Sob ordens do Irã, houthis impõem pedágio armado no Mar Vermelho- menos os da China
Sob orientação do Irã, os houthis querem cobrar pedágio de navios no Mar Vermelho e atacar quem não pagar — mas isentam a China. Entenda a ameaça global.
Os rebeldes houthis do Iêmen preparam uma medida sem precedentes para controlar uma das rotas marítimas mais importantes do mundo. O grupo, alinhado ao Irã, estuda impor uma taxa de trânsito a todos os navios comerciais que cruzam o Estreito de Bab el-Mandeb — com uma exceção reveladora: as embarcações da China.
A iniciativa ameaça transformar uma passagem estratégica em um posto de pedágio armado. Navios que se recusarem a pagar poderão ser atacados, segundo fontes regionais.
Um pedágio no coração do comércio global
Segundo a agência Reuters, que ouviu fontes regionais a par das discussões, os líderes houthis analisam a viabilidade legal e técnica de cobrar a maioria das embarcações que passam pelo Bab el-Mandeb — o corredor estreito que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e, adiante, ao Canal de Suez.
Por ali passa boa parte do comércio entre a Europa e a Ásia, incluindo navios que transportam energia do Oriente Médio. Qualquer taxa obrigatória nessa via teria impacto direto sobre os custos globais de frete. Por enquanto, não há prazo definido para a implementação.
A digital do Irã
A conexão com Teerã não é especulação — é o ponto central da história. Segundo fontes citadas pela Reuters, o plano foi discutido durante a viagem de autoridades houthis ao Irã, para o funeral do líder supremo Ali Khamenei, morto no início da guerra.
Mais do que isso: os representantes houthis teriam retornado ao Iêmen acompanhados de assessores iranianos, enviados para ajudar a montar a estrutura que regularia as taxas no estreito. Segundo um oficial árabe da região, o objetivo iraniano é duplo — normalizar a cobrança em águas internacionais e aumentar a pressão sobre os Estados Unidos.

A exceção chinesa não é teoria
O tratamento privilegiado à China já pode ser observado na prática. Dias após o anúncio do bloqueio, dois superpetroleiros da estatal chinesa COSCO — o Xin Long Yang e o Cosnew Lake — atravessaram o Bab el-Mandeb sem serem atacados, cada um carregando cerca de 2 milhões de barris de petróleo saudita.
Curiosamente, ambos os navios anunciaram por rádio ter "tripulação chinesa a bordo" — um aparente salvo-conduto. A isenção reflete a aliança estratégica entre Pequim, Teerã e o eixo que a acompanha. A Rússia, vale notar, ainda não figura na lista de exceções.
O bloqueio à Arábia Saudita
A construção do mecanismo tarifário começou poucos dias depois de um passo ainda mais ousado. Em 20 de julho, os houthis anunciaram oficialmente um bloqueio naval à Arábia Saudita, em retaliação ao que chamam de bloqueio saudita ao Iêmen.
O porta-voz militar do grupo, Yahya Saree, descreveu a ação como uma resposta "olho por olho". E ela não ficou no papel: os houthis já atacaram ao menos dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho para fazer valer o embargo, levando Riad a suspender temporariamente seus embarques pela rota.
Uma rota que já sangra
O impacto econômico não é hipotético. Desde os primeiros ataques houthis, em 2023, boa parte das empresas de navegação já desviou seus navios para a rota mais longa ao redor da África, o que acrescenta cerca de duas semanas a cada viagem entre Ásia e Europa.
Os números mostram o estrago: o tráfego diário pelo Bab el-Mandeb despencou de mais de 70 navios antes da guerra para cerca de 28. Uma nova taxa obrigatória poderia interromper de vez o funcionamento estável do corredor, elevando fretes e prêmios de seguro em escala global.
O risco de uma resposta internacional
A ousadia dos houthis, porém, pode ter limites. Analistas apontam que o grupo enfrentaria forte oposição de países do Golfo e da Europa caso tente instalar um pedágio no estreito. O problema é que conter ataques constantes contra petroleiros gigantes e lentos exige um poder aéreo e naval que essas nações talvez não consigam mobilizar com rapidez.
Se implementada, a cobrança marcaria uma escalada perigosa: um ator não estatal ditando as regras de uma via internacional. Em um momento em que a guerra entre EUA e Irã já sacode o Estreito de Ormuz, um segundo estrangulamento no Mar Vermelho pode ser o empurrão que faltava para desestabilizar de vez o comércio marítimo mundial. Resta saber até onde os houthis — e Teerã, atrás deles — estão dispostos a ir.
Fontes: Reuters, The Times of Israel, Gulf News, Newsweek e S&P Global.