retomar o envio de gás à Alemanha pelo Nord Stream 2, gasoduto danificado por explosões submarinas em 2022.
Segundo ele, uma das linhas do gasoduto permanece intacta e poderia começar a operar rapidamente, caso o governo alemão tome uma decisão política nesse sentido.
Putin afirmou que bastaria “apertar um botão” para o gás voltar a fluir, mas reconheceu que o gasoduto ainda está sob sanções dos Estados Unidos.
O presidente russo disse que a Rússia poderia fornecer até 28 bilhões de metros cúbicos de gás por ano à Alemanha, mas cobrou uma resposta clara de Berlim. Caso contrário, afirmou que Moscou venderá o gás a outros mercados.
Lavrov acusa Trump de continuar a política de Biden
As declarações de Putin foram acompanhadas por uma fala dura do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov.
Lavrov afirmou que a guerra que Moscou chamava de “guerra de Biden” teria se transformado na “guerra de Trump”, após declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, em apoio à Ucrânia.
Segundo Lavrov, se os Estados Unidos realmente buscassem um acordo de paz, as hostilidades já teriam terminado. Para o chanceler russo, as falas de Rubio mostram que não há diferença fundamental entre a postura americana e a europeia em relação à Ucrânia.
Esse discurso tenta apresentar Washington não como mediador, mas como parte ativa do conflito ao lado de Kiev.
O impasse continua
Apesar de Putin dizer que está pronto para um acordo, as declarações mostram que Moscou mantém exigências difíceis de aceitar para a Ucrânia.
A Rússia quer transformar ganhos territoriais e pressão militar em concessões políticas. A Ucrânia, por sua vez, afirma que qualquer paz precisa preservar sua soberania, impedir nova invasão e não legitimar a ocupação de territórios.
O resultado é um impasse. Cada lado fala em paz, mas define condições muito diferentes para alcançá-la.
As declarações de Putin mostram que Moscou tenta combinar abertura diplomática com pressão militar. O presidente russo afirma estar disposto a fazer um acordo, mas deixa claro que espera concessões significativas da Ucrânia.
Ao mesmo tempo, ele projeta confiança no avanço russo, ameaça com novas capacidades militares, questiona a legitimidade de Zelensky e tenta limitar o papel da União Europeia nas negociações.
O discurso russo aponta para uma paz nos termos de Moscou. Para Kiev, essa fórmula significaria aceitar perdas territoriais e riscos futuros. Para Washington e Europa, o desafio é definir até que ponto a diplomacia pode avançar sem transformar concessões em capitulação ucraniana.
No fim, a frase “estamos prontos para fazer um acordo” não indica necessariamente flexibilidade. Ela revela a estratégia russa: negociar a partir da força, exigir concessões e tentar apresentar a Ucrânia como responsável pela continuidade da guerra caso recuse os termos de Moscou.
Fonte: Reuters, Kyiv Post e declarações de Vladimir Putin e Sergei Lavrov.