Zelensky pressiona OTAN com força da Ucrânia

Por Cenas de Combate

Zelensky afirma na cúpula da OTAN que a Ucrânia elimina cerca de 30 mil militares russos por mês e questiona por que o país segue fora da aliança.

Zelensky pressiona OTAN com força da Ucrânia

Volodymyr Zelensky levou à cúpula da OTAN em Ancara uma das frases mais pesadas da guerra. O presidente ucraniano afirmou que a Ucrânia está eliminando cerca de 30 mil militares russos por mês e usou esse número para defender que seu país já se tornou uma das maiores forças de combate da Europa.

A mensagem foi direta aos aliados: Kyiv não quer mais ser vista apenas como um país que recebe ajuda militar. Zelensky tenta apresentar a Ucrânia como uma força que acumulou experiência real em drones, defesa aérea, ataques de precisão, guerra naval não tripulada e combate moderno contra a Rússia.

Em seu discurso no fórum da indústria de defesa da OTAN, o presidente ucraniano questionou se faz sentido manter fora da aliança um país que desenvolveu esse nível de capacidade defensiva durante uma guerra em larga escala.

“Vocês realmente acreditam que seria correto deixar fora da OTAN um país e um povo com este nível de capacidade defensiva?”, questionou Zelensky.

A provocação é clara: se a Ucrânia já combate como peça central da segurança europeia, por que ainda continua do lado de fora da principal aliança militar do Ocidente?

A frase de Zelensky em Ancara

Durante o evento da OTAN na Turquia, Zelensky afirmou que a Ucrânia elimina cerca de 30 mil soldados russos todos os meses. Ele disse ainda que, apenas em junho, quase 28 mil militares russos foram eliminados, com confirmação em vídeo para cada caso, segundo a versão apresentada por Kyiv.

O termo “eliminados”, usado por autoridades ucranianas, pode incluir mortos, feridos graves ou militares retirados de combate. Em uma guerra ativa, números de baixas são difíceis de verificar de forma independente e costumam fazer parte da disputa informacional entre os lados.

Mesmo assim, a fala teve peso político. Zelensky não usou o número apenas para descrever perdas russas. Ele usou a escala do combate para argumentar que a Ucrânia se tornou uma força militar moldada pela guerra real, com experiência que poucos países da OTAN possuem hoje.

Para Kyiv, a guerra contra a Rússia não é apenas uma tragédia nacional. Também se tornou um laboratório de defesa moderna, no qual drones, guerra eletrônica, defesa aérea, ataques de longo alcance e adaptação industrial passaram a definir a sobrevivência do país.

Ucrânia quer deixar de ser vista apenas como receptora de ajuda

Desde 2022, a Ucrânia depende de apoio militar ocidental para resistir à invasão russa. Sistemas de defesa aérea, munições, blindados, artilharia, drones, inteligência e financiamento externo foram essenciais para manter a capacidade de combate ucraniana.

Mas Zelensky tenta mudar a forma como os aliados enxergam essa relação. A Ucrânia não quer aparecer apenas como consumidora de armas ocidentais. Quer ser reconhecida como fornecedora de experiência, inovação e capacidade defensiva para a própria Europa.

Essa mudança de narrativa é importante. Países da OTAN treinam, planejam e se preparam para guerras de alta intensidade. A Ucrânia, porém, está lutando uma guerra desse tipo todos os dias contra uma potência nuclear com grande estoque de mísseis, artilharia e drones.

Por isso, Zelensky argumenta que a entrada da Ucrânia na OTAN não seria apenas benefício para Kyiv. Seria também um reforço para a aliança, que ganharia acesso direto à experiência ucraniana em guerra moderna.

A guerra dos drones como argumento estratégico

Zelensky destacou que drones mudaram profundamente a natureza da guerra. Segundo ele, a Ucrânia utiliza drones para atacar tropas russas, destruir equipamentos, atingir logística, proteger o Mar Negro e alcançar alvos em profundidade dentro do território russo.

O presidente ucraniano afirmou que a maioria das baixas russas recentes foi causada por drones. Também disse que a Ucrânia elevou para mais de 90% sua taxa de interceptação contra drones Shahed lançados pela Rússia.

Esse ponto é central para a OTAN. A guerra na Ucrânia mostrou que drones baratos, produzidos em massa e integrados a inteligência, artilharia e guerra eletrônica podem alterar o equilíbrio no campo de batalha.

A Ucrânia tenta transformar sua experiência em drones em capital político: quem aprendeu a sobreviver contra a Rússia pode ensinar a Europa a se defender de uma guerra parecida.

O fim da retaguarda segura da Rússia

Outro ponto forte do discurso foi a afirmação de que a Ucrânia eliminou a ideia de uma retaguarda estratégica segura para a Rússia. Zelensky citou ataques ucranianos contra refinarias e alvos em profundidade, incluindo uma refinaria em Omsk, na Sibéria.

Segundo ele, Moscou acreditava que sua dimensão territorial criava zonas seguras para produção militar, logística e infraestrutura energética. A campanha ucraniana de drones de longo alcance busca justamente quebrar essa vantagem.

Na prática, Kyiv tenta fazer com que a guerra pese também dentro da infraestrutura russa. Ao atingir refinarias, depósitos, bases, fábricas e logística, a Ucrânia aumenta o custo da invasão e tenta reduzir a capacidade de Moscou de sustentar operações no front.

