Zelensky aumenta salários militares e busca mais voluntários estrangeiros
Zelensky anunciou aumento nos salários militares, novos contratos para combatentes de infantaria e mais canais para recrutar voluntários estrangeiros.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, anunciou um pacote de medidas para aumentar os salários militares, criar novos contratos para combatentes de infantaria e ampliar o recrutamento de voluntários estrangeiros para as Forças Armadas ucranianas.
A decisão ocorre em um momento delicado para Kiev. Após mais de quatro anos de guerra contra a Rússia, a Ucrânia enfrenta desgaste militar, escassez de pessoal e dificuldade para manter efetivos suficientes nas linhas de frente.
O aumento salarial mostra que Kiev tenta resolver um dos problemas centrais da guerra: manter soldados no front e atrair novos combatentes sem depender apenas de mobilização obrigatória.
Zelensky anuncia aumento nos salários militares
Em seu pronunciamento diário, Zelensky afirmou que o governo aprovou um caminho para fortalecer a sustentabilidade financeira da defesa ucraniana e continuar a transformação do Exército.
Segundo o presidente, o salário mínimo para militares em áreas de retaguarda será elevado para 30 mil hryvnias, cerca de 700 dólares. O valor representa aumento de aproximadamente um terço em relação ao patamar anterior.
“Temos os recursos para aumentar os pagamentos no Exército”, afirmou Zelensky ao anunciar as novas medidas.
A decisão busca aproximar o salário militar básico da média salarial nacional, que subiu durante a guerra em razão da falta de mão de obra em vários setores da economia ucraniana.
Infantaria na linha de frente receberá mais
A principal mudança, porém, atinge os soldados de infantaria que atuam diretamente na linha de frente.
Segundo Zelensky, os combatentes em missões de combate poderão receber, em média, 300 mil hryvnias por mês, cerca de 7 mil dólares. Atualmente, muitos desses militares recebem entre 100 mil e 150 mil hryvnias mensais.
A medida reconhece o papel central da infantaria na guerra de atrito contra a Rússia. Em um conflito marcado por drones, artilharia, minas, ataques de saturação e combates em trincheiras, os soldados que seguram posições no terreno continuam sendo decisivos.
A mensagem de Kiev é direta: a Ucrânia precisa valorizar mais quem sustenta o peso diário da guerra na linha de frente.
Novos contratos de duração fixa
O pacote também prevê a criação de novos contratos de duração fixa para missões de combate.
Os contratos terão períodos de 10, 14 ou 24 meses, com condições mais claras para os militares e possibilidade de desligamento temporário ao fim do prazo estabelecido.
Essa mudança busca tornar o serviço de combate mais previsível. Para muitos soldados, um dos maiores problemas da guerra prolongada é a incerteza sobre quanto tempo permanecerão mobilizados.
Em uma guerra longa, previsibilidade também vira ferramenta de recrutamento. Saber quando um contrato termina pode ser tão importante quanto saber quanto ele paga.
A criação de contratos com prazo definido pode ajudar Kiev a atrair novos militares, especialmente para funções de alto risco na infantaria.
Ucrânia quer recrutar mais estrangeiros
Zelensky também anunciou que ordenou a criação de novas oportunidades para o recrutamento de voluntários estrangeiros.
O presidente afirmou que haverá mais canais nessa direção, com o objetivo de ampliar a presença de combatentes internacionais nas forças ucranianas.
“Ordenei que fossem abertas significativamente mais oportunidades para voluntários estrangeiros ingressarem no Exército ucraniano”, disse Zelensky.
Desde o início da guerra em larga escala, milhares de estrangeiros viajaram para a Ucrânia para lutar ao lado das forças de Kiev. Estimativas de publicações militares ucranianas indicam que cerca de 10 mil voluntários estrangeiros, vindos de mais de 70 países, já se juntaram ao esforço militar ucraniano.
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Para Kiev, esses voluntários cumprem dois papéis: reforçam efetivos em áreas críticas e mantêm a guerra ucraniana visível como uma causa internacional contra a invasão russa.
Escassez de pessoal pressiona Kiev
A medida anunciada por Zelensky está diretamente ligada ao problema de efetivo.
A Ucrânia enfrenta dificuldades para repor perdas, rodar unidades desgastadas e manter pressão defensiva em uma linha de frente extensa. A Rússia, apesar das perdas elevadas, continua usando sua vantagem populacional e industrial para sustentar operações ofensivas.
