Putin prepara maior mobilização desde 2022, afirma Zelenski
Rússia prepara mobilização de até 500 mil soldados após eleições para a Duma. Recrutamento voluntário colapsou e as perdas superam a reposição pela primeira vez.
A Rússia se aproxima de uma das decisões mais consequentes da guerra na Ucrânia. Segundo relatórios da inteligência ucraniana, confirmados por documentos internos russos citados pelo presidente Volodymyr Zelensky, o Kremlin prepara uma nova onda de mobilização militar para o início de outubro — a maior desde setembro de 2022 — com a convocação de 300 mil a 500 mil novos recrutas.
A decisão seria tomada logo após as eleições para a Duma Estatal, marcadas para 18 a 20 de setembro. Por trás do timing, há uma lógica política e uma lógica matemática — e ambas apontam na mesma direção.
O colapso do modelo de recrutamento
Para entender por que a mobilização voltou à mesa, é preciso olhar para os números que a tornaram inevitável. A Rússia sustentou seu esforço de guerra nos últimos dois anos com um modelo baseado em contratos voluntários: bônus generosos, salários regionais elevados e incentivos financeiros que, em algumas regiões, ofereciam ao soldado mais dinheiro em seis meses do que ele ganharia em cinco anos como trabalhador civil.
Esse modelo funcionou em 2023 e 2024, quando centenas de milhares de homens assinaram contratos atraídos pelo dinheiro. Mas em 2025 os sinais de esgotamento apareceram — e em 2026, o sistema entrou em colapso mensurável.
Os dados, compilados pelo pesquisador Janis Kluge, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e Segurança (SWP), com base em dados orçamentários federais, mostram a queda com clareza. No primeiro trimestre de 2026, apenas cerca de 800 contratos por dia estavam sendo assinados — o menor número em três anos. No segundo trimestre, o volume se recuperou parcialmente para cerca de 1.000 por dia, mas ainda ficou muito abaixo da meta do Kremlin de 1.100 a 1.150 diários.
Em termos absolutos: no primeiro semestre, apenas 71.200 recrutas receberam bônus de assinatura no primeiro trimestre, quando o plano previa ao menos 90 mil a 100 mil. Até o início de julho, dos 204.500 contratos planejados para o período, apenas cerca de 195 mil haviam sido efetivamente assinados.
A equação que não fecha
O problema central pode ser resumido em uma frase: a Rússia está perdendo soldados mais rápido do que consegue repô-los.
Segundo dados do Estado-Maior ucraniano, as forças russas sofreram aproximadamente 238.650 baixas (mortos, feridos, capturados e desaparecidos) nos primeiros sete meses de 2026. Julho foi o pior mês do ano, com 42.860 perdas — a primeira vez que o total mensal ultrapassou 40 mil.
No mesmo período, Zelensky afirmou que a Rússia havia alistado 221 mil pessoas, enquanto sustentava cerca de 225.500 baixas, incluindo 131 mil mortos e quase 93 mil feridos. A conta, portanto, ficou negativa: o recrutamento mal cobriu as perdas, sem gerar nenhum aumento líquido de tropas.

As perdas russas superaram o recrutamento por cinco meses consecutivos entre o fim de 2025 e o início de 2026, segundo o Estado-Maior ucraniano. Imagem ilustrativa
Esse é o ponto de virada. A Rússia entrou na guerra em fevereiro de 2022 com cerca de 200 mil soldados comprometidos na campanha. Ao longo de dois anos, expandiu suas forças para mais de 700 mil efetivos na Ucrânia. Mas pela primeira vez desde o início da invasão, esse número parou de crescer — e, em alguns períodos, começou a encolher.
Uma nota sobre os números
Uma ressalva é necessária. Os dados ucranianos de perdas russas são contestados e devem ser lidos com cautela. A Rússia não publica cifras oficiais de baixas desde os primeiros dias da invasão. As estimativas variam enormemente conforme a fonte.
O Estado-Maior ucraniano, em agosto, cita um total acumulado de cerca de 1,46 milhão de baixas russas desde fevereiro de 2022. Fontes ocidentais são mais conservadoras: estimativas de inteligência holandesa apontam 1,2 milhão de perdas permanentes, incluindo mais de 500 mil mortos. A Meduza e a Mediazona, veículos independentes russos, identificaram pelo nome mais de 352 mil mortos confirmados até maio de 2026 — um número reconhecidamente inferior ao real, por se basear apenas em fontes abertas.
