“Sem mim não haveria Israel”, Trump pressiona Netanyahu
Trump defende acordo com o Irã no G7, critica Netanyahu por ações no Líbano e afirma que Israel depende do apoio americano.
A relação entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu voltou a ficar sob tensão após o acordo entre Estados Unidos e Irã. Durante a cúpula do G7, na França, o presidente americano defendeu o entendimento com Teerã e afirmou que o ponto central continua sendo impedir que o Irã tenha uma arma nuclear.
Ao mesmo tempo, Trump voltou a pressionar Israel por causa das ações militares no Líbano e sugeriu que a Síria passe a lidar com o Hezbollah. A fala expôs um momento delicado entre Washington e Tel Aviv, justamente quando os Estados Unidos tentam sustentar uma nova etapa diplomática no Oriente Médio.
O recado de Trump é claro: ele quer manter Israel por perto, mas também quer controlar até onde Netanyahu pode ir depois do acordo com Teerã.
Trump defende acordo com o Irã
Durante o G7, Trump afirmou que o acordo com o Irã está avançando para uma segunda etapa e voltou a dizer que a prioridade dos Estados Unidos é impedir que Teerã desenvolva uma arma nuclear.
O presidente americano tentou apresentar o entendimento como uma vitória diplomática depois de semanas de tensão militar, ataques no Golfo, crise no Estreito de Ormuz e pressão sobre aliados no Oriente Médio.
Para Trump, o acordo permite reduzir o risco de uma guerra regional mais ampla e abrir espaço para que Washington concentre atenção em outros conflitos, especialmente a guerra na Ucrânia.
Netanyahu segue resistente
Do lado israelense, Netanyahu insiste que a luta de Israel ainda não acabou. O primeiro-ministro afirma que seu governo continuará neutralizando ameaças ligadas ao Hezbollah, ao Irã e a outros grupos que considera parte do eixo regional contra Israel.
Essa postura cria atrito com a estratégia americana. Trump quer preservar a nova trégua regional e evitar que ataques no Líbano ou na Síria coloquem o acordo com o Irã em risco. Netanyahu, por outro lado, não quer perder liberdade de ação militar em áreas que considera essenciais para a segurança israelense.
O resultado é uma tensão rara entre dois líderes que, publicamente, continuam defendendo uma relação próxima.
A frase que aumentou o atrito
Ao comentar sua relação com Israel, Trump afirmou que o país depende profundamente do apoio americano e sugeriu que sua própria atuação foi decisiva para a segurança israelense.
“Sem mim não haveria Israel”, afirmou Trump.
A frase teve impacto porque mistura apoio, cobrança e pressão política. Trump não rompe com Israel, mas deixa claro que espera influência sobre as decisões de Netanyahu, especialmente em um momento em que os Estados Unidos tentam consolidar o acordo com o Irã.
Para aliados de Israel, a declaração pode soar como reafirmação do apoio americano. Para críticos, pode ser interpretada como uma tentativa de Trump de subordinar a estratégia israelense aos seus próprios objetivos diplomáticos.
Pressão sobre o front libanês
O ponto mais sensível da divergência é o Líbano. Trump criticou ataques israelenses recentes e afirmou que Netanyahu precisa ser mais responsável em relação às operações contra o Hezbollah.
Segundo a imprensa americana, Trump classificou ofensivas israelenses no Líbano como excessivas e disse que não gostou do momento em que ocorreram, pouco antes da formalização do acordo com o Irã.
Para Washington, uma nova rodada de ataques em Beirute ou no sul do Líbano poderia dar a Teerã argumento para endurecer sua posição e colocar a trégua em risco. Para Israel, reduzir operações contra o Hezbollah pode permitir que o grupo se reorganize perto da fronteira.
Esse é o dilema central: os Estados Unidos querem estabilidade para sustentar o acordo com o Irã; Israel quer liberdade militar para impedir que o Hezbollah recupere força no Líbano.
A sugestão envolvendo a Síria
Trump também sugeriu que a Síria poderia assumir um papel maior no enfrentamento ao Hezbollah. A fala chamou atenção porque desloca parte do problema para Damasco, em um momento em que a Síria tenta reconstruir sua posição regional após anos de guerra civil e instabilidade.
“Se Israel não consegue fazer o trabalho sem matar todo mundo, a Síria deveria fazê-lo”, afirmou Trump.
A frase foi recebida como um sinal de que Washington busca alternativas para reduzir a pressão direta de Israel sobre o Líbano. No entanto, a proposta levanta dúvidas práticas: a Síria teria capacidade, estabilidade e interesse político para confrontar uma organização como o Hezbollah?
Aliança continua, mas com limites
Apesar do atrito, a aliança entre Estados Unidos e Israel continua firme. Washington segue sendo o principal parceiro militar, diplomático e estratégico de Israel. A diferença é que Trump tenta impor limites ao momento e à intensidade das ações israelenses.
Esse tipo de pressão não significa abandono de Israel. Significa que, para a Casa Branca, a prioridade imediata é impedir que o acordo com o Irã seja destruído por uma nova escalada no Líbano.
A tensão também mostra que a relação pessoal entre líderes não elimina divergências estratégicas. Trump e Netanyahu podem manter proximidade política, mas seus objetivos imediatos não são idênticos.
Irã observa a divisão
Teerã acompanha o atrito com atenção. Para o Irã, qualquer sinal de divisão entre Estados Unidos e Israel pode ser explorado nas próximas fases de negociação.
O Hezbollah já indicou que a presença israelense no Líbano e a continuidade dos ataques podem afetar o ambiente do acordo. Autoridades iranianas também têm reforçado que uma paz duradoura depende do fim da ocupação e da redução das operações israelenses em território libanês.
Isso coloca Washington em uma posição delicada. Se pressionar pouco Israel, pode perder espaço com o Irã. Se pressionar demais, pode gerar reação política em Israel e entre setores pró-Israel nos Estados Unidos.
A nova tensão entre Trump e Netanyahu mostra que o acordo entre Estados Unidos e Irã não encerrou as disputas no Oriente Médio. Ele apenas mudou o foco da crise. Agora, Washington tenta proteger a trégua regional enquanto Israel insiste que precisa manter liberdade de ação contra o Hezbollah e outras ameaças.
A frase de Trump sobre Israel expõe o grau de cobrança do presidente americano sobre Netanyahu. Ele quer reafirmar apoio, mas também quer influência sobre os próximos passos de Tel Aviv.
No fim, a aliança segue de pé, mas o acordo com Teerã abriu uma pergunta sensível: até onde Netanyahu poderá avançar no Líbano sem bater de frente com a nova estratégia diplomática de Trump?
Fonte: Reuters, CBS News, The Guardian, Al Jazeera, Hindustan Times e Moneycontrol.