Essa campanha também interessa aos aliados da OTAN. Ela mostra como ataques de precisão e drones de longo alcance podem atingir vulnerabilidades estratégicas sem depender apenas de grandes frotas aéreas convencionais.

O pedido por defesa antiaérea e antimísseis

Apesar de exaltar a capacidade militar ucraniana, Zelensky reconheceu uma vulnerabilidade crítica: a defesa contra mísseis balísticos russos. Segundo ele, essa ainda é uma das últimas grandes vantagens de Moscou no campo de batalha.

O presidente ucraniano pediu mais mísseis de defesa aérea e defendeu que a Europa desenvolva sua própria capacidade de produzir sistemas antibalísticos e interceptadores em larga escala. Para Kyiv, depender apenas dos sistemas Patriot dos Estados Unidos não é suficiente diante da demanda crescente.

A urgência é clara. A Rússia continua lançando grandes ataques com drones, mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos contra cidades, infraestrutura e alvos militares ucranianos. Quando os interceptadores acabam ou são insuficientes, os ataques balísticos se tornam especialmente difíceis de conter.

Zelensky resumiu o dilema ao dizer que a Ucrânia é capaz de fazer quase todo o resto, mas precisa da determinação dos parceiros quando o assunto é defesa aérea.

Por que a OTAN ainda mantém a Ucrânia fora

A grande contradição é que a Ucrânia se apresenta como peça central da segurança europeia, mas continua fora da OTAN. A principal razão é o risco de escalada direta com Moscou.

Se a Ucrânia entrasse na aliança durante a guerra, a aplicação do Artigo 5 poderia ser interpretada como obrigação de defesa coletiva contra a Rússia. Isso colocaria a OTAN diante de uma possibilidade de confronto direto com uma potência nuclear.

Por esse motivo, aliados importantes, incluindo os Estados Unidos, resistem à ideia de admitir um país em guerra ativa contra Moscou. A posição não significa necessariamente rejeição definitiva à Ucrânia, mas revela o limite político e estratégico da aliança.

Para Kyiv, esse argumento é injusto. A Ucrânia entende que já defende, na prática, a fronteira oriental da Europa contra a Rússia. Para muitos aliados, porém, a entrada formal durante a guerra poderia transformar uma guerra regional em conflito direto entre OTAN e Rússia.

O valor militar da experiência ucraniana

Mesmo fora da OTAN, a Ucrânia já influencia profundamente a doutrina militar ocidental. Exércitos europeus observam o uso ucraniano de drones, guerra eletrônica, artilharia, defesa em profundidade, ataques navais não tripulados, dispersão de forças e produção descentralizada de armamentos.

A guerra mostrou que arsenais tradicionais podem se esgotar rapidamente em um conflito de alta intensidade. Também revelou que sistemas caros precisam ser combinados com meios baratos, numerosos e adaptáveis.

Essa experiência tem valor enorme para a OTAN. Países que passaram décadas planejando guerras curtas, tecnológicas e dominadas por superioridade aérea agora observam um conflito longo, brutal e industrial, onde munição, drones, mão de obra e logística voltaram ao centro da estratégia.

Zelensky sabe disso. Ao defender a entrada da Ucrânia na aliança, ele não fala apenas de proteção. Fala também de contribuição militar concreta.

A cúpula de Ancara e o futuro da segurança europeia

A fala de Zelensky ocorreu em uma cúpula marcada por pressão sobre gastos militares, incerteza sobre o papel dos Estados Unidos, guerra no Oriente Médio e necessidade de reforçar a defesa europeia. Nesse cenário, a Ucrânia tenta ocupar o centro do debate.

Enquanto líderes da OTAN discutem novos compromissos de defesa, Kyiv tenta mostrar que sua experiência não pode ficar do lado de fora da arquitetura de segurança europeia. A guerra contra a Rússia transformou a Ucrânia em um dos países mais militarizados e operacionalmente experientes do continente.

Ao mesmo tempo, a aliança precisa administrar seus próprios limites. Apoiar a Ucrânia é uma coisa. Incorporá-la formalmente enquanto a guerra continua é outra, muito mais arriscada.

Esse impasse define o momento atual: a OTAN precisa da experiência ucraniana, mas teme as consequências de oferecer a Kyiv a proteção plena da aliança.

Zelensky usou a cúpula da OTAN em Ancara para transformar o sacrifício militar da Ucrânia em argumento político. Ao afirmar que seu país elimina cerca de 30 mil militares russos por mês, ele tentou mostrar que Kyiv não é apenas dependente da ajuda ocidental, mas uma força de combate com experiência real contra a Rússia.

A Ucrânia desenvolveu capacidades avançadas em drones, defesa aérea, ataques de precisão, guerra naval não tripulada e produção militar em plena guerra. Para Zelensky, isso deveria aproximar o país da OTAN, não mantê-lo fora dela.

Mas o dilema da aliança continua. Admitir a Ucrânia durante a guerra poderia significar confronto direto com Moscou. Mantê-la fora, porém, reforça a contradição de deixar à margem justamente o país que mais entende da guerra moderna contra a Rússia.

No fim, a pergunta permanece: a OTAN está evitando uma escalada direta com Moscou — ou deixando fora da aliança justamente o país que mais entende da guerra contra a Rússia?

Fonte: Presidência da Ucrânia, The Guardian, Time, Reuters, Sky News e imprensa internacional.

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