Independentemente da cifra exata, todas as estimativas convergem numa tendência: as perdas russas aceleraram em 2025 e 2026, e o ritmo de reposição não acompanhou. É essa lacuna que empurra o Kremlin para a mobilização.
O que restou do arsenal
O desgaste não é apenas humano. Segundo a metodologia Oryx, baseada em documentação visual, a Rússia perdeu mais de 3.500 tanques confirmados por imagem, além de 7 mil veículos blindados e 350 aeronaves até a primavera de 2026. As perdas reais, incluindo as não documentadas visualmente, são estimadas entre 4.900 e 5.950 tanques.
Para compensar, Moscou recorreu a reservas soviéticas — cerca de 8 mil a 10 mil veículos armazenados, incluindo modelos T-72, T-80 e até T-62, um projeto dos anos 1960. A aparição dos T-62 no campo de batalha é, por si só, um indicador de que o estoque de veículos modernos está sob forte pressão. Os tanques mais capazes da Rússia, como o T-90M e o T-80BVM, estão sendo destruídos mais rápido do que a produção consegue substituí-los.
A ofensiva que estagnou
A urgência por mais tropas reflete também o impasse operacional. Nos primeiros seis meses de 2026, a ofensiva russa na Ucrânia não produziu os resultados que Putin esperava. A campanha se tornou lenta, cara e cada vez menos produtiva.
A Rússia ainda não capturou totalmente a região de Luhansk. No Donetsk, o custo humano por metro de avanço atingiu níveis extraordinários — mais de 300 a 400 soldados por quilômetro quadrado conquistado, segundo analistas. A ofensiva de primavera sozinha custou ao Kremlin cerca de 100 mil mortos e feridos, com ganhos territoriais marginais.
As forças russas conquistam, no máximo, cerca de 100 km² por mês — e em algumas áreas já perdem território para contra-ataques ucranianos. Para dimensionar: o Donetsk, alvo principal da campanha, tem 26.517 km². No ritmo atual, mesmo sem resistência, a conquista total levaria décadas.

A ofensiva russa estagnou em 2026, com ganhos mínimos no Donetsk e Luhansk. Mapa ilustrativo
A economia sob pressão
Mobilizar 300 mil a 500 mil soldados não é apenas um desafio militar — é um problema econômico de grandes proporções. A Rússia já enfrenta uma crise fiscal que limita sua capacidade de sustentar a guerra no ritmo atual, quanto mais ampliá-la.
Segundo o SIPRI, o orçamento de defesa planejado para 2026 é de 14,9 trilhões de rublos (cerca de 6,3% do PIB). Mas os gastos reais, incluindo despesas classificadas, são muito maiores. O ministro da Defesa Andrei Belousov admitiu que os gastos militares representaram 7,3% do PIB em 2025 — o patamar mais alto desde a Guerra Fria.
O resultado no orçamento é devastador. O déficit planejado para todo o ano de 2026 era de 3,8 trilhões de rublos. Nos primeiros quatro meses, o rombo já chegou a 5,9 trilhões — 55% acima da meta anual inteira. A receita com petróleo e gás caiu 30% em relação ao previsto, pressionada pelas sanções e pela volatilidade dos preços.
O Fundo de Riqueza Nacional, reserva de emergência do governo, encolheu de US$ 185 bilhões antes da guerra para cerca de US$ 35,7 bilhões. A Rússia pediu apoio macroeconômico à China. Pequim recusou.
O PIB, que cresceu mais de 4% em 2023 e 2024 graças aos gastos de guerra, deve avançar apenas 0,4% em 2026. A inflação segue alta, os juros estão em 16%, e o Ministério das Finanças pediu que órgãos do governo cortem 10% dos gastos não essenciais. Nesse cenário, treinar, equipar e pagar mais 500 mil soldados representaria uma pressão financeira adicional de dezenas de bilhões de dólares.
Os preparativos visíveis
Apesar das negativas oficiais do Kremlin, há sinais concretos de que a máquina administrativa já se prepara. A Rússia registrou um aumento acentuado nas vagas de trabalho ligadas a escritórios de registro e alistamento militar — cargos responsáveis pelo processamento de recrutas. Esses aumentos de pessoal só fazem sentido se as autoridades esperam receber um grande volume de convocados.
Paralelamente, Putin segue expandindo o efetivo autorizado das Forças Armadas por decreto. Desde o início da invasão, foram seis decretos presidenciais elevando o teto — três deles apenas nos últimos seis meses. Em julho de 2026, o contingente autorizado chegou a 2.426.130 membros, incluindo 1.535.000 militares ativos. Antes da guerra, o teto era de cerca de 1,9 milhão.
