Putin rejeita paz e prepara escalada na Ucrânia

Por Cenas de Combate

Fontes próximas ao Kremlin dizem à Reuters que Putin rejeita a paz e prepara escalada na Ucrânia, com risco de ataques a bases da OTAN na Europa.

Putin rejeita paz e prepara escalada na Ucrânia

O presidente russo Vladimir Putin estaria rejeitando os apelos para negociar a paz com Kiev e se preparando, ao contrário, para escalar a guerra na Ucrânia. A informação é de uma reportagem exclusiva da agência Reuters, baseada em três fontes próximas ao Kremlin que falaram sob anonimato.

Segundo essas fontes, a recente campanha ucraniana de ataques com drones contra refinarias e portos russos, longe de intimidar Moscou, teria reforçado a decisão de Putin de continuar lutando. Uma das fontes falou em "alta probabilidade" de escalada nos próximos meses.

Um relato que contradiz Trump

O timing da reportagem é revelador. Ela surge poucos dias depois de Donald Trump afirmar que Putin queria o fim da guerra e que uma solução estava "mais próxima do que as pessoas imaginam". O presidente americano teve ligações separadas com Putin e com Volodymyr Zelensky e se reuniu com o ucraniano na cúpula da OTAN.

O presidente Donald Trump realiza uma reunião bilateral com o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy ao mesmo tempo que a cúpula dos líderes da OTAN no Complexo Presidencial Bestepe, em Ancara, Turquia, em 8 de julho de 2026.Crédito: Win McNamee/Getty Images

As fontes ouvidas pela Reuters, porém, pintam um quadro oposto. Duas delas afirmam que Putin provavelmente vai intensificar o conflito, já em seu quinto ano. Um alto funcionário ucraniano reforçou a leitura: segundo ele, relatórios de inteligência indicam que Putin se prepara para "novos passos rumo à guerra, e não à paz".

Donbas: uma questão de princípio

No centro da recusa está o Donbas, no leste ucraniano. Putin mantém como objetivo principal capturar todo o território da região, onde o avanço russo desacelerou nos últimos meses. Uma das fontes disse que ele "cravou os pés" nessa meta e teria repreendido um grupo de conselheiros que sugeria um cessar-fogo congelando a atual linha de frente.

"A Rússia está pronta para uma solução pacífica, mas tem capacidade suficiente para agir de forma independente e continuar a operação militar especial." — Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin

Para a fonte que se reúne com frequência com o presidente, a captura do Donbas virou uma questão de princípio — Putin "precisa de algum tipo de vitória".

A sombra de um confronto com a OTAN

O ponto mais preocupante do relato é a discussão, cada vez mais aberta entre analistas militares russos, sobre atacar alvos europeus — incluindo bases da OTAN nos países bálticos.

Um movimento assim ameaçaria levar a Rússia a um confronto direto com a aliança, testando o Artigo 5, segundo o qual um ataque a um membro é um ataque a todos. Para Jack Watling, do instituto britânico RUSI, o objetivo não seria uma guerra aberta, mas dividir a OTAN.

"Os russos não buscam guerra com a OTAN. Mas ela pode ser usada para dividir a aliança sobre como responder." — Jack Watling, RUSI

Watling nota ainda que o aumento das tensões com a OTAN poderia dar a Putin a legitimidade política necessária para decretar a mobilização — medida impopular que ele evitou desde o início da guerra, mas que analistas ocidentais consideram necessária para conquistar o Donbas.

A pressão dos ataques ucranianos

Por trás dessa disposição de escalar está uma retaguarda pressionada. Os ataques ucranianos a refinarias e depósitos de combustível provocaram graves faltas de combustível e transferiram as consequências da guerra para milhões de lares russos. A aprovação de Putin segue alta, mas atingiu o menor nível desde 2022.

Em discurso a generais na semana passada, o presidente russo afirmou que os ataques ucranianos à infraestrutura energética justificam tomar mais território além do Donbas, como uma "zona de segurança". Já os aliados de Kiev querem aproveitar o que veem como uma virada na dinâmica da guerra, com alguns pedindo novas sanções para pressionar Moscou.

O plano dos "falcões"

O tom de escalada também aparece na imprensa russa. O ex-funcionário do Ministério da Defesa Andrei Ilnitsky escreveu, em coluna no jornal Kommersant, que uma intensificação começaria com a destruição de 30 grandes alvos industriais na Ucrânia, incluindo uma siderúrgica e o porto de Odessa.

Segundo ele, a fase seguinte poderia incluir ataques a bases da OTAN nos bálticos e na Romênia, além de fábricas da União Europeia que produzem drones e mísseis para a Ucrânia. Questionado sobre o texto, Peskov afirmou que a Rússia não pode "fechar os olhos para a militarização da Europa".

Entre a retórica e o risco real

É importante lembrar que o relato se apoia em fontes anônimas e reflete leituras de bastidores, não decisões oficialmente anunciadas. Ainda assim, o cenário descrito é grave: um líder convencido de que pode vencer no campo de batalha tende a ver pouca vantagem em negociar.

Se a análise se confirmar, os próximos meses podem trazer não o fim da guerra, mas sua expansão — com o risco inédito de arrastar a OTAN para o conflito. Entre o otimismo de Trump e o alerta das fontes do Kremlin, resta a dúvida sobre qual das duas narrativas prevalecerá.

Fontes: Reuters, US News, Cyprus Mail e Kommersant.

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