Por isso, Kiev tenta combinar diferentes instrumentos: aumento salarial, contratos mais atrativos, simplificação de transferências dentro do Exército, melhores incentivos para comandantes e abertura de novos canais para voluntários estrangeiros.

O objetivo não é apenas aumentar números. É manter tropas motivadas, reduzir desgaste e preservar experiência de combate dentro das unidades.
Recorde de gastos com defesa
O aumento dos salários será sustentado por uma ampliação histórica dos gastos de defesa.
A Ucrânia elevou seus gastos com segurança e defesa para cerca de 4,4 trilhões de hryvnias, aproximadamente 97 bilhões de dólares, em 2026.
Parte importante desse esforço será financiada por um empréstimo de 90 bilhões de euros aprovado pela União Europeia para apoiar necessidades orçamentárias, industriais e militares da Ucrânia em 2026 e 2027.
Segundo o Ministério da Defesa ucraniano, mais de 1,45 trilhão de hryvnias será destinado à remuneração de militares, enquanto cerca de 2,3 trilhões de hryvnias serão voltados à compra de armas, veículos militares e equipamentos.
A Ucrânia está transformando ajuda financeira europeia em salários, armas, munição e capacidade de permanência na guerra.
O dinheiro europeu e a guerra de longo prazo
O empréstimo europeu é uma das peças centrais da estratégia ucraniana para 2026.
A União Europeia estruturou o pacote para ajudar Kiev a cobrir necessidades urgentes de orçamento e defesa, com uma parte significativa destinada à indústria militar e à compra de equipamentos.
Para a Ucrânia, isso significa fôlego financeiro em um momento em que a guerra continua consumindo recursos em escala enorme. Para a Europa, significa impedir que Kiev fique sem capacidade de sustentação enquanto a Rússia mantém produção militar elevada.
O pacote também mostra que a guerra deixou de ser apenas uma disputa no campo de batalha. Ela se tornou uma disputa de resistência econômica, industrial e demográfica.
Por que pagar mais pode fazer diferença?
Em guerras longas, o pagamento não resolve tudo. Soldados continuam expostos a risco extremo, desgaste psicológico, ferimentos, morte e longos períodos longe da família.
Mesmo assim, remuneração maior pode influenciar decisões individuais, especialmente quando combinada com contratos mais claros e benefícios definidos.
Para Kiev, melhorar o salário da infantaria é também uma forma de reconhecer que as funções mais perigosas precisam ser mais valorizadas. Isso pode ajudar no recrutamento e na retenção de soldados experientes.
Além disso, melhores pagamentos podem reduzir tensões internas entre militares de retaguarda e combatentes da linha de frente, um problema comum em guerras prolongadas.
O desafio da mobilização
A Ucrânia já vem discutindo há meses formas de reformar seu sistema de mobilização e tornar o serviço militar mais eficiente.
O problema é politicamente sensível. O país precisa de mais soldados, mas também precisa preservar apoio social à guerra. Mobilizações muito amplas ou mal administradas podem gerar desgaste interno.
Por isso, o governo tenta oferecer alternativas: contratos definidos, salários mais altos, incentivos para funções críticas e mais oportunidades para estrangeiros que queiram se juntar ao esforço militar.
A Ucrânia tenta equilibrar duas necessidades difíceis: manter tropas suficientes no front e evitar que a mobilização desgaste ainda mais a sociedade.
O anúncio de Zelensky mostra que a Ucrânia está tentando adaptar seu modelo militar a uma guerra longa, cara e marcada por escassez de pessoal.
O aumento dos salários militares, os novos contratos para combatentes de infantaria e a ampliação do recrutamento de voluntários estrangeiros fazem parte de uma mesma lógica: fortalecer a capacidade humana da defesa ucraniana.
A guerra contra a Rússia não depende apenas de tanques, drones, mísseis e defesa aérea. Ela também depende de pessoas dispostas a ocupar trincheiras, manter posições, operar sistemas, comandar unidades e resistir ao desgaste diário do front.
Com o apoio financeiro europeu, Kiev tenta transformar recursos externos em permanência militar. O desafio será fazer isso rápido o suficiente para aliviar a pressão sobre as linhas de frente.
Se funcionar, a medida pode ajudar a Ucrânia a ganhar tempo, preservar unidades e sustentar sua defesa. Se não funcionar, a falta de pessoal continuará sendo uma das vulnerabilidades mais sérias de Kiev diante da Rússia.
Fonte: Presidência da Ucrânia, Reuters e Ministério da Defesa da Ucrânia.