A lógica é estrutural: a expansão no papel cria vagas que o recrutamento voluntário não preenche, deixando a mobilização como a única saída rápida para fechar a lacuna — sem que o governo precise admitir explicitamente o fracasso do modelo de contratos.
O fantasma de 2022
A mobilização é um trauma recente na memória russa. Em setembro de 2022, Putin ordenou a primeira — e até agora única — convocação parcial. O efeito político foi severo: protestos eclodiram em várias cidades, com mais de mil pessoas presas. Cerca de um milhão de russos deixaram o país nos meses seguintes — a maioria profissionais qualificados, programadores, engenheiros e empresários que representavam um segmento produtivo da força de trabalho.
A fuga de cérebros agravou uma crise demográfica que já existia antes da guerra e contribuiu para a escassez de mão de obra que hoje afeta setores como tecnologia, construção civil e saúde. Desde então, Putin evitou repetir o gesto — até agora.
Será mobilização aberta ou "por outros meios"?
Nem todos os analistas apostam em um decreto formal. A Meduza, veículo independente russo, confirmou que autoridades ligadas ao Kremlin discutem "algo" para outubro, mas faz uma distinção importante: Moscou pode optar por uma "mobilização por outros meios" — combinando medidas compulsórias seletivas, pressão sobre governadores regionais, recrutamento em presídios e aumento de cotas locais.
Segundo Roger McDermott, pesquisador sênior da Saratoga Foundation, essa abordagem gradual é "muito mais crível" do que um decreto nacional. "Moscou é mais propensa a intensificar o modelo atual — combinando medidas compulsórias focalizadas, incentivos financeiros, metas regionais e pressão administrativa — do que declarar uma convocação aberta de 300 a 500 mil homens", escreveu em relatório publicado em agosto.
Do lado russo, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, nega categoricamente qualquer plano. "Não há necessidade de mobilização", repetiu em várias coletivas. Analistas citados pelo Moscow Times também expressam dúvidas: "Considerando os riscos políticos e econômicos, é muito improvável que o Kremlin opte por essa via", afirmou o pesquisador Kirill Shamiev.
500 mil soldados a mais mudariam a guerra?
Essa é a pergunta estratégica central — e a resposta dos analistas militares é predominantemente cética. Mobilizar centenas de milhares de tropas daria a Putin uma reserva numérica maior, mas não resolveria o problema fundamental: a guerra se tornou tecnologicamente complexa demais para que mão de obra bruta determine o resultado.
O campo de batalha ucraniano em 2026 está saturado de drones. Zelensky afirmou que 90% das baixas russas na linha de frente são causadas por drones ucranianos. Formações de assalto maiores, nesse contexto, provavelmente produziriam taxas de baixas mais altas, não avanços mais rápidos. Todas as tentativas russas de romper as defesas ucranianas usando grandes concentrações de blindados fracassaram consistentemente ao longo da guerra.
Além do combate em si, há um gargalo logístico severo. A campanha ucraniana de "bloqueio logístico" — com drones de longo alcance atingindo refinarias, depósitos de munição e ferrovias — dificulta o transporte de pessoal e suprimentos para a frente. Levar 500 mil novos soldados à linha de contato exigiria uma infraestrutura logística que a Rússia já tem dificuldade de manter para as tropas existentes.

O campo de batalha na Ucrânia é dominado por drones. Números maiores de tropas não compensam a superioridade tecnológica no combate moderno. Foto ilustrativa
Há ainda o problema do treinamento. Recrutas mobilizados em 2022 receberam, em muitos casos, apenas duas semanas de preparação antes de serem enviados ao front — com resultados desastrosos. Fontes ucranianas indicam que parte dos novos convocados seria novamente enviada às pressas, com o mesmo prazo mínimo, enquanto outros receberiam um mês de treinamento. Em ambos os cenários, os soldados chegariam sem experiência com drones, guerra eletrônica ou as dinâmicas do combate moderno.
Recrutas verdes não substituem operadores de drone experientes, comandantes de companhia competentes ou engenheiros de combate — funções que levam meses ou anos para formar. A experiência da Rússia com os soldados norte-coreanos, muitos dos quais sofreram pesadas baixas, reforça esse ponto.
O que a mobilização não resolve
Mesmo que Putin consiga mobilizar 500 mil homens, precisará equipá-los, armá-los, alimentá-los e transportá-los até a linha de frente. Cada um desses passos é um gargalo.
A produção de equipamento militar, embora elevada, já opera próxima do limite. A Rússia produz cerca de 1.500 tanques por ano (a maioria restaurados de reservas soviéticas), mas perde em média 150 a 200 por mês no campo de batalha. A produção de munição de artilharia chegou a 3 milhões de projéteis por ano, com suplemento de suprimentos norte-coreanos, mas o consumo diário permanece altíssimo.

O custo financeiro de manter um exército significativamente maior recairia sobre um orçamento que já está em colapso. A mobilização de 2022 custou ao Kremlin centenas de bilhões de rublos em bônus, uniformes, armas e logística. Uma segunda onda, duas vezes maior, exigiria recursos que o país simplesmente não tem — a menos que corte ainda mais os gastos civis, eleve impostos ou tome empréstimos que aprofundem o rombo fiscal.
A aprovação de Putin em queda
O contexto social também mudou desde 2022. Pesquisas recentes — que devem ser tratadas com cautela em um país sem liberdade de imprensa plena — registraram a maior queda de aprovação de Putin em mais de dois anos. A confiança pública no presidente também recuou.
A guerra deixou de ser uma abstração na TV estatal. A escassez de combustível provocada pelos ataques ucranianos a refinarias, as interrupções em aeroportos, as restrições à internet, a inflação persistente e o aumento de impostos trouxeram as consequências do conflito para o cotidiano dos russos. A promessa de uma "operação militar especial" rápida e vitoriosa se dissipou há mais de três anos.
Uma nova mobilização, nesse clima, encontraria uma sociedade mais cansada, mais cética e mais consciente do que espera quem vai para as trincheiras. O êxodo de 2022 foi possível porque as fronteiras estavam abertas e a guerra era recente. Agora, as rotas de fuga são mais estreitas e a vigilância do Estado, maior. Isso pode reduzir a emigração, mas não eliminará a resistência silenciosa.
O cálculo político de Putin
A decisão de esperar até depois das eleições para a Duma é reveladora. Os partidos alinhados ao Kremlin já terão garantido suas cadeiras. Candidatos que defendiam o fim da guerra foram, segundo relatos, removidos das cédulas. O pleito, descrito por Zelensky como "encenado", serviria para criar a aparência de apoio popular à guerra antes de anunciar a medida impopular.
Há também uma dimensão pessoal. Analistas notam que Putin precisa de "algum tipo de vitória" no Donbas para justificar o custo da guerra. A captura completa das regiões de Donetsk e Luhansk — objetivo que ele declarou publicamente — está longe de ser alcançada. A mobilização seria a última grande aposta para mudar a dinâmica do campo de batalha antes que a pressão econômica e social se torne insustentável.
O que isso significa para a Ucrânia e para o mundo
Se confirmada, a mobilização russa terá consequências que vão além do front. Para a Ucrânia, ela reforçaria a necessidade de mais armas de longo alcance, mais drones e mais sistemas capazes de eliminar tropas russas antes que cheguem à linha de contato. É o argumento central de Zelensky ao pedir apoio ocidental: atacar a logística que sustenta a mobilização — refinarias, depósitos, ferrovias, bases de treinamento — antes que os novos soldados alcancem o campo de batalha.

Para a Europa, uma Rússia que mobiliza meio milhão de homens é uma Rússia que se prepara para uma guerra mais longa, e não para negociar. Isso reforça a narrativa dos que defendem sanções mais duras e investimentos acelerados em defesa.
Para a própria Rússia, a mobilização seria um reconhecimento tácito de fracasso: o modelo de contratos voluntários não funciona mais, a guerra não será vencida rapidamente e o custo humano está subindo. Ainda que o Kremlin jamais use essa linguagem, os números falam por si.
Uma aposta de alto risco
Seja por decreto aberto ou por pressão silenciosa, a Rússia precisa de mais homens — e o modelo atual não os fornece. A questão não é se Putin reconhecerá essa lacuna, mas como escolherá preenchê-la e a que custo.
A mobilização de 2022 custou um milhão de emigrantes e a maior crise de confiança desde o início da guerra. Uma segunda onda, quatro anos mais tarde, encontraria um país com menos reservas financeiras, menos paciência social e uma guerra muito mais mortal do que qualquer propaganda consegue esconder.
Putin aposta que o controle sobre a mídia, a supressão da oposição e o timing pós-eleitoral serão suficientes para absorver o choque. O que os dados mostram é que ele pode estar certo no curto prazo — mas que, no longo, cada novo soldado enviado a uma trincheira saturada de drones é um custo que a Rússia paga duas vezes: uma no front e outra em casa.
Fontes: Meduza, Ukrinform, The Moscow Times, Euromaidan Press, UNITED24 Media e Russia